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Artur Ribeiro: é assim que eu escrevo
Retrato de Artur Ribeiro

Artur Ribeiro é um dos nomes pro­e­mi­nen­tes da nova gera­ção de argu­men­tis­tas e rea­li­za­do­res por­tu­gue­ses. Conheço-​​o bas­tante bem por­que tive a sorte de ter sido seu colega na dire­ção da APAD – Asso­ci­a­ção Por­tu­guesa de Argu­men­tis­tas e Dra­ma­tur­gos, durante os últi­mos anos.

Em 2011 o Artur esteve envol­vido numa ati­vi­dade fre­né­tica, escre­vendo oito tele­fil­mes e diri­gindo vários deles. Desafiei-​​o por isso para uma pequena entre­vista, con­ven­cido de que não iria ter tempo para res­pon­der. Feliz­mente para mim e para os lei­to­res deste blo­gue ele con­se­guiu esse tempo e respondeu-​​me a par­tir de um café de Nova Ior­que, a sua segunda cidade. Apro­veite para des­co­brir um pouco mais sobre a escrita de tele­fil­mes em Portugal.

Artur Ribeiro escrevendo

Artur Ribeiro escre­vendo na Lan­terna di Vitor­rio, Mac­Dou­gal St., Gre­enwhich Vil­lage, NY

João Nunes: Como é o teu pro­cesso de escrita nor­mal? És de tra­ta­men­tos, esca­le­tas, etc. ou pas­sas de ime­di­ato ao guião? Desen­vol­ves bio­gra­fias de per­so­na­gens, etc?

Artur Ribeiro: Faço sem­pre uma sinopse curta onde esta­be­leço as pre­mis­sas dra­má­ti­cas e um esboço do desen­vol­vi­mento do enredo assim como a ideia para o final. Mas passo rapi­da­mente ao guião pois não gosto de ter tudo bem defi­nido de forma esque­má­tica e pro­curo sem­pre algum pra­zer na des­co­berta da his­tó­ria durante a pró­pria escrita. Natu­ral­mente, mui­tas vezes chego ao final do guião com algu­mas alte­ra­ções às pre­mis­sas ini­ci­ais, mas que foram des­co­ber­tas de forma orgân­cia e com sen­tido para a his­tó­ria. Ness altura refaço a sinopse ini­cial. Quanto à des­cri­ção das per­so­na­gens, escrevo muito pouco, só uns tra­ços ini­ci­ais. De resto, ou elas se reve­lam no guião, ou então acho inú­til escre­ver lon­gas bio­gra­fias sobre elas.

Como já escre­veste lon­gas de cinema, e agora todos estes tele­fil­mes, quais são as prin­ci­pais dife­ren­ças que sen­tes entre escre­ver para um e outro meio?

Artur Ribeiro: Nos tele­fil­mes tenho de ter em conta as limi­ta­ções de pro­du­ção — tanto orça­men­tais como em dias de roda­gem — e por tal, pro­curo his­tó­rias que não sofram dra­ma­tur­gi­ca­mente com o número escasso de décors e de per­so­na­gens. Para cinema, à par­tida não há tanto esse cons­tran­gi­mento, embora eu tente sem­pre que as limi­ta­ções de pro­du­ção ine­ren­tes aos tele­fil­mes não pre­ju­di­quem a dra­ma­tur­gia e con­siga con­tar mais com menos. Natu­ral­mente, nos guiões para tele­fil­mes acaba por haver uma impor­tân­cia maior dos diá­lo­gos e sequên­cias mais lon­gas nos mes­mos décors, mas se isso fizer parte da his­tó­ria, à par­tida, não é uma fra­queza mas sim uma força. De resto, não encon­tro mui­tas dife­ren­ças em escre­ver para os dois meios. O impor­tante é o que temos para con­tar e dizer, e isso é inde­pen­dente das res­tri­ções de pro­du­ção ou mais ou menos dinheiro, e como dizia Fitz­ge­rald, “não se escreve para dizer algo, mas por­que se tem algo para dizer” — o meio não é impor­tante se tiver­mos algo para dizer e se o sou­ber­mos transmitir.

Como é o pro­cesso com­pleto de desen­vol­vi­mento de um guião de telefilme?

Artur Ribeiro: No meu caso, cos­tuma ser muito rápido da ideia à sua con­cre­ti­za­ção. Alguns des­tes tele­fil­mes que escrevi não tive­ram muito mais de um mês entre a pri­meira sinopse e a sua fil­ma­gem! Pes­so­al­mente, agrada-​​me essa rapi­dez de con­cre­ti­za­ção. Sobre­tudo, quando eu pró­prio rea­lizo, não deixa de me fas­ci­nar olhar para trás e pen­sar que a ideia que tive num café ou na praia ou numa con­versa com alguém, um mês antes, ganhou tão rapi­da­mente forma e som — as per­so­na­gens do papel para os cor­pos dos acto­res, das pala­vras escri­tas para as vozes repre­sen­ta­das, das des­cri­ções da acção para as ima­gens. Houve oca­siões que ainda estava a escre­ver o guião e a pré-​​produção já estava em anda­mento, o que por um lado por vezes me per­mi­tiu já saber quem eram os acto­res para quem estava a escre­ver e isso influ­en­ciar a escrita das per­so­na­gens e dos diá­lo­gos, assim como para­le­la­mente ir adpa­tando a escrita para os locais de fil­ma­gens, etc.

Quanto tempo cos­tu­mas levar a escre­ver um guião de tele­filme, e a que ritmo?

Artur Ribeiro: Tem sido uma média de duas sema­nas, para cada guião. Nor­mal­mente, tento escre­ver um mínimo de 10 pági­nas por dia.

Por quan­tas ver­sões pas­sas, em média, até esta­res mini­ma­mente satisfeito?

Artur Ribeiro: De pre­fe­rên­cia, uma ver­são :) Embora faça sem­pre uma pequena res­crita, claro. Mas nunca pas­sei da segunda ver­são nos 8 tele­fil­mes que escrevi este ano. Quanto ao tra­ba­lho para cinema, já tem sido dife­rente. No meu pri­meiro filme (Duplo Exí­lio) perdi a conta quan­tas ver­sões escrevi, mas acre­dito que tenha pas­sado das 10. Mais recen­te­mente, co-​​escrevi um guião que teve 3 versões.

Como lidas com as notas e comen­tá­rios de ter­cei­ros, pro­du­tor, rea­li­za­dor, lei­to­res?

Artur Ribeiro: Tenho por prin­cí­pio que se não con­se­guir argu­men­tar con­tra as notas é por­que devem estar cer­tas, mas nor­mal­mente argu­mento bas­tante… Con­tudo, como cos­tumo par­tir para a escrita com as ideias bem defi­ni­das com a pro­du­ção ou em cer­tos casos com a esta­ção que emite o tele­filme, até agora têm sido muito pou­cas as alte­ra­ções que me têm pedido, tanto da parte da Plu­ral, como da TVIRTP

Qual é a tua abor­da­gem às rees­cri­tas, que pro­cesso usas?

Artur Ribeiro: A única coisa que tento fazer é pas­sar uns dias sem olhar para o guião e depois fazer uma nova lei­tura, de cabeça fresca e ver onde posso melhorar.

Onde é que cos­tu­mas escre­ver? E quais são os teus horários/?ritmos nor­mais de escrita?

Artur Ribeiro: Não tenho método. Por vezes escrevo logo de manhã e em casa, outras vezes tenho de andar de café em café, sem­pre a mudar de sítio (às vezes mesmo de terra, como é o caso extremo de agora em que me encon­tro em NY para escre­ver um novo guião). O melhor que tenho é o dea­dline — desde que tenha um dea­dline con­sigo escre­ver a bom ritmo inde­pen­den­te­mente de onde e a que horas, mas se não tiver dea­dline sou um caso per­dido, arranjo tudo e mais alguma coisa para não escrever…

Que ape­tre­chos usas para escre­ver: papel e caneta? Com­pu­ta­dor? Soft­ware? Quais e porquê?

Artur Ribeiro: Tudo o que tiver à mão, na fase de desen­vol­vi­mento das ideias (de papéis sol­tos ou blo­cos de apon­ta­men­tos “ana­ló­gi­cos” com cane­tas ou lápis, ao Notes no iPhone), depois, a escrita gosto de ir mudando de inter­face, do desk­top ao por­tá­til e agora bas­tante o iPad onde aplico um teclado blu­e­to­oth e um suporte e acaba por fisi­ca­mente ficar pró­ximo do por­tá­til (ver segunda foto). Cos­tumo usar o Final Draft, embora para os tele­fil­mes depois passe para o for­mato a duas colu­nas que é usado na Plural.

Quais seriam as con­di­ções ide­ais para pode­res escre­ver o grande guião da tua vida?

Artur Ribeiro: Acho que isso não existe. Já escrevi guiões que gos­tei bas­tante em pio­res con­di­ções e outros melho­res ou pio­res em con­di­ções mais favo­rá­veis (men­tais e de con­forto mate­rial). Todas as con­di­ções que são pre­ci­sas para se escre­ver um bom guião é ter algo a dizer e encon­trar a forma melhor de o con­tar. Quando essas con­di­ções estão reu­ni­das, pode-​​se escre­ver tão bem numa sar­jeta como num SPA de mas­sa­gens rode­ado por top models sen­su­ais e inte­lec­tu­al­mente estimulantes…

Obri­gado, Artur. Boas escri­tas aí pela Big Apple.

Se qui­ser ler mais arti­gos desta série, pode encontrá-​​los aqui:

Filipe Melo

José Pinto Carneiro

Tiago San­tos

Pode ainda ler alguns depoi­men­tos sobre escri­tas variadas:

Nuno Duarte sobre a escrita d’ O Turno da Noite

Filipe Homem Fon­sega & Mário Bote­qui­lha sobre a escrita d’ O Regi­cí­dio

Patrí­cia Mül­ler sobre a escrita dos Moran­gos com Açúcar

Jorge Vaz Nande sobre escre­ver uma ópera

E de novo Tiago San­tos sobre a escrita de Call Girl

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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