Perguntas & Respostas: devemos ser explícitos sobre os locais do filme?

Quando escrevemos um guião, temos que ser bem explícitos sobre a localidade em que decorre o filme ou isso pode ficar ao critério da produtora? — José

José, devemos ser o mais explícitos possíveis, a não ser que a nossa intenção seja precisamente não ser explícito.

O que quero dizer com isto? Que você pode decidir que a sua estória se passa explicitamente em Beja, em 1823; ou na aldeia fictícia de Serrado dos Mortos, algures no século XIX; ou, mais vagamente, numa típica vila alentejana, em alguma época no passado. A escolha é apenas sua, enquanto guionista, e deve ser feita por motivos dramáticos e artísticos. Ou seja, relacionados com o que é melhor para a estória que quer contar.

Seja qual for a sua opção, ela deve ficar bem clara no guião. Se é Beja, é Beja; se é Serrado dos Mortos, não é Cercado dos Vivos; se é apenas uma típica vila alentejana, então não deve ter nome. Você é que sabe.

Como é que a produção, mais tarde, pode intervir nestas escolhas? Basicamente, de duas maneiras.

O produtor, ou o realizador, podem achar que a estória fica mais interessante se for passada na Noruega, no inverno, no meio da neve. Aí cabe-lhe a si avaliar o impacto que essa decisão tem na estória.

Se, por exemplo, uma das cenas cruciais, cheia de ressonâncias bíblicas, é o enforcamento de um personagem numa oliveira, talvez a Noruega não seja a localização ideal para a estória. Compete-lhe a si alertar para o desvio dramático que essa mudança causa, e tentar convencer os poderes mandantes a não avançar com ela. Se o vai conseguir ou não, isso é outra estória.

A segunda forma como a produção pode intervir é escolhendo os locais reais onde as cenas vão ser filmadas.

Por exemplo, por motivos práticos, ou de orçamento, pode ser vantajoso filmar a Beja da sua estória em Santarém; simular Serrado dos Mortos em Palmela; ou recriar uma típica vila alentejana em Óbidos.

As considerações, nesse caso, são apenas de ordem funcional. Mas para o espectador, a estória continuará a passar-se nos locais que você escolheu no guião.

Por exemplo, no filme Assalto ao Santa Maria, as cenas supostamente passadas em Caracas, na Venezuela, foram filmadas, por razões de orçamento, em Viana do Castelo e no Barreiro. Mas isso não alterou a sua localização ficcional.

Não me canso de referir: enquanto estamos a escrever o guião somos donos e senhores da nossa estória, principalmente se se tratar de um guião original. E mesmo nas encomendas, a não ser sejam muito explícitas quanto a localizações[1], temos muita liberdade para escolher os locais da ação.

Por isso, quando estiver a escrever o seu guião, seja tão explícito quanto for necessário para o bem da sua estória. Terá depois muito tempo para se preocupar com as questões práticas.

Notas de Rodapé

  1. Como é o caso de um guião que estou a escrever agora, cujo próprio título é o nome de uma terra[]

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