Perguntas & respostas: como batizar os personagens

Estou a escrever uma série de televisão. Tenho-me debatido com o nome da personagem principal. Quero fazer algo memorável, e que o seu nome seja imediatamente associado ao meu trabalho (algo como Mulder, House, Sherlock Holmes…), portanto: como nomeamos um personagem? — Ivo

Ivo, tem toda a razão em estar preocupado com o nome do seu personagem. Ele vai viver para sempre no seu guião, e por isso merece tanto cuidado como o que damos a um filho nosso.

Não há garantia nenhuma de que o nome que escolher vá cair no imaginário público como os exemplos que refere. Isso depende de muitas coisas, algumas que estão sob o seu controlo, outras que o ultrapassam completamente. Mesmo que a sua série seja produzida; mesmo que passe nos melhores horários e consiga boas audiências; mesmo que ganhe os favores do público;  só uma pequena percentagem dos personagens conseguem ascender à fama de ser conhecidos pelo nome próprio.

O que torna os nomes memoráveis, essencialmente, são os personagens que eles batizam. É a "personalidade" forte e inconfundível desses protagonistas que torna os seus nomes marcas conhecidas.

Não é Horatio, Dexter, Zé Gato, ou Diácono Remédios,  quem quer, mas sim quem consegue plantar-se em algum recanto íntimo da consciência dos espetadores. Se Dexter se chamasse Wilmour, provavelmente continuaria a ser tão famoso como é hoje. Mas se não fosse aquela mistura paradoxal de psicopata fofinho, provavelmente ninguém se lembraria do seu nome.

Além disso, a sua preocupação com os nomes deve estender-se também aos restantes personagens da sua série, de forma a conseguir um conjunto harmonioso e coerente. Isso pode ajudar também a destacar o nome do seu protagonista.

Por outro lado, não precisa de dar nomes a todos os personagens. Elementos secundários, com poucas ou nenhumas falas, não precisam ser batizados. É melhor dizer Rececionista Antipática do que Isabel; Polícia Prestável do que Agente Manuel; Espetador Irritado do que Artur, se estes personagens só aparecem uma vez. O próprio nome ajuda assim a caraterizá-los rapidamente.

Dito isto, algumas recomendações práticas:

  • Os nomes variam em função do tipo, género e estilo de série. O nome de um protagonista para uma sitcom exige critérios diferentes do que para uma série policial.
  • Escolha um nome que não seja demasiado banal, nem demasiado invulgar. José Silva parece pouco, Epaminondas Inocêncio talvez seja de mais.
  • Certifique-se de que é adequado à época, nacionalidade, idade e origem do personagem. Um Bartolomeu de Gusmão não é o mesmo que um Rui Dias; um Waldir que um António; uma Gertrudes que uma Sónia Vanessa; um Saraiva que um Tavares de Mello.
  • Fuja às modas. Os nomes que toda a gente escolhe a dado momento não ajudam a destacar o seu personagem da multidão.
  • Evite nomes muito parecidos entre si, ou que façam rimas. Não batize personagens diferentes como Olímpio e Alípio, Leandro e Evandro, Tânia e Vânia, Alexandre e Alexandra.
  • Evite nomes alegóricos ou metafóricos. Boa Alma para um tipo generoso, Remédios para o médico da aldeia, Apocalipto da Silva para o vilão de serviço.
  • Use as alcunhas com moderação.
  • Por questões práticas no uso de um software de escrita como o CeltX ou o Final Draft, evite nomes que começam com a mesma letra. Quando usa estes programas, ao escrever o nome de um personagem eles oferecem as alternativas disponíveis. Se na letra A tiver Alexandre, Alves, Augusto e Amadeu, vai ter de andar para cima e para baixo para selecionar o nome certo; se tiver apenas Alexandre, basta fazer enter e o programa introduz o nome completo. Acredite em mim; o conforto e rapidez que isso dá na escrita vale a preocupação.

Como escolher então o nome? Nos Estados Unidos há sites dedicados apenas a isso, organizados por origem e idade. São uma ajuda preciosa.

Em língua portuguesa pode procurar no Google sugestões de nomes para bebés, e encontrará algumas páginas organizadas por ordem alfabética. É um bom princípio, que pode combinar com outros tipos de buscas.

Uma das coisas que faço quando preciso de nomes para personagens estrangeiros é procurar blogues desse país, ou na Wikipédia, e combinar nomes com apelidos de diferentes proveniências. Por exemplo, num guião que terminei recentemente precisava de nomes romenos. Fiz uma busca na wikipédia para escritores com essa nacionalidade, e misturei os nomes e os apelidos de alguns. Problema resolvido.

Finalmente, porque não pensa em dar à série o nome do seu protagonista? Títulos como Dexter, Seinfeld, Sopranos, Simpsons com certeza ajudaram a impôr o nome dos seus protagonistas.

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5 comentários

  • Excelente comentário João! Estou a aguardar a estreia do Conexão. Parece-me bastante interessante.

  • Nélia Matos 17/03/2011   Deixe uma resposta a →

    Excelente pergunta e excelente resposta. Eu sinto que quando batizo uma personagem, o nome passa a fazer parte da sua fibra. Já algumas vezes fui forçada a mudar nomes às personagens e confesso que me custou mais do que cortar cenas ou alterar situações. Quando os nomes nos surgem organicamente, é muito complicado abandaná-los.

    • João Nunes 18/03/2011   Deixe uma resposta a →

      E mudar-lhes o sexo? Não estou a falar da lei dos transexuais, mas sim quando, por alguma razão – dramática ou de produção -, temos de mudar o sexo de um personagem. Isso implica alterar o nome, mas acarreta tantas mudanças mais que nem é bom pensar.
      No entanto, por vezes, pode ser exatamente o que faz falta para dar uma nova dimensão a um personagem. A “Maria costureira” pode ser um lugar-comum, mas se calhar o “Mário costureiro” é quanto basta para fazer um personagem secundário crescer e ganhar asas.

      • Nélia 18/03/2011  

        Nem de propósito, uma das personagens que senti que tinha de mudar foi precisamente assim! Era uma assistente pessoal mas, conforme lia em voz alta, estava sempre a vir-me à cabeça uma voz de homem… e tive de mudar de sexo. Foi muito complicado, tive de andar à procura de fantasmas da “Sara” pelo guião inteiro, mas quando terminei e fiz todas as mudanças necessárias, senti que tinha enriquecido muito a história.

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