Perguntas & Respostas: como escrever um argumento sem identificar os tempos narrativos

Como se escrevem cenas passadas em tempos diversos de forma a que não se perceba imediatamente que não estamos no mesmo tempo? Vi um filme que faz isso de forma muito subtil, "The Prestige", e queria saber se tem alguma dica especial – Patrícia

Patrícia, em princípio, se não dermos nenhuma indicação em contrário, o nosso argumento decorre no presente, ou num tempo suficientemente próximo do presente para a distinção não ser relevante.

Se a nossa estória se passar noutra época – passada ou futura – é normalmente importante indicá-lo ao leitor do argumento.

Percebe-se facilmente porquê: não é nada bom, por exemplo, que um produtor comece a ler a nossa estória visualizando-a nos nosso dias para chegar a meio e perceber, finalmente, que a ação decorre na Idade Média.

Num filme esta questão raramente se coloca. A própria natureza visual do meio resolve o problema. Quando o espectador vê  as primeiras cenas tem imediatamente uma série de pistas visuais para colocar a narrativa noutra época: o vestuário e a aparência física dos personagens, os acessórios, veículos, a arquitetura, até o estilo de fotografia adotado.

No guião não temos essa ajuda, portanto temos de nos socorrer das palavras para ajudar o leitor a situar-se no tempo.

Como identificar os tempos narrativos

A identificação do tempo narrativo do nosso argumento pode ser feita de duas maneiras: nas descrições ou nos cabeçalhos.

A primeira opção, por sua vez, também tem duas versões: a abordagem mais subtil e a mais direta. Vejamos dois exemplos.

EXT. RUA DE CASCAIS – NOITE

ALBANO, 40, desce do coche e olha em redor para a rua vazia do que parece ser uma aldeia de pescadores. O cocheiro vergasta os dois velhos cavalos e recomeça lentamente a marcha. Os candeeiros de gás projetam a sua sombra nas paredes caiadas.

Uma rajada arranca a poeira da rua de terra batida e Albano segura o chapéu, protegendo o rosto. Etc...

EXT. RUA DE CASCAIS – NOITE

Estamos em 1840. ALBANO, 40, desce de um coche para a rua vazia. Etc...

No primeiro caso são os detalhes da descrição – o coche, os candeeiros de gás, ruas de terra batida em Cascais, etc – que nos vão indicando gradualmente que não estamos na nossa época. É uma forma elegante de convidar o leitor a ir penetrando na narrativa, e muito adequada para criar ambiente.

A segunda opção, que não exclui a possibilidade de incluir todos ou alguns desses detalhes, indica explicitamente no texto que estamos noutro período. É menos elegante mas também mais segura.

A segunda alternativa, mais clara ainda, é indicar a época em que o argumento decorre diretamente no cabeçalho das cenas. Por exemplo:

EXT. ALENTEJO – DIA (1940)

ou 

INT. MINA ABANDONADA (ANO 2300 D.C.)

Esta forma de indicação não deixa quaisquer dúvidas ao leitor do guião. Se quisermos que o espectador também seja informado de uma maneira tão explícita devemos indicá-lo numa legenda, a inserir no próprio filme.

Vejamos mais dois exemplos:

EXT. PLANÍCIE ALENTEJANA – DIA (1940)

MARIA trava o cavalo e olha para a planície ao seu redor.

Surge uma legenda: Alentejo, 1940

Maria esporeia o cavalo e lança-se a galope. Etc...

EXT. VIELA ESCURA – NOITE

João pára, ofegante, e olha em redor. Depois consulta o relógio.

Legenda sobre fundo negro: Dois dias antes

INT. EDÍFICIO EMPRESARIAL – DIA (DOIS DIAS ANTES)

João, de fato completo, sobe as escadas de um edifício moderno. Etc...

Qualquer uma destas opções é válida e depende da situação específica e do estilo do argumentista. Em última instância, como não me canso de repetir, o importante é que o leitor entenda a estória que lhe estamos a contar.

Mas não foi isso que eu perguntei…

O seu caso, contudo, é ligeiramente diferente. Quer saber como tratar uma narrativa em que são entretecidos diferentes períodos, sem que se perceba bem a transição de uns para os outros.

É muito difícil generalizar sobre isto, pois cada estória específica terá necessidades diferentes. Mas é apenas uma questão de gestão de informação.

Como já referi antes, uma das principais funções do argumentista é gerir a informação que é disponibilizada a cada momento.

Em certas situações o espectador e os personagens sabem exatamente o mesmo; noutras o espectador sabe mais do que os personagens; noutras ainda, os personagens sabem mais do que o espectador.

O seu problema encaixa neste terceiro caso: os personagens, por definição, sabem em que época estão (salvo casos extraordinários) mas o espectador não sabe.

Presumo que, mais cedo ou mais tarde, quererá esclarecer a questão com os espectadores, caso contrário não haverá sentido em pensar em tempos diferentes. Na prática para o espectador seria um só tempo e só você conheceria a diferença.

Seja como for, a regra a seguir é sempre a mesma: escrever apenas aquilo que queremos que se veja e ouça em cada cena.

Enquanto quisermos manter a confusão dos tempos, devemos ocultá-la nas nossas descrições.

Quando por fim quisermos esclarecer os tempos, deveremos dar indicações, mais subtis ou mais explícitas, nas descrições ou nos cabeçalhos.

Um alerta

Mas tome cuidado com um aspeto muito importante: não basta esconder as mudanças de tempo através da escolha cuidadosa das palavras que usamos. Temos que pensar se é possível escondê-las também nas imagens do filme.

Se quisermos, por exemplo, que algumas cenas decorram na Idade Média e outras no futuro distante vai ser difícil impedir que o espectador do filme se aperceba imediatamente desse fato, mesmo que no argumento nos esforcemos por escondê-lo nas nossas descrições e cabeçalhos.

Quando chegar a altura de filmar as nossas cenas as diferenças de roupa, arquitetura, adereços, etc tornarão imediatamente óbvio que algumas cenas se passam num período e outras numa época muito diferente. Qualquer tentativa de o ocultar será apenas sinal de amadorismo.

Conclusão

Não penso que o filme que refere, The Prestige, seja um bom exemplo. Há realmente grandes saltos temporais, mas pelo menos no argumento a narrativa está escrita de tal forma que percebemos perfeitamente as mudanças de uns períodos para os outros. Como não vi o filme não sei exatamente como isto resultou na prática.

Se conseguir tente ler alguns guiões de Guillermo Arriaga, como Babel, 21 Gramas ou Amores Cães, ou de Quentin Tarantino, especialmente o Pulp Fiction.

Em todos esses casos os argumentos estão escritos de forma que só ao fim de algum tempo começamos a construir a linha temporal correta para cada estória. A nossa participação ativa na montagem do puzzle é precisamente um dos aspetos que tornam filmes como esses fascinantes.

Para terminar sugiro que leia alguns artigos do site sobre temas afins com este, que poderá encontrar aqui.

Estes artigos talvez lhe interessem

Deixe a sua opinião ou comentário:

%d bloggers like this: