Perguntas & Respostas: como transmitir o ritmo de uma cena

A minha dúvida prende-se com o ritmo da ação escrita em comparação com ação filmada. Existe alguma técnica para conseguir que a escrita, num determinado momento do guião, tenha um ritmo tão acelerado como o filme/cena irá ter, ou apenas é colocada uma "nota técnica" aparte no guião a dar conta desse ritmo mais acelerado?  — Miguel

Miguel, a finalidade do guião é ajudar o leitor a visualizar um filme que ainda só existe na cabeça do guionista, seu primeiro autor. Em vez de imagens, temos apenas palavras no papel; em vez de atores a falar, temos frases organizadas segundo um formato próprio; em vez de ações, parágrafos.

Num bom guião todas estas palavras, frases, parágrafos, blocos de texto, tem uma função bem clara – mostrar o filme que pode nascer dali. O ritmo da escrita é uma das ferramentas ao seu dispor para o conseguir.

Quando falamos de ritmo da escrita isto pode corresponder a duas coisas.

De uma forma mais geral, temos o ritmo da sucessão das cenas no guião. Cenas mais curtas, sucedendo-se mais rapidamente, correspondem normalmente no filme a sequências mais rápidas, com maior ritmo.

Pode também referir-se ao ritmo da descrição da ação dentro da própria cena. Nesse caso é normal que a sequência de frases e parágrafos mais curtos prenuncie um ritmo de ação mais rápido.

Vejamos estes dois exemplos de guiões bem conhecidos. O primeiro é do guião de O Paciente Inglês:

EXT. AN OASIS. NIGHT.

The SOUND OF GLASS, of tiny chimes. A music of glass.

AN ARAB HEAD APPEARS ON A MOVING TABLE IN THE DESERT. It floats in darkness, shimmering from the light of a fire. The image develops to reveal a man carrying a giant wooden yoke from which hang DOZENS OF SMALL GLASS BOTTLES, on different lengths of string and wire. He could be an angel.

The man approaches the litter which carries the Pilot. He's still in the protective reed mask, wrapped in blankets. The MERCHANT DOCTOR stands over the burned body and sinks sticks either side of him deep into the sand, then moves away, free of the yoke, which balances in the support of the two crutches. He puts some liquid in the Pilot's tongue, whose eyes almost instantly begin to roll. Then he slowly sets about peeling away the layers of oiled cloth which protect the Pilot's flesh.

The Merchant Doctor crouches in front of the curtain of bottles and MAKES A SKIN CUP with the soles of his feet, then leans back to pluck, hardly looking, certain bottles, which he uncorks and mixes in the bowl he'd made with his feet. This mixture he uses to anoint the burned skin. Next he finds green-black PASTE – ground Peacock Bone – and BEGINS TO RUB IT on to the Pilot's rib cage. All the while he us humming and chanting. The bottles continue to jingle.

O segundo é um excerto do clímax do guião de Terminator:

SARAH'S POV – She sees a WALL PHONE several yards away,beyond the debris from the explosion.

She starts to crawl toward it.

She passes A LARGE CLUMP OF DEBRIS, F.G.

ANGLE ON DEBRIS (FX) as it rolls over suddenly!

Now recognizable as the TERMINATOR'S HEAD AND ARMS, with half of the scattered torso trailing wires and twisted metal.

IT LUNGES FOR HER!

Sarah wants to scream this time, from the depths of her soul, but there is no scream, only a dry shivering sob.

The Terminator drags itself SCRAPING over the floor, steel fingers clutching.

Sarah is shaking and whimpering as she scrabbles away, crawling in agony.

Nestes dois exemplos percebe-se bem o ritmo completamente diferente da escrita, que corresponde efetivamente ao ritmo das cenas como aparecem mais tarde nos respetivos filmes.

Obviamente, nem sempre as coisas se passam assim.

Um guionista pode ter, por natureza própria, um estilo de escrita mais curto e seco, e usá-lo em cenas que, pela sua natureza, serão mais lentas no filme. O inverso também pode ser verdade: cenas com descrições mais densas, em parágrafos longos, corresponderem depois a momentos de grande dinamismo no filme.

Um dos fatores a ter em conta é a interpretação que o realizador do filme, junto com o editor de imagem, vai fazer do guião. Em última instância são eles quem decidem qual o ritmo de uma determinada sequência num filme.

Mas o ritmo de escrita que nós imprimimos ao guião pode, de uma forma subtil, dar-lhes uma pista para definir o ritmo mais adequado a cada cena.

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3 comentários

  • Miguel 05/11/2011   Deixe uma resposta a →

    Obrigado pela resposta, João.

    • João Nunes 05/11/2011   Deixe uma resposta a →

      Às vezes demora um pouco, às vezes passa a oportunidade – outras vezes dá nisto ;-) Eu é que agradeço.

      • Vou ficar com essa dica pra sempre ´´ ás vezes demora um pouco ,ás vezes passa a oportunidade , outras vezes dá nisso ´´

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