Perguntas & Respostas: estarei a abusar das descrições?

Estou com uma dúvida. A primeira cena do meu guião decorre numa receção de um ateliê de arquitetura. Tinha pensado fazer uma breve descrição da sala, por ser importante no decorrer da estória/filme. Ao mesmo tempo, torna-se necessário descrever a personagem da rececionista e duas outras personagens que entram na sala, uma delas o protagonista, antes de qualquer diálogo. Está-me a parecer que isto assim resultaria num amontoado de descrições. O que lhe parece que deva fazer? — Manuel

Caro Manuel,

o primeiro ato de um filme tem sempre mais descrições do que o resto do guião, pois é onde são apresentados muitos personagens e cenários pela primeira vez. O truque é dar apenas a quantidade necessária e suficiente de descrição, nem mais nem menos, confiando na imaginação dos leitores para fornecer o resto dos detalhes.

Por exemplo, toda a gente tem uma ideia pré-concebida do que deve ser a recepção de um ateliê de arquitetura, a partir da qual nós podemos trabalhar. O que interessa apenas é dar a entender se é um grande ateliê internacional, que faz estádios para os Jogos Olímpicos, ou um pequeno ateliê que se dedica a reformas de apartamentos; se é um espaço agitado ou calmo, vazio ou movimentado; se é de uma firma bem sucedida ou de um negócio decrépito. Não é preciso muita descrição para explicar isso nem, muito menos, entrar no detalhe de cada mesa, de cada sofá, de cada quadro na parede. Como referi antes, apoie-se na imaginação dos seus leitores; eles vão agradecer-lhe isso.

Mais importante ainda, não precisa de fazer toda esta descrição de uma só vez. O ideal é ir diluindo a descrição do espaço em pequenos apontamentos dispersos ao longo de toda a cena, em vez de a concentrar num único parágrafo denso.

O mesmo se passa com os personagens. Para criar uma imagem vívida junto do leitor é mais importante a qualidade do que a quantidade da sua descrição.

Uma única frase bem escolhida pode dizer tudo o que é preciso saber sobre um protagonista. Para os personagens secundários é necessária ainda menos informação. Restrinja-se ao absolutamente essencial e não caia na tentação de descrever o detalhe do seu aspecto físico, a sua história familiar, os seus antecedentes, a marca das suas cuecas, etc. Escreva apenas o indispensável.

Lembre-se de que os personagens são definidos pelas suas escolhas e ações em cada momento do filme. Não adianta descrever um protagonista como corajoso se não criar na estória oportunidades para demonstrar essa coragem. Não é preciso dizer que um personagem é eloquente; é melhor mostrar situações em que ele o seja.

Além disso, se der demasiados detalhes sobre um personagem, pode limitar desnecessariamente a imaginação dos vários leitores do guião, e criar entraves ao processo de casting. Se a sua descrição tornar inevitável que o seu protagonista tenha 30 anos, seja louro de olhos azuis, e meça precisamente 1,90m de altura, nunca vai conseguir o Joaquim de Almeida ou o Nicolau Breyner para o interpretar.

Veja como no início do guião de Chinatown Robert Towne descreve dois espaços e vários personagens importantes usando detalhes de descrição intercalados na ação[1].

INT. ESCRITORIO DE GITTES

CURLY deixa cair as fotos na secretária de Gittes. Agiganta-se sobre GITTES, suando intensamente através das suas roupas de trabalhador, a sua respiração cada vez mais pesada. Uma gota de suor pinga no tampo reluzente da secretária de Gittes.

Gittes repara nisso. Uma ventoinha gira sobre eles. Gittes olha-a de relance. Apesar do calor parece fresco e impecável no seu fato de linho branco. Sem tirar os olhos de Curly, acende um cigarro com um isqueiro da sua secretária.

Curly, com outro soluço angustiado, vira-se e espeta o punho na parede, ao mesmo tempo que chuta o cesto de papéis. Recomeça a soluçar e desliza ao longo da parede, onde o impacto do seu murro deixou uma marca visível e desalinhou as fotografias assinadas de várias estrelas de cinema.

Curly desliza para as persianas e cai de joelhos. Chora pesadamente e a sua dor é tanta que começa a morder as persianas.

Gittes não se mexe do seu lugar.

GITTES

Está bom, está bom,  já chega. Não pode comer-me as persianas, Curly. Mandei instalá-las na quarta feira passada.

Curly reage devagar, erguendo-se, sempre a chorar. Gittes procura na sua secretária, tira um copo de vidro e seleciona sem perder tempo uma garrafa de bourbon mais barata de entre várias filas de whiskies mais caros.

(...)

INT. ESCRITORIO DE DUFFY & WALSH'S

notoriamente menos luxuoso do que o escritório de Gittes. Uma MULHER morena, bem arranjada, senta-se algo nervosa entre as suas duas secretárias, mexendo no véu do seu chapéu.

(...)

 

Veja a quantidade de informações que Towne vai semeando ao longo do texto, nas descrições e nos diálogos, construindo progressivamente uma imagem de Gittes, do seu cliente, do seu escritório e do escritório dos seus funcionários. Se o souber fazer com esta arte, não me parece que descrever uma sala e dois ou três personagens sobrecarregue demais a sua cena inicial.

Notas de Rodapé

  1. tradução da minha responsabilidade[]

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