Perguntas & Respostas: onde acaba o trabalho do guionista?

Gos­tei muito das suas dicas sobre como escre­ver um roteiro, con­tudo não ficou muito claro onde começa e ter­mina o tra­ba­lho de um gui­o­nista, e como ele vai arti­cu­lar o seu tra­ba­lho com resto da equipa de pro­du­ção. A pro­pó­sito, o que é decupagem — Pedro?

Pedro, o trabalho do guionista desenvolve-se antes do trabalho de toda a restante equipa técnica. Sem o guião estar escrito, ou pelo menos haver uma sinopse muito detalhada, ninguém consegue trabalhar no filme ou série de televisão.

O trabalho de um argumentista pode começar de duas maneiras: ou por iniciativa própria, escrevendo um guião por sua conta e risco, e propondo-o aos produtores depois de terminado; ou por encomenda de um produtor, que tem uma ideia para desenvolver e contrata o guionista para o fazer. Em certos casos, mais raros, pode haver uma combinação destes elementos: o argumentista propõe uma ideia original ao produtor, e este gosta tanto que o contrata para escrever o guião.

Seja como for, enquanto o guionista estiver fechado no seu local de trabalho – escritório, sala, café – sozinho face ao computador, dando cabeçadas nas paredes ou tomando notas nos seus blocos e cadernos, ninguém pode fazer muito mais.

Sem um guião o produtor não consegue financiamentos; o realizador não pode preparar a sua decupagem; os atores não têm como desenvolver os seus personagens. E já nem falo nas dezenas ou centenas de técnicos que, da pré à pós-produção, vão ser chamados a intervir no filme ou série de televisão, sempre tomando como base o guião ou sinopse.

É por isso que a primeira versão de um guião é sempre recebida com muita excitação por toda a equipa. Nessa fase só estão no projeto o produtor e, por vezes, o realizador. Em alguns casos já haverá um diretor de produção, ou um assistente de realização. Todos recebem o guião com um misto de entusiasmo e alívio; podem finalmente começar a trabalhar.

Depois do guião terminado, infelizmente, o guionista é muitas vezes esquecido no processo de produção. Raras vezes é consultado para o casting ou escolha de locações, decupagem ou leituras com os atores. Em alguns casos nem sequer é convidado a assistir a filmagens.

Este "esquecimento" não é necessariamente uma atitude intencional (embora também o possa ser) mas mais um reflexo do ritmo e da dinâmica própria de uma produção, que deixa pouco tempo para pensar em coisas que não sejam absolutamente essenciais.

Normalmente, o único contacto que o guionista tem com a equipa, nesta fase, é quando é necessário rescrever alguma cena, por questões de produção. Aí os produtores lembram-se sempre dos guionistas, mesmo que já não tenham verba disponível para pagar essas rescritas ;)

Se houver uma boa relação entre argumentista e o realizador, este também pode querer discutir o guião, para tentar perceber o que estava na cabeça do argumentista quando escreveu cada cena. Os realizadores mais confiantes e competentes não alimentam receios quanto a esta relação; só os mais inseguros podem achar que é uma "interferência" no seu processo criativo.

É evidente que nenhum guionista quer – ou pode – estar presente em todo o longuíssimo processo de fazer um filme. Os valores pagos pelos guiões, em Portugal e no Brasil, mal chegam para cobrir o tempo dispendido na escrita, quanto mais o que seria necessário para acompanhar meses e meses de produção.

Mas qualquer guionista encara com simpatia e boa vontade um pedido de opinião sobre os atores, os locais, as músicas, a edição. No fim de contas, antes da produção começar nós passamos mais tempo a pensar na estória e nos personagens do que qualquer outra pessoa.

No mínimo, os guionistas deveriam ser convidados para acompanhar alguns dias de filmagens, com as despesas pagas; ser apresentados aos atores que estão a encarnar os personagens que criaram; assistir a algumas projeções do material filmado (os dailies); participar nas gravações e entrevistas dos making of, etc.

Mais tarde, na pós-produção, seria proveitoso que os guionistas vissem e comentassem uma cópia de montagem do filme, em tempo útil para fazer correções. Conhecendo profundamente a estória e tendo uma visão neutra quanto às dificuldades e imprevistos da rodagem, podem ajudar a corrigir erros ou melhorar aspetos da edição.

Por fim, o guionista deveria sempre ser citado com destaque em todos os materiais de divulgação do filme – site, cartaz, kit de imprensa, convites, entrevistas, etc – e nas peças de reportagem; e, obviamente, deveria ter direito a vários convites para assistir às festas e ante-estreias do filme.

Alguns produtores já têm estes cuidados "mínimos" com os argumentistas; outros, ainda têm um longo caminho a percorrer. O único consolo é que este problema não é só português ou brasileiro; é partilhado por argumentistas de todo o mundo, mesmo nos mercados considerados mais desenvolvidos, como o francês ou o americano. Mas é um fraco consolo, eu sei…

E a decupagem?

Quanto à sua segunda questão: a decupagem (do francês decoupage, que quer dizer "recorte") é o trabalho feito pelo realizador do filme para escolher quais os planos que serão filmados para contar a estória por imagens, de acordo com o seu estilo próprio. Esse trabalho varia de realizador para realizador, e de filme para filme.

Normalmente a decupagem dá origem a listas de planos, storyboards, animações virtuais, plantas de filmagem, referências visuais, ou uma qualquer combinação destes diferentes materiais. Filmes de ação ou com muitos efeitos especiais, por exemplo, usam bastante os storyboards; filmes mais baseados em diálogos, ou com um ritmo mais calmo, podem recorrer apenas a listas de planos.

Estes artigos talvez lhe interessem

2 comentários

  • Manuel Paulino 11/05/2011   Deixe uma resposta a →

    Sidney Lumet, o grande realizador recentemente falecido, não dispensava a presença do argumentista/guionista (“the writer”, como ele escrevia) na preparação da rodagem dos filmes, designadamente, durante os ensaios preparatórios. Tudo indica que é nessa altura que o realizador articula com o argumentista a necessidade, se a houver, de reescrever alguma coisa, designadamente um ou outro diálogo. Pelo que percebi, até nos Estados Unidos, onde os argumentistas são bem pagos, a seu presença não é muito requisitada durante a produção e realização dos filmes. Deve ser para terem tempo livre para pensar em novas estórias…

    • João Nunes 11/05/2011   Deixe uma resposta a →

      Há dois anos estive no Encontro Mundial de Argumentistas, em Atenas, que reuniu pela primeira vez as associações de argumentistas de todo o mundo, incluindo os Estados Unidos. E foi impressionante perceber como o “esquecimento” do guionista, depois de concluído o seu trabalho, era a principal queixa de todos os profissionais, independentemente dos países onde operavam.
      Pronto – a segunda principal queixa; a primeira era obviamente as remunerações.

Deixe a sua opinião ou comentário:

%d bloggers like this: