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O papel do Arquitecto
Arquitecto 0211111

Encon­trei a seguinte cita­ção no blog Pla­net All-​​Star:

É a dife­rença entre o arqui­tecto e o cons­tru­tor; não se pode come­çar uma casa sem se saber o que se está a cons­truir. Hollywood, no entanto, pensa pri­meiro no cons­tru­tor e só depois arranja um arqui­tecto que satis­faça as von­ta­des do cons­tru­tor, cons­tan­te­mente rede­se­nhando a casa à medida que se cons­trói, até que o resul­tado final, por vezes, já nem se asse­me­lhe ao con­ceito com que se começou.”

Dá que pensar.

Afi­nal, qual é o papel do escri­tor? Quando fala­mos de autor, no cinema, quase toda a gente pensa em rea­li­za­dor. Mas quem é o autor da casa? Quem a cons­truiu ou quem a dese­nhou? Qual é o papel do arquitecto?

Cré­dito a ambos, creio. Tal como uma casa, o cinema é uma obra cola­bo­ra­tiva. Rea­li­za­dor, pro­du­tor, acto­res e, sim, argu­men­tista, todos tra­ba­lha­ram para que um filme seja pos­sí­vel. Todos eles e mais a imensa equipa invi­sí­vel que o grande público nunca chega a conhecer.

Mas o pro­blema torna-​​se dra­má­tico quando o autor, o autor da his­tó­ria, é eclip­sado na parada de estre­las de um filme. Quase toda a gente tem um ou dois rea­li­za­do­res favo­ri­tos, um ou dois acto­res, mas quan­tas pes­soas con­se­guem nomear auto­res favoritos?

Foi com muito pra­zer que vi Aaron Sor­kin este ano a pro­mo­ver “A Rede Social”. Quan­tas vezes é que vemos os argu­men­tis­tas a pro­mo­ve­rem os seus fil­mes em even­tos e pro­gra­mas de televisão?

Cré­dito a todos os que par­ti­ci­pam num filme, sem dúvida.

Mas na altura de aplau­dir, lembrem-​​se tam­bém do arquitecto.

Acerca do autor: Nélia Matos é Licen­ci­ada em Bio­lo­gia, com tra­ba­lhos publi­ca­dos na área da Neurofisiologia. A escrita esteve sem­pre a par da sua car­reira cien­tí­fica. Con­tri­buiu com arti­gos de divul­ga­ção cien­tí­fica e de opi­nião para jor­nais e blogs, mas foi em 2004 que escreveu a sua pri­meira peça de tea­tro. Em 2008 fez o seu pri­meiro curso de escrita para cinema e desde então escreveu várias cur­tas e longas metra­gens.

3 comentários… add one

  • 03/02/2011, 22:23

    Nélia Matos, deixe-me elogiar esta excelente contribuição.

  • Manuel Paulino 04/02/2011, 14:13

    No teatro, o texto do escritor, do dramaturgo é sagrado. Já o equivalente, no cinema, implica uma disponibilidade para trabalhar em equipa e fazer alterações que se tornem necessárias para melhorar o trabalho. De qualquer modo, a origem de tudo, da obra cinematográfica final, está nas palavras do guionista. Porém, o trabalho posterior pode destruí-la ou pode mesmo elevá-la a um nível que o próprio escritor não tenha sequer imaginado.

  • Cícero Soares 04/02/2011, 15:52

    Bem lembrado, Nélia. Realmente, há tempos que andam faltando holofotes aos feitos heróicos do roteirista (argumentista) e… Puxa vida, dar close-up nisso também é preciso!

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