Sedução: o processo de criar uma telenovela

Quem se deslocou à Sociedade Portuguesa de Autores na quinta-feira passada, teve a oportunidade de assistir a uma conversa sobre o processo de criação de uma telenovela.

O painel era composto por Rui Vilhena, o autor, Hugo Sousa, director artístico e de projecto, e os actores Dalila Carmo, Fernanda Serrano e Pedro Granger, e moderado por Isabel Medina.

Rui Vilhena começou por assegurar que, tal como noutros meios criativos, tudo parte de uma ideia. A maior diferença é que tem de ser uma ideia que tenha "pano para mangas". "A telenovela é a arte de enrolar", brinca, "e essa ideia tem de ser explorável ao longo de 200 episódios".



Assim que existe uma sinopse e caracterização de personagens, o director de projecto entra em acção, procurando decors, fazendo castings, escolhendo a equipa técnica e planeando os meses de trabalho que virão pela frente.

Se há algo em que todos os membros do painel concordaram é que a telenovela é uma indústria e, como tal, move-se a um ritmo alucinante. São gravados 6 episódios por semana. Os autores têm de ter os textos prontos com antecedência e trabalham todos os dias em mais de 50 minutos de guião. Os actores trabalham 12 horas por dia, muitas vezes com cenas que tiveram de decorar em menos de 10 minutos quando imprevistos acontecem. E o director de projecto vê atentamente cada episódio antes de este ir para o ar.

Em relação às personagens, Rui Vilhena diz que não gosta de pensar num actor quando está em processo de criação, pois teme que lhe imponha limites e, ao mesmo tempo, acha um desrespeito pelo trabalho dos actores que, acima de tudo, gostam de fazer papéis diferentes dos que já fizeram. Pedro Granger, por exemplo, adora estar a fazer de vilão pela primeira vez e diz que nunca se divertiu tanto na sua carreira. Assegura que assim que o casting é feito, a personagem deixa de ser dos autores e passa a ser sua, ainda que o destino dela seja por eles escrito. Dalila Carmo adianta mesmo que sente que desde o momento que a telenovela vai para o ar as personagens passam a pertencer ao público.

Esta autoria e autoridade sobre as personagens cria, por vezes, divergências criativas entre actores e autores. Ficámos a saber, por exemplo, que nos bastidores um pequeno cãozinho deu azo a uma tal diferença de opiniões que chegaram a gravar cenas com e sem cão até a situação se resolver. É nestas altura que tem de surgir muitas vezes o director de projecto para arbitrar. E ele garante que não é fácil.

Todos consideram que trabalhar numa telenovela "não é um trabalho de segunda categoria". Pelo contrário, Fernanda Serrano assegura que trabalha muito mais do que em qualquer outro tipo de projecto, mas que também se diverte muito e que é a oportunidade de trabalhar com pessoas com paixão pela televisão que a faz voltar uma e outra vez às telenovelas.

E para quem assistiu à palestra tornou-se evidente, perante os testemunhos, que a telenovela é um processo criativo extenuante e tão válido como os outros. Acima de tudo ninguém pode negar que é uma parte significativa da produção nacional, e isso é bom para todos.

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