Maus filmes, bons filmes e os limites da natureza humana

Maus filmes, bons filmes

Na semana passada fui ver O Motoqueiro Fantasma 2: Espírito de Vingança. Já tinha visto todos os filmes bons que estavam em cartaz e, à falta de opções, o nome do Nicolas Cage acabou por convencer-me.

É um mau filme? Há maus filmes? Depende.

Se o classificarmos numa lista de todos os filmes alguma vez produzidos, ele estará seguramente no lado menos lisonjeiro da escala.

Mas se o colocarmos numa lista de todos os filmes do subgénero super-heróis, é provável que ele fique numa posição intermédia[1]. Não é o Dark Knight, mas também não é o Elektra .

O meu critério de avaliação dos filmes tem sido sempre esse: como é que um filme cumpre a missão a que se propõe?

Se consegue fazer honrosamente aquilo que se espera dele, não é um mau filme. Se o consegue fazer melhor do que esperávamos, então até podemos considerá-lo bom.

O segredo é não comparar filmes com objetivos claramente distintos. O que O Motoqueiro Fantasma pretende dar à sua audiência não é o mesmo que Os Descentendes oferece.

Se alguém for ver o segundo esperando cenas de ação e efeitos especiais vai ficar seriamente desiludido. Da mesma forma, quem for ver o primeiro à procura de matéria de reflexão e alguma luz sobre a natureza humana, vai arrepender-se do dinheiro gasto no bilhete.

E os limites da natureza humana

O curioso é que esta reflexão também se aplica às relações humanas. É inútil esperar – ou, pior ainda, exigir – das pessoas o que elas não têm para dar.

Uma pequena estória para ilustrar esta ideia. Há muitos anos atrás trabalhei numa grande multinacional de publicidade como copywriter. O diretor de arte com quem fazia dupla criativa era um tipo excelente, divertido, muito bom profissional.

Uma tarde a secretária da direção veio chamar-me para uma reunião com o diretor financeiro da empresa. Não estava à espera dessa convocatória e fiquei um pouco apreensivo, sem conseguir imaginar o seu motivo.

O diretor financeiro recebeu-me à porta do seu gabinete e, muito sério, pediu-me para o acompanhar. Mais uma surpresa. Saímos da agência, entramos no elevador e descemos até à garagem do edifício.

Aí ele mostrou-me um automóvel – um Ford Escort cinzento prata – e deu-me a sua chave e o cartão de acesso à garagem. A direção da agência tinha decidido que eu merecia ter carro da empresa.

Foi um dos momentos mais felizes da minha carreira até esse momento. O meu carro pessoal estava velho e cansado, e o Ford, apesar de não ser novo, era um enorme salto em frente.

Mas, mais do que isso, significava o reconhecimento do meu trabalho. Gostavam de mim, gostavam do que eu fazia.

Ainda recordo a enorme sensação de alegria que senti e a vontade que tive de abraçar o diretor financeiro – o que, obviamente, não fiz.

Quando regressei à minha sala a primeira coisa que fiz foi contar a novidade ao meu parceiro de dupla. Estava excitadíssimo (ainda era muito novo nessa altura, excitava-me com facilidade) e só me apetecia partilhar com alguém.

Ao fim de alguns minutos o meu parceiro acabou por confessar que, umas semanas antes, também lhe tinham dado um carro da empresa.

Foi um balde de água fria.

Para mim era perfeitamente incompreensível que uma pessoa com quem eu passava entre 8 a 12 horas por dia, os dois sentados em secretárias colocadas frente a frente num gabinete de 3 por 3 metros, não tivesse partilhado comigo uma notícia tão boa.

Disfarcei a desilusão, mas nunca mais o consegui encarar exatamente da mesma maneira.

Erro meu.

Ele continuava a ser a mesma pessoa que sempre tinha sido – um tipo excelente, divertido, muito bom profissional. Eu é que tinha esperado dele algo que, sendo da minha natureza, não era da sua.

Isso não o tornava pior nem melhor do que eu. Apenas diferente.

Demorei muitos anos a perceber esta grande verdade, que me podia ter ajudado em muitas situações.

Todas as vezes em que me tenho desesperado ou desiludido com alguém é invariavelmente porque esperei dessa pessoa algo que não é da sua natureza. Queria O Padrinho quando na realidade ela era O Homem-Aranha — ou vice-versa.

O problema, é claro, não está nessas pessoas mas em mim mesmo. E se alguém tem de mudar sou eu, e não elas.

Há uma grande vantagem em reformular a questão desta maneira. Sobre as outras pessoas eu não tenho qualquer poder ou influência[2]. Já sobre mim tenho alguma possibilidade de controlo, mesmo que seja muito menor do que gostaria de ter.

Focando os meus esforços em mudar o lado certo da equação as possibilidades de alcançar um resultado positivo aumentam exponencialmente.

É claro que é mais fácil descarregar nos outros as culpas das falhas de uma relação do que fazer um esforço para mudar as nossas próprias atitudes e expetativas.

Mas se o que procuramos são resultados, e não culpados, a segunda opção é muito mais proveitosa.

Notas de Rodapé

  1. E se o colocarmos no subsubgénero dos filmes de super-heróis que andam de moto e em vez de cabeça têm uma caveira em chamas ele ficará possivelmente entre os dois melhores[]
  2. Nem quero ter, Deus me livre disso[]

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11 comentários

  • Já foi o tempo que o nome NICOLAS CAGE foi sinônimo de bom filme. Se me permite a sugestão, da próxima vez assista um dos excelentes seriados que a TV americana, ao contrário de Hollywood, anda produzindo. Dica: HOMELAND.

    • João Nunes 02/03/2012   Deixe uma resposta a →

      Obrigado pela sugestão. Qualquer dia tenho de escrever sobre a pujança das novas séries de televisão americanas.

  • Sábias palavras, João. O problema é que muitas vezes as pessoas e as coisas (filmes, etc.) se vendem para nós não como elas são e sim como gostariam de ser. Até você se recuperar do choque da decepção e se colocar diante dessa realidade, muitos desentendimentos podem acontecer. Mas é a vida. Gostei bastante do texto, João. É análise de filme e filosofia ao mesmo tempo!

    • João Nunes 02/03/2012   Deixe uma resposta a →

      Obrigado, Mauricio. Mas acredito que mesmo quando as nossas expetativas foram erradamente influenciadas pela imagem que a outra pessoa gosta de projetar de si mesma, continua a ser verdade que devemos aceitar a realidade quando finalmente somos confrontados com ela. Em última instância, se não gostarmos do retrato verdadeiro, é melhor simplesmente afastar-nos sem recriminações do que tentar forçar a outra pessoa a encaixar no seu falso “auto-retrato”.

      • Mauricio Fernandes 02/03/2012  

        Concordo, João. Como diria Paul McCartney: “Live and Let Die”…

  • Vítor Catulo 05/03/2012   Deixe uma resposta a →

    Texto excelente, João: uma grande verdade! Quanto ao filme, nem por isso: Nicolas Cage já protagonizou fez filmes melhores, mas nem por isso deixa de ser um grande actor!

    • João Nunes 06/03/2012   Deixe uma resposta a →

      NC já fez bastantes filmes melhores, mas acho que deve ter muitas contas para pagar, porque o seu critério de seleção tem vindo a degradar-se progressivamente. Pode ser que venha a ser um caso como o Travolta – esquecido, recuperado pelo Tarantino num filme magnífico e relançado para melhores ares.

  • kauanthott 06/03/2012   Deixe uma resposta a →

    olá joão! desculpe me, mas tenho percebido que voçe escreve história estória está coreto escrever estória? desculpe pela pergunta. não quero corrigi-la só mente tiar essa dúvida.

    • João Nunes 07/03/2012   Deixe uma resposta a →

      É uma mania minha, adaptada dos anglo-americanos, que distinguem “story” – estória – de “history” – história. Uma é ficção, construção, a outra realidade, reconstrução. Não tenho um dicionário comigo neste momento, mas creio que as duas são válidas. Mas já tenho recebido muitas críticas por isso…

      • Berni Ferreira 08/03/2012  

        De acordo com esta página:

        http://www.flip.pt/Duvidas-Linguisticas/Duvida-Linguistica.aspx?DID=457

        o que se pode inferir é que a resposta do João está correcta, apesar de não ser necessário fazer essa distinção.

        Para mim, a distinção entre história e estória faz todo o sentido. E também costumo usar os dois termos, variando de acordo com aquilo a que se referem, usando exactamente o mesmo critério que o João referiu.

  • Miguel 31/07/2012   Deixe uma resposta a →

    Boas, acho que há bons e maus filmes, desde logo analizando os apectos tecnicos desde a pré-produção à realização.
    De qualquer maneira para mim, penso da seguinte maneira, gostei deste filme que acabei de ver? será que me irei lembrar dele daqui a uns tempos?, faço estas perguntas por que acho que quando vou ao cinema VER UM FILME tenho de sair de lá com mais do que entrei.
    Por outro lado, também vou ao cinema ver filmes em que tenho que deixar o cerebro cá fora, e ai embora para mim seja mais subjetivo também posso afirmar que o filme que entreteve mais ou menos, ex: John Carter – SIM; Ghostrider (1) – Não. Mas não é por ter gostado que vou dizer que é um grande filme. Claro que é tudo uma questão de gosto, e em contraponto com a frase “gostos não se discutem” digo que “pois não educam-se”, e como se educam? vendo mais filmes e mais series o mais diversificados possivel, se eu só vejo a Electra, o Comando, e etc. nunca irei apreciar um Sideways, uns Tennenbaums, um No Country for Old Men.
    Talvez esteja a divagar demasiado, só para dizer que para mim há com certeza bons e maus filmes…(sem duvida).

    nota(para nao ser levado a sério): Se o colocarmos “no sub­sub­gé­nero dos fil­mes de super-??heróis que andam de moto e em vez de cabeça têm uma caveira em cha­mas ele ficará pos­si­vel­mente entre os dois” piores

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