≡ Menu
"Não tenho tempo para escrever" - justificação ou desculpa?
tempo imagem

Quando há dias referi o desa­fio do Script Frenzy – escre­ver 100 pági­nas de argu­mento nos 30 dias de Abril – des­ta­quei que, para o con­se­guir, bas­ta­ria escre­ver três pági­nas e meio por dia.

Uma meta des­tas pode ser alcan­çada, sem dema­si­ado esforço, reser­vando duas horas diá­rias para a escrita.

Mas mui­tos aspi­ran­tes a escri­to­res afir­mam ter uma vida dema­si­ado ocu­pada para con­se­guir liber­tar tanto tempo todos os dias. Para alguns, até 30 minu­tos de escrita são impos­sí­veis de encai­xar na agenda total­mente preenchida.

É ver­dade que man­ter uma ati­vi­dade cri­a­tiva em para­lelo com um emprego de tempo inteiro, e com as res­pon­sa­bi­li­da­des fami­li­a­res e soci­ais, pode ser complicado.

Mas, como Laura Van­der­kam des­ta­cou num artigo recente do Wall Street Jour­nal, em vez de “não tenho tempo”, deve­mos ter a cora­gem de dizer sim­ples­mente “isso não é uma pri­o­ri­dade para mim”.

Se calhar:

  • escre­ver não é uma pri­o­ri­dade, mas estar com os ami­gos é;
  • escre­ver não é uma pri­o­ri­dade, mas ter a casa impe­ca­vel­mente limpa é;
  • escre­ver não é uma pri­o­ri­dade, mas ver a nova tem­po­rada de “Mad Men” é;
  • escre­ver não é uma pri­o­ri­dade, mas dor­mir oito horas é;
  • escre­ver não é uma pri­o­ri­dade, mas dar uma volta no shop­ping  no inter­valo do almoço é;
  • escre­ver não é uma pri­o­ri­dade, mas ir ao giná­sio é.

E assim por diante.

Mudando as pala­vras, muda­mos a nossa pers­pe­tiva sobre o assunto, olhando-​​o de uma maneira muito mais honesta: o tempo é igual para todos, as pri­o­ri­da­des é que variam.

Quando escre­ver for real­mente uma pri­o­ri­dade para si, alguma outra coisa dei­xará natu­ral­mente de o ser. E o tempo neces­sá­rio apa­re­cerá – nem que sejam ape­nas 30 minu­tos por dia.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

6 comentários… add one

  • Berni Ferreira 05/04/2012, 7:51

    concordo em absoluto.

    Pela minha experiência, o mais importante é a motivação. O mais importante mesmo é começar um projecto. Se sobrevivermos até meio, é quase impossível deixá-lo inacabado. E, no fim, nada melhor do que ter outra coisa já à espera de ser escrita. Até porque não há nada melhor do que fechar a primeira versão de um guião, de um livro, ou de outra obra que precise de empenho.

    Agora, quando se adia e adia e adia, sobretudo no começo… talvez mais valha mesmo ver uma série e dormir as tais 8 horitas diárias.

    • João Nunes 05/04/2012, 9:23

      É isso – a motivação é o que define as prioridades. Se estivermos suficientemente motivados para fazer uma determinada coisa, vamos colocá-la no topo das prioridades e, consequentemente, arranjar o tempo necessário para ela.

  • Rosa 11/04/2012, 15:59

    É justamente este o meu problema. Preciso escrever um filme, tenho data para entregar, e simplesmente não consigo encarar o desafio. Preparei até uma tabela de trabalho para poder conciliar melhor os horários. E nada. O que fazer? Tens a fórmula mágica?

    • João Nunes 11/04/2012, 16:44

      Fórmulas mágicas não há. Mas o mais próximo disso é uma frase que os americanos usam muito: “butt-in-chair time”. Ou seja, tempo de manter o bumbum colado na cadeira. A única regra é sentar-se em frente do computador e escrever. Como Somerset Maugham dizia: “Só escrevo quando a inspiração bate. Felizmente ela bate todos os dias, às nove da manhã em ponto”.
      A minha experiência diz que algumas coisas ajudam:

      1. Marcar uma hora fixa para começar.
      2. Se possível, estabelecer um objetivo diário não de tempo, mas de páginas. Em vez de “vou escrever duas horas” definir “vou escrever 4 páginas”.
      3. Fazer uma lista com as distrações mais frequentes: ir ver os emails, entrar no Twitter, ir ao Facebook, entrar no Messenger, ir ao frigorífico, etc.
      4. Tomar medidas para anular essas distrações. Por exemplo (nos casos mais graves) desligar a internet antes de começar a escrever.
      5. Programar as pausas e interrupções.
      6. E, finalmente, estabelecer um programa de recompensas para as metas atingidas e cumpridas. “Se escrever as quatro páginas, vou tomar um capuccino; se escrever todos os dias desta semana, compro um livro; quando terminar o guião, tiro um fim de semana na praia”, etc.

      Lembre-se – como Steven Pressfield escreve em “A Guerra da Arte”, a resistência é uma força interna malévola que nos tenta impedir de concretizar os nossos projetos criativos. O principal desafio de um autor é combater essa força, todos os dias, sentando-se em frente do computador (o do caderno, o da máquina de escrever) e escrevendo.

      • Rosa 12/04/2012, 16:17

        É certo não existe fórmula mágica, mas vou seguir os sábios conselhos. O primeiro colocar o bumbum na cadeira. Valeu.

  • Alves Filho 14/04/2012, 21:18

    Olá João! Tudo bom? Eu li esse artigo e sente que ele “falou” comigo! Tenho uma enorme dificuldade em me concentrar e acabo vendo emails e tudo mais, justamente na hora em que deveria estar escrevendo! Vou colocar em prática suas dicas e ver o que acontece! Obrigado pelas dicas! Um forte abraço!

Deixe o seu comentário