Como manter a roda da criatividade a andar

João Nunes —  03/12/2012 — 6 Comments

Escre­ver um guião é, em cer­tos aspe­tos, seme­lhante a andar de bici­cleta. O mais impor­tante, depois de come­çar, é não parar.

Se dimi­nuir­mos demais a velo­ci­dade per­de­mos o equi­lí­brio e, natu­ral­mente, temos ten­dên­cia a cair. No caso da escrita, a con­sequên­cia de parar é per­der o entu­si­asmo pelo pro­jeto e ficar pro­gres­si­va­mente mais longe de o terminar.

A forma mais efi­caz de evi­tar esta arma­di­lha é man­tendo a roda da cri­a­ti­vi­dade a rodar. E é mais fácil do que parece.

O que é a roda da criatividade

O tra­ba­lho de um escri­tor não é ape­nas escre­ver. Na rea­li­dade, o pro­cesso de desen­vol­vi­mento de um guião ou outra peça de escrita cri­a­tiva pode ser divi­dido em cinco tare­fas distintas.

  1. Ima­gi­nar. É a faísca ini­cial de todo o pro­cesso cri­a­tivo, e o com­bus­tí­vel que o man­tém em movi­mento. Pode tomar mui­tas for­mas, umas mais intui­ti­vas ou sub­cons­ci­en­tes, outras mais diri­gi­das e inten­ci­o­nais. Entre estas últi­mas temos o brains­tor­ming ou o mind map­ping. Sonhar de olhos aber­tos, dar uma cami­nhada, tomar notas, ouvir música, ver fil­mes ou ler um bom romance; tudo isso pode aju­dar a sol­tar a inspiração.
  2. Pes­qui­sar. Mui­tas vezes escre­ve­mos sobre pro­fis­sões, épo­cas, rea­li­da­des que não conhe­ce­mos bem. Mas mesmo quando o uni­verso da nossa estó­ria nos é fami­liar é sem­pre neces­sá­rio fazer algum tra­ba­lho de pes­quisa e inves­ti­ga­ção. Este pode tomar mui­tas for­mas, desde a nossa pró­pria memó­ria até às memó­rias de outros, na inter­net, em livros, nos media ou em con­ver­sas com pes­soas mais fami­li­a­ri­za­das nesse universo.
  3. Povoar o uni­verso. O uni­verso da nossa estó­ria começa vir­gem e vazio. Somos nós que temos que o povoar com pes­soas, luga­res, rela­ções, uma estó­ria, mitos e tra­di­ções. Mas o nosso uni­verso não surge por um Big Bang, e sim atra­vés de um pro­cesso gra­dual que com­bina ima­gi­na­ção e pesquisa.
  4. Pla­ni­fi­car. Há escri­to­res que são inca­pa­zes de escre­ver uma linha da sua obra sem a ter pre­vi­a­mente pla­ni­fi­cado até ao mais ínfimo deta­lhe; outros, pelo con­trá­rio, des­pre­zam com­ple­ta­mente a pla­ni­fi­ca­ção, que acu­sam de tolher a liber­dade cri­a­tiva. Cal­culo que a maior parte dos auto­res, con­tudo, se encon­tram entre estes dois extre­mos e fazem algum tipo de pla­ni­fi­ca­ção, seja uma sim­ples sinopse seja uma escleta mais ou menos detalhada.
  5. Escre­ver. Esta é tal­vez a tarefa mais difí­cil de todas. Pode­mos ter feito toda a pes­quisa do mundo, povo­ado o nosso uni­verso com os locais e habi­tan­tes mais fas­ci­nan­tes, ima­gi­nado as melho­res cenas, diá­lo­gos, revi­ra­vol­tas, pla­ni­fi­cado cada deta­lhe da obra final – se não nos sen­tar­mos para a escre­ver (e mais tarde res­cre­ver) tere­mos muito pouco para apre­sen­tar. De acordo com o tem­pe­ra­mento de cada autor, e as carac­te­rís­ti­cas de cada pro­jeto, será neces­sá­rio pas­sar mais ou menos tempo em cada uma des­tas eta­pas da escrita.

Tam­bém é impor­tante per­ce­ber que elas não são neces­sa­ri­a­mente sequen­ci­ais. O tra­ba­lho de ima­gi­na­ção arranca o pro­cesso, mas mantém-​​se ao longo de toda a escrita.

A pes­quisa pode ir ser feita em para­lelo com a escrita, assim como o povo­a­mento do uni­verso. E entre a pla­ni­fi­ca­ção e as outras eta­pas, incluindo a escrita, é um vai­vém permanente.

Um dos tru­ques para nunca entrar em blo­queio cri­a­tivo é alter­nar estas etapas.

Se num deter­mi­nado momento não esta­mos a con­se­guir escre­ver pági­nas do guião, pode­mos tra­ba­lhar um pouco no backs­tory ou no desen­vol­vi­mento de algum per­so­na­gem, ou fazer pes­quisa que esteja atra­sada[1].

Pode­mos tam­bém fazer um pouco de brains­tor­ming para desen­vol­ver alguma parte da estó­ria que ainda não resol­ve­mos, ou pro­cu­rar títu­los alter­na­ti­vos. Há sem­pre alguma coisa para fazer.

O truque final

Mas há melhor ainda. Mui­tos gui­o­nis­tas gos­tam de ter mais do que um pro­jeto em desen­vol­vi­mento em simul­tâ­neo. Se esti­ve­rem mais foca­dos na fase de escrita de um guião, que será o pro­jeto pri­má­rio, ten­tam ter um outro pro­jeto na fase de pes­quisapla­ni­fi­ca­ção, e tal­vez um outro ainda na fase de res­crita.

Dessa forma fogem a um blo­queio no pro­cesso mais difí­cil, a escrita, mer­gu­lhando por algum tempo numa fase mais sim­ples e recom­pen­sa­dora de outro projeto.

A van­ta­gem desta abor­da­gem é que quando regres­sa­mos ao ponto onde fica­mos blo­que­a­dos veri­fi­ca­mos quase sem­pre que a solu­ção surge natu­ral­mente. O nosso cére­bro não parou de tra­ba­lhar nela sub­cons­ci­en­te­mente e mostra-​​nos agora o cami­nho que antes não vislumbrávamos.

O impor­tante é man­ter a roda cri­a­tiva em movi­mento. Desde que não pare­mos o resto acaba sem­pre por vir.

Notas de Rodapé

  1. Sem exa­ge­ros. Exces­sos de pes­quisa são uma das for­mas mais comuns de fugir ao tra­ba­lho da escrita[]

João Nunes

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João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

6 responses to Como manter a roda da criatividade a andar

  1. Sim­ples­mente ado­rei este artigo, prin­ci­pal­mente o “grá­fico”. Toda a dica for­ne­cida já esta copi­ada e colada na sua pasta.

  2. Muito bom pri­mão… Grato pelas dicas. Não escrevo guiões mas escrevo umas coi­sas e identifiquei-​​me com muita coisa que dis­seste.. abreijos*

    • João Nunes 15/12/2012 at 18:24

      Quando deci­di­res escre­ver um guião com cer­teza terás muita coisa a con­tar ao mundo. Abração.

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