Como manter a roda da criatividade a andar

Escrever um guião é, em certos aspetos, semelhante a andar de bicicleta. O mais importante, depois de começar, é não parar.

Se diminuirmos demais a velocidade perdemos o equilíbrio e, naturalmente, temos tendência a cair. No caso da escrita, a consequência de parar é perder o entusiasmo pelo projeto e ficar progressivamente mais longe de o terminar.

A forma mais eficaz de evitar esta armadilha é mantendo a roda da criatividade a rodar. E é mais fácil do que parece.

O que é a roda da criatividade

O trabalho de um escritor não é apenas escrever. Na realidade, o processo de desenvolvimento de um guião ou outra peça de escrita criativa pode ser dividido em cinco tarefas distintas.

  1. Imaginar. É a faísca inicial de todo o processo criativo, e o combustível que o mantém em movimento. Pode tomar muitas formas, umas mais intuitivas ou subconscientes, outras mais dirigidas e intencionais. Entre estas últimas temos o brainstorming ou o mind mapping. Sonhar de olhos abertos, dar uma caminhada, tomar notas, ouvir música, ver filmes ou ler um bom romance; tudo isso pode ajudar a soltar a inspiração.
  2. Pesquisar. Muitas vezes escrevemos sobre profissões, épocas, realidades que não conhecemos bem. Mas mesmo quando o universo da nossa estória nos é familiar é sempre necessário fazer algum trabalho de pesquisa e investigação. Este pode tomar muitas formas, desde a nossa própria memória até às memórias de outros, na internet, em livros, nos media ou em conversas com pessoas mais familiarizadas nesse universo.
  3. Povoar o universo. O universo da nossa estória começa virgem e vazio. Somos nós que temos que o povoar com pessoas, lugares, relações, uma estória, mitos e tradições. Mas o nosso universo não surge por um Big Bang, e sim através de um processo gradual que combina imaginação e pesquisa.
  4. Planificar. Há escritores que são incapazes de escrever uma linha da sua obra sem a ter previamente planificado até ao mais ínfimo detalhe; outros, pelo contrário, desprezam completamente a planificação, que acusam de tolher a liberdade criativa. Calculo que a maior parte dos autores, contudo, se encontram entre estes dois extremos e fazem algum tipo de planificação, seja uma simples sinopse seja uma escleta mais ou menos detalhada.
  5. Escrever. Esta é talvez a tarefa mais difícil de todas. Podemos ter feito toda a pesquisa do mundo, povoado o nosso universo com os locais e habitantes mais fascinantes, imaginado as melhores cenas, diálogos, reviravoltas, planificado cada detalhe da obra final – se não nos sentarmos para a escrever (e mais tarde rescrever) teremos muito pouco para apresentar. De acordo com o temperamento de cada autor, e as características de cada projeto, será necessário passar mais ou menos tempo em cada uma destas etapas da escrita.

Também é importante perceber que elas não são necessariamente sequenciais. O trabalho de imaginação arranca o processo, mas mantém-se ao longo de toda a escrita.

A pesquisa pode ir ser feita em paralelo com a escrita, assim como o povoamento do universo. E entre a planificação e as outras etapas, incluindo a escrita, é um vaivém permanente.

Um dos truques para nunca entrar em bloqueio criativo é alternar estas etapas.

Se num determinado momento não estamos a conseguir escrever páginas do guião, podemos trabalhar um pouco no backstory ou no desenvolvimento de algum personagem, ou fazer pesquisa que esteja atrasada[1].

Podemos também fazer um pouco de brainstorming para desenvolver alguma parte da estória que ainda não resolvemos, ou procurar títulos alternativos. Há sempre alguma coisa para fazer.

O truque final

Mas há melhor ainda. Muitos guionistas gostam de ter mais do que um projeto em desenvolvimento em simultâneo. Se estiverem mais focados na fase de escrita de um guião, que será o projeto primário, tentam ter um outro projeto na fase de pesquisa e planificação, e talvez um outro ainda na fase de rescrita.

Dessa forma fogem a um bloqueio no processo mais difícil, a escrita, mergulhando por algum tempo numa fase mais simples e recompensadora de outro projeto.

A vantagem desta abordagem é que quando regressamos ao ponto onde ficamos bloqueados verificamos quase sempre que a solução surge naturalmente. O nosso cérebro não parou de trabalhar nela subconscientemente e mostra-nos agora o caminho que antes não vislumbrávamos.

O importante é manter a roda criativa em movimento. Desde que não paremos o resto acaba sempre por vir.

Notas de Rodapé

  1. Sem exageros. Excessos de pesquisa são uma das formas mais comuns de fugir ao trabalho da escrita[]

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