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Curso #24: A Viagem do Herói
clarice - silence of the lambs

Penso já ter dei­xado claro que o modelo clás­sico de nar­ra­tiva, que deta­lhei nos últi­mos arti­gos, não é a única forma de abor­dar uma estó­ria. Há mui­tas manei­ras de orga­ni­zar a estru­tura de uma obra dramática.

Por exem­plo, Aaron Sor­kin anun­ciou recen­te­mente que vai estru­tu­rar a sua bio­gra­fia de Steve Jobs, o fun­da­dor e patrão da Apple, fale­cido em 2011, em ape­nas três cenas de cerca de 30 minu­tos, nar­ra­das em tempo real.

É uma abor­da­gem radi­cal mas que mos­tra a diver­si­dade de opções que um gui­o­nista tem ao seu dis­por. O obje­tivo é encon­trar a mais ade­quada para as carac­te­rís­ti­cas da estó­ria que que­re­mos contar.

Um dos mode­los estru­tu­rais alter­na­ti­vos, de que se tem falado muito nas últi­mas déca­das, é a cha­mada via­gem do herói. É esta fer­ra­menta que vamos conhe­cer hoje.

O herói das mil faces

Um dos livros mais influ­en­tes do século vinte, para mui­tos estu­di­o­sos, foi O Herói das Mil Faces, do antro­pó­logo e his­to­ri­a­dor Joseph Camp­bell.

Camp­bell iden­ti­fi­cou uma série de eta­pas comuns em nar­ra­ti­vas mito­ló­gi­cas, len­das e con­tos tra­di­ci­o­nais de civi­li­za­ções ou épo­cas muito diferentes.

Atri­buiu essa coe­rên­cia de expe­ri­ên­cias à exis­tên­cia de uma pre­dis­po­si­ção inata dos indi­ví­duos para orga­ni­zar as suas nar­ra­ti­vas segundo um deter­mi­nado padrão, a que cha­mou a via­gem do herói, ou mono­mito.

No iní­cio dos anos 80 um ana­lista de guiões da Dis­ney, Chris­topher Vogler, escre­veu <a href=“http://www.thewritersjourney.com/hero” onclick=“javascript:_gaq.push([’_trackEvent’,‘outbound-article’,‘http://www.thewritersjourney.com’]);“s_journey.htm#Practical”>um memorando em que adap­tava a via­gem do herói de Camp­bell do ponto de vista do seu inte­resse para o desen­vol­vi­mento de fil­mes. Para esse efeito sim­pli­fi­cou as eta­pas pro­pos­tas por Camp­bell, reduzindo-​​a a doze pon­tos essenciais.

O seu memo­rando teve enorme impacto entre os estú­dios de Hollywood, sendo divul­gado e par­ti­lhado por exe­cu­ti­vos, pro­du­to­res e gui­o­nis­tas, entu­si­as­ma­dos com esta nova abordagem.

O sucesso foi tanto que Vogler se trans­for­mou num dos cha­ma­dos “gurus” do gui­o­nismo, desen­vol­vendo e trans­for­mando o seu memo­rando num dos livros mais popu­la­res do sec­tor, The Wri­ters’ Jour­ney.

A via­gem do herói tornou-​​se assim um modelo muito popu­lar em Hollywood, tendo con­tri­buído para o desen­vol­vi­mento de mui­tos fil­mes de grande sucesso. Ape­sar de, como todos as solu­ções uni­ver­sais, ser muito con­tes­tada em cer­tos qua­dran­tes, a via­gem do herói é mais uma fer­ra­menta que os gui­o­nis­tas podem uti­li­zar para ana­li­sar e refle­tir sobre as suas obras.

A viagem do herói

Para melhor enten­di­mento desta abor­da­gem estru­tu­ral ire­mos olhar um filme extra­or­di­ná­rio, O Silên­cio dos Ino­cen­tes segundo o seu prisma.

Isto não quer dizer que o autor do romance ori­gi­nal, Tho­mas Har­ris, ou Ted Tally, o argu­men­tista, tenham inten­ci­o­nal­mente adap­tado a sua estó­ria a este modelo. Mas mos­tra como a estru­tura mítica da via­gem do herói está sub­ja­cente a obras muito diversas.

Segundo Vogler a adap­ta­ção da via­gem do herói para os efei­tos de uma nar­ra­tiva cine­ma­to­grá­fica passa por doze etapas:

  1. O Mundo Nor­mal. No iní­cio o Herói é ape­nas mais uma pes­soa nor­mal que vive a sua vida no mundo ordi­ná­rio. Temos que ter um enten­di­mento básico do que com­põe esse mundo para melhor apre­ci­ar­mos o mundo espe­cial da via­gem que ele depois irá empre­en­der. Em O Silên­cio dos Ino­cen­tesMundo Nor­mal de Cla­rice Star­ling é a aca­de­mia do FBI onde ela é ape­nas mais uma estudante.

  2. A Cha­mada para a Aven­tura. Algo acon­tece que intro­duz uma per­tur­ba­ção no mundo ordi­ná­rio. O herói é con­fron­tado com um desa­fio, um pro­blema ou um con­vite à aven­tura. No nosso exem­plo, Cla­rice é con­vi­dada pelo Agente Espe­cial Jack Craw­ford para aju­dar na inves­ti­ga­ção do serial kil­ler Buf­fallo Bill fazendo uma entre­vista a um outro serial kil­ler, Han­ni­bal the can­ni­bal Lecter.

  3. A Recusa da Cha­mada. Ao prin­cí­pio o herói pode estar relu­tante em embar­car na aven­tura; não quer dei­xar o con­forto do seu mundo nor­mal. No caso de O Silên­cio dos Ino­cen­tes não pode­mos dizer que Cla­rice hesita na aven­tura; pelo con­trá­rio, avança com entu­si­asmo para a entre­vista. Mas são inú­me­ros os obs­tá­cu­los que se lhe depa­ram, come­çando pelo dr. Chil­ton, ini­migo decla­rado de Lec­ter, e pelo pró­prio Lec­ter, que ini­ci­al­mente se recusa a cola­bo­rar com Clarice.

  4. O Encon­tro com o Men­tor. O herói encon­tra então um homem ou mulher mais velho e sábio, o Men­tor, que lhe dá a infor­ma­ção ou o estí­mulo deci­sivo para ele deci­dir avan­çar na via­gem. Pode­mos argu­men­tar que tanto Craw­ford como Lec­ter aca­bam por assu­mir o papel de men­to­res de Cla­rice. Mas Lec­ter tem um papel mais impor­tante pois é ele que, após uma peri­pé­cia que muda a sua ati­tude face à jovem inves­ti­ga­dora, lhe dá a pri­meira pista importante.

  5. A Tra­ves­sia do Pri­meiro Limiar. O herói deixa o mundo ordi­ná­rio e entra no mundo extra­or­di­ná­rio onde vai decor­rer a sua via­gem. Esta pas­sa­gem faz-​​se atra­vés de algum tipo de por­tal ou limiar, mui­tas vezes acom­pa­nhado de um Guar­dião que tenta tra­var a pas­sa­gem. Cla­rice começa a inves­ti­gar a pista dada por Lec­ter, pro­cu­rando num arma­zém. É muito sim­bó­lico que ela tenha de ras­te­jar para den­tro do arma­zém, que até tem um ver­da­deiro guar­dião que a tenta dis­su­a­dir de ir sozi­nha. Lá den­tro encon­tra os res­tos do que terá sido a pri­meira vítima de Buf­falo Bill.

  6. Os Tes­tes, Ali­a­dos e Ini­mi­gos. Segue-​​se o que Camp­bell designa como o cami­nho das pro­vas, em que o herói, auxi­li­ado por diver­sos ali­a­dos e anta­go­ni­zado por outros tan­tos ini­mi­gos, tem de ultra­pas­sar suces­si­vos obs­tá­cu­los e tes­tes na pro­cura do seu obje­tivo. É o que Cla­rice faz quando se junta à inves­ti­ga­ção de Craw­ford, enfren­tando obs­tá­cu­los que vão desde o pre­con­ceito sexual à arro­gân­cia, deci­frando enig­mas com a ajuda de ali­a­dos, e recor­rendo outras vezes ao auxí­lio do seu peri­goso men­tor, Lecter.

  7. A Apro­xi­ma­ção à Caverna. Os tes­tes que o herói enfrenta no seu per­curso de obs­tá­cu­los vão aumen­tando de difi­cul­dade, e ele vai-​​se apro­xi­mando de uma caverna mais peri­gosa e obs­cura. Cla­rice sente isto na pele quando Buf­falo Bill rapta uma nova vítima e Cla­rice tenta nego­ciar com Lec­tera troca de infor­ma­ções vitais.

  8. A Prova Mais Dura. Em mui­tos mitos a caverna con­duz a uma prova final em que o herói enfrenta um ini­migo muito difí­cil e sente o aroma da der­rota. É o seu momento mais negro, em que toda a sua cora­gem e tena­ci­dade vão ser pos­tas à prova. Para Cla­rice é o momento em que, após uma troca de infor­ma­ções com Lec­ter, que a obriga a mer­gu­lhar nas suas memó­rias mais dolo­ro­sas, é afas­tada da inves­ti­ga­ção por influên­cia do trai­ço­eiro dr. Chilton.

  9. A Recom­pensa. Depois da prova mais difí­cil ser supe­rada pelo herói este recebe algum tipo de recom­pensa – um eli­xir, uma espada mágica, uma capa com pode­res espe­ci­ais. Ou uma infor­ma­ção deci­siva, como acon­tece com Cla­rice, que recebe de Lec­ter uma pista decisiva.

  10. O Cami­nho de Regresso. Munido da sua recom­pensa o herói ini­cia o regresso ao seu mundo ordi­ná­rio. Cla­rice, ape­sar de afas­tada da inves­ti­ga­ção, vai con­ti­nuar a inves­ti­gar por conta pró­pria gra­ças à infor­ma­ção rece­bida de Lec­ter, e ape­sar de todos esta­rem a seguir a pista falsa que este dá a Chilton.

  11. A Res­sur­rei­ção. O herói regressa ao mundo nor­mal, munido da sua recom­pensa. Mas esta pas­sa­gem não é sim­ples, pelo con­trá­rio. Mui­tas vezes a sua res­sur­rei­ção é mar­cada por um con­flito final em que o herói tem de enfren­tar uma última vez a morte e quase sucumbe, antes de se reer­guer vito­ri­oso. É o que se passa com Cla­rice, que tem de con­fron­tar sozi­nha o serial kil­ler Buf­falo Bill, na escu­ri­dão da sua caverna sub­ter­râ­nea, e sal­var a sua última vítima sem a ajuda de mais ninguém.

  12. O Regresso com o Eli­xir. A via­gem do herói ter­mina com o regresso do herói ao mundo ordi­ná­rio, mas trans­for­mado pela aven­tura que viveu. Essa trans­for­ma­ção pode ser sim­bo­li­zada pelo eli­xir ou arte­facto mágico que ele trouxe do mundo espe­cial, ou pode ser sim­ples­mente a infor­ma­ção e expe­ri­ên­cia que ele acu­mu­lou na via­gem. O Silên­cio dos Ino­cen­tes ter­mina com Cla­rice de novo na Aca­de­mia do FBI, onde fes­teja a sua pas­sa­gem a de estu­dante a Agente Especial.

 

Fazendo uma adap­ta­ção livre do texto do memo­rando ori­gi­nal de Vogler, pode­mos dizer que o Herói é apre­sen­tado no seu MUNDO NORMAL onde recebe um CHAMADO À AVENTURA. Pri­meiro fica RELUTANTE mas após o ENCONTRO COMMENTOR decide-​​se a ATRAVESSARPRIMEIRO LIMIAR para o mundo espe­cial onde encon­tra diver­sos TESTES, ALIADOSINIMIGOS. Final­mente atinge a CAVERNA MAIS FUNDA onde enfrenta A PROVA MAIS DURA. Aí con­quista A RECOMPENSA com a qual ini­cia O CAMINHO DE REGRESSO ao mundo ordi­ná­rio, onde final­mente RENASCE trans­for­mado pela via­gem e deten­tor de um ELIXIR com o qual bene­fi­ci­ará esse mundo.

Os Arquétipos

Ao longo da des­cri­ção da via­gem do herói fomos encon­trando suces­si­vas refe­rên­cias a deter­mi­na­dos per­so­na­gens com padrões de com­por­ta­mento comuns que apa­re­cem nas tra­di­ções nar­ra­ti­vas de todas as épo­cas e civi­li­za­ções — fábu­las, len­das, con­tos tra­di­ci­o­nais, tex­tos mito­ló­gi­cos, tra­di­ções orais, etc.

São o que o psi­qui­a­tra Carl Jung desig­nou como arqué­ti­pos.

O Herói, obvi­a­mente, é um arqué­tipo, tal como o são o Men­tor, o Arauto, o Guar­dião, a Som­bra, o Mutante e o Impos­tor, entre mui­tos outros.

Já abor­dei os arqué­ti­pos num artigo ante­rior deste curso, por isso não me vou debru­çar aqui sobre eles, mas o seu estudo é uma com­po­nente essen­cial para quem queira ana­li­sar as nar­ra­ti­vas dra­ma­túr­gi­cas sob uma pers­pec­tiva mítica.

Comparação da Viagem do Herói com o Paradigma

Para ter­mi­nar gos­ta­ria de fazer um pequeno exer­cí­cio de com­pa­ra­ção da estru­tura da via­gem do herói com o padrão do para­digma que ana­li­sá­mos nos arti­gos ante­ri­o­res deste curso.

Pode­mos assim dizer que a Cha­mada para a Aven­tura cor­res­ponde ao Inci­ting Inci­dent do paradigma.

A Pas­sa­gem do Pri­meiro Limiar será o 1º Ponto de Vira­gem, que marca a entrada no segundo ato.

Todos os Tes­tes, Ali­a­dos e Ini­mi­gos, con­du­zindo à Apro­xi­ma­ção à Caverna Mais Funda cor­res­pon­dem ao desen­vol­vi­mento dra­má­tico do con­flito no segundo ato.

A Prova Mais Difí­cil, essa, será o equi­va­lente ao 2º Ponto de Vira­gem, que marca a tran­si­ção para o ter­ceiro ato.

Por fim, a Res­sur­rei­ção cor­res­pon­derá ao Clí­max do para­digma, e o Regresso com o Eli­xir à sua Con­clu­são ou dénou­e­ment.

Fazer esta aná­lise para­lela em fil­mes tão dife­ren­tes como Juno, Rain Man, Matrix. Star Wars, Sha­kes­pe­are in Love, Chi­na­town, Lit­tle Miss Sunshine ou Wit­ness, por exem­plo, é um exer­cí­cio inte­res­sante que acon­se­lho a todos os estu­di­o­sos de guionismo.

Em alguns casos vamos encon­trar seme­lhan­ças muito gran­des, nou­tros dife­ren­ças igual­mente esclarecedoras.

Em última ins­tân­cia esse exer­cí­cio chama-​​nos a aten­ção para a exis­tên­cia de alguns padrões nar­ra­ti­vos natu­rais, comuns a mui­tas estó­rias diferentes.

Conhe­cer bem esses padrões, nem que seja para os trans­gre­dir de acordo com as impo­si­ções das nos­sas estó­rias, é uma neces­si­dade para todos os guionistas.

Quan­tas mais fer­ra­men­tas tiver­mos na nossa caixa mais fle­xi­bi­li­dade e segu­rança tere­mos para enfren­tar o desa­fio sem­pre reno­vado que é escre­ver um guião.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one

  • hermes leal 16/01/2013, 15:01

    Nao poderia deixar de comentar a respeito da jornada do heroi, que é tao comentado no meio dos roteirista, que tua origem na verdade nao neste tipo de mito citado aquim mas em outros tipos de herói, criado por V. Propp, o sujeito que analisou a jornada do heroi nos contos maravilhosos russos, que criou uma escala de funcao para cada personagem, (o heroi e o vilao) e estruturou pela primeira vez o ato de narrar. Veio de Propp toda uma analise da linguagem do texto atraves das estruturas e de seus personagens aplicadas por Bhartes, por exemplo, e tantos outros estudiosos das teorias da ficção. E muito bem aproveitada pelos roteiristas.

    • João Nunes 16/01/2013, 15:46

      Obrigado pelo comentário e referências.

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