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Curso #23: Escrever o 3º ato
juno denouement

Os últi­mos minu­tos de um filme são geral­mente os mais impor­tan­tes e os que per­du­ram na memó­ria dos espec­ta­do­res – pelas boas e pelas más razões. A maior parte dos espec­ta­do­res está dis­posto a esque­cer e per­doar as falhas e tro­pe­ções no decurso da estó­ria desde que a sua con­clu­são seja emo­ci­o­nal­mente satisfatória. 

Mui­tos deci­so­res – pro­du­to­res, rea­li­za­do­res, ato­res – tomam deci­sões em rela­ção a um guião lendo ape­nas as pri­mei­ras e as últi­mas pági­nas. Só no caso des­tas os con­ven­ce­rem ple­na­mente é que se dão ao tra­ba­lho de ler tudo o resto.

O 3º ato é o clímax da estória

No final do 2º ato encon­tra­mos mui­tas vezes o pro­ta­go­nista no seu pior momento. É fre­quente haver nessa fase der­ro­tas, mor­tes de ali­a­dos e outros con­tra­tem­pos. Os obs­tá­cu­los que sur­gem são apa­ren­te­mente inultrapassáveis.

Em Juno, o filme que temos vindo a usar como exem­plo, o momento mais negro é o anún­cio de que os futu­ros pais ado­ti­vos se vão afi­nal divor­ciar. Des­troem dessa forma o sonho que Juno aca­lenta de dar uma famí­lia per­feita ao seu bebé.

O 3º ato passa assim a ser a nar­ra­tiva da forma que o pro­ta­go­nista encon­tra para se reer­guer da sua fossa e fazer uma última ten­ta­tiva para cum­prir a sua missão.

Isso implica, nor­mal­mente, um con­fronto final com o seu anta­go­nista, no qual é reve­lada a res­posta à ques­tão dra­má­tica levan­tada no iní­cio do filme.

A esse con­fronto final, a esse momento deci­sivo e con­clu­sivo da estó­ria, cha­ma­mos o clí­max.

O 3º ato é consequência dos anteriores

O cine­asta Billy Wil­der disse uma vez que “se temos um pro­blema no 3º ato, o ver­da­deiro pro­blema está no 1º ato”. É uma maneira muito clara de nos recor­dar que o 3º ato é a con­clu­são lógica e ine­vi­tá­vel de todo o envol­vi­mento dra­má­tico cons­truído nos dois atos anteriores.

Tudo o que surge ou acon­tece no 3º ato deve ter sido pres­sa­gi­ado ou dado a enten­der no decurso da estória.

Como tal deve­mos ter cons­truído uma ideia geral da dire­ção para onde a estó­ria está a ser con­du­zida. Mas deve­mos ao mesmo tempo ter man­tido em segredo os deta­lhes dessa conclusão.

O des­fe­cho de uma estó­ria deve ser lógico e ine­vi­tá­vel mas tam­bém sur­pre­en­dente. Não pode­mos limitar-​​nos a ligar os pon­tos e dar ao espec­ta­dor exa­ta­mente o que ele estava a pre­ver. O ideal é este ser sur­pre­en­dido pela con­clu­são que encon­trá­mos para a estó­ria, mas simul­ta­ne­a­mente sen­tir que aquele final era inevitável.

O 3º ato encerra todas as pontas soltas

Além de fechar a estó­ria cen­tral, res­pon­dendo à ques­tão dra­má­tica do filme, o 3º ato encerra tam­bém todas as estó­rias secun­dá­rias do filme.

Isso acon­tece nor­mal­mente antes do clí­max, mas alguns enre­dos secun­dá­rios podem fechar-​​se ape­nas depois deste. É o caso das tra­mas amo­ro­sas, que nor­mal­mente só se con­cluem depois da trama cen­tral ser encerrada.

Mas o 3º ato não se limita a encer­rar as várias tra­mas da estó­ria. É mui­tas vezes neces­sá­rio que o pro­ta­go­nista con­clua o seu pró­prio arco de trans­for­ma­ção. Só mudando algum aspecto ou supe­rando alguma fra­queza da sua per­so­na­li­dade é que ele fica pre­pa­rado para enfren­tar o desa­fio final.

Isto é válido tanto pela posi­tiva como pela nega­tiva. Em O Silên­cio dos Ino­cen­tes Cla­rice ter­mina a sua trans­for­ma­ção de inse­gura esta­giá­ria do FBI numa agente capaz de sal­var sozi­nha a vítima do psi­co­pata Bufallo Bill. Em O Padri­nho Michael Cor­le­one deixa de ser o filho honesto e ide­a­lista para se trans­for­mar num pode­roso che­fão, frio e impla­cá­vel, e assim sal­var a sua família.

No 3º ato assis­ti­mos tam­bém à con­clu­são temá­tica da estó­ria. É aqui que per­ce­be­mos o tema, o sig­ni­fi­cado real, o impacto emo­ci­o­nal de todo o arco narrativo.

Características do 3º ato

O 3º ato de um filme é geral­mente mais curto, cor­res­pon­dendo ape­nas a 1520% do total da estó­ria. É claro que há excep­ções, e mui­tos exem­plos con­trá­rios, mas são mais fre­quen­tes os casos em que assim acontece.

Nas cenas que ante­ce­dem a 2ª vira­gem assis­ti­mos mui­tas vezes ao momento mais negro do pro­ta­go­nista, aquele em que ele tem direito (embora por pouco tempo…) a duvi­dar do sucesso da sua empreitada.

Esta depres­são tem­po­rá­ria serve para dar um valor acres­cido ao seu último esforço em que, ape­sar de todas as dúvi­das e difi­cul­da­des, se reer­gue para uma última e deses­pe­rada tentativa.

Esta ten­ta­tiva é mui­tas vezes acom­pa­nhada por uma nova tática, nor­mal­mente ape­nas pos­sí­vel por­que ele cum­priu o seu pro­cesso de trans­for­ma­ção, enfren­tando e ven­cendo os seus pró­prios medos e obs­tá­cu­los internos.

Acon­tece tam­bém mui­tas vezes que, nesta última inves­tida, se assiste ao regresso de ali­a­dos que tínha­mos pen­sado per­di­dos. Quem não se recorda do regresso triun­fal de Han Solo no final de A Guerra das Estre­las?

Não deve­mos con­fun­dir este regresso de ali­a­dos com um dos erros mais temi­dos pelos bons dra­ma­tur­gos: os deus ex machina.

Esta expres­são latina aplica-​​se a todas as solu­ções dra­má­ti­cas que são implan­ta­das numa estó­ria ape­nas para resol­ver um pro­blema, sem que nada as fizesse indi­car ou possa justificar.

Um exem­plo bem humo­rado de deus ex machina surge no filme The Expen­da­bles 2, numa sequên­cia em que os heróis estão cer­ca­dos por um grupo mais nume­roso e bem armado e a sua der­rota parece ine­vi­tá­vel. É nesse momento que surge do nada Chuck Nor­ris e, sozi­nho, eli­mina todo o bando ini­migo. Uma solu­ção tão impro­vá­vel e gra­tuita só é acei­tá­vel por­que é o filme que é – e se trata de Chuck Norris.

Se os deus ex machina, tais como as coin­ci­dên­cias, são geral­mente de evi­tar, são ainda mais temí­veis quando sur­gem no clí­max e aju­dam a defi­nir a con­clu­são da estó­ria. É o que acon­tece, por exem­plo, em O Turista, uma comé­dia ligeira de ação com­ple­ta­mente des­truída por um final assente num des­ca­rado deus ex machina.

A inves­tida final do pro­ta­go­nista, munido de uma nova tática, com novos ali­a­dos e de for­ças retem­pe­ra­das, ter­mina quando este enfrenta o anta­go­nista prin­ci­pal no clí­max da estó­ria. Esta sequên­cia pode ser um grande con­fronto épico ou uma cena de forte impacto, mas pode tam­bém assu­mir con­tor­nos mais intimistas.

Se em Os Vin­ga­do­res, por exem­plo, o clí­max é uma espe­ta­cu­lar bata­lha nas ruas, e em O Padri­nho é a memo­rá­vel sequên­cia do bati­zado inter­ca­lado com os homi­cí­dios dos ini­mi­gos da famí­lia Cor­le­one, em O Silên­cio dos Ino­cen­tes é a cena do con­fronto direto entre Cla­rice e o mons­tro no seu labirinto.

O clí­max res­ponde assim à ques­tão dra­má­tica lan­çada no 1º ato. É só neste momento que fica­mos a saber se o pro­ta­go­nista alcança ou não os seus objetivos.

Há qua­tro resul­ta­dos pos­sí­veis, dois sim­ples e dois complexos:

  • A vitó­ria clara e obje­tiva do pro­ta­go­nista, como em O Silên­cio dos Ino­cen­tes ou Juno.

  • A der­rota pura e sim­ples do pro­ta­go­nista, mais rara, como em Rosemary’s Baby e mui­tos fil­mes de terror.

  • A vitó­ria com sabor a der­rota, como em O Padri­nho ou Haverá San­gue.

  • E, final­mente, a der­rota que real­mente é uma vitó­ria, como em I Am Legend ou (par­ci­al­mente) Inglo­ri­ous Bas­terds, ou tan­tos outros fil­mes em que um pro­ta­go­nista se sacri­fica pelo bem coletivo.

Depois do clí­max uma estó­ria pode ter ainda uma fase mais curta a que cha­ma­re­mos de con­clu­são ou, usando um termo fran­cês, “dénou­e­ment”.

É aqui que se fecham as últi­mas pon­tas sol­tas e se dá ao espec­ta­dor algum tempo para sabo­rear as emo­ções do clí­max da estó­ria. Em alguns casos, é o tempo neces­sá­rio para secar as lágri­mas depois de uma boa catarse emocional.

A con­clu­são de Juno é a sequên­cia final em que a pro­ta­go­nista toca viola com o namo­rado. Em O Silên­cio dos Ino­cen­tes é a festa em que Cla­rice cele­bra a sua gra­du­a­ção, inter­rom­pida pelo tele­fo­nema de Han­ni­bal Lec­ter, que se pre­para para con­su­mar a sua vin­gança con­tra o detes­tá­vel dou­tor Chil­ton. Em O Padri­nho é o beija-​​mão final, em que Kay per­cebe que Michael já não é o homem com quem casou.

Este período de con­clu­são, de catarse emo­ci­o­nal, deve ser geral­mente curto, mas pode haver excep­ções – algu­mas mais bem suce­di­das do que outras.

Em Os Con­de­na­dos de Shawshank a con­clu­são após o clí­max do filme – a fuga de Andy – é tão longa que se con­verte, na prá­tica, num 4º ato, com o seu clí­max pró­prio. A estó­ria só ter­mina quando se resolve a ques­tão pen­dente da sobre­vi­vên­cia de Red no mundo exte­rior e a sua rela­ção de ami­zade com Andy.

Já no 3º filme da saga O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei a fase de “dénou­e­ment” prolonga-​​se muito mais do que o neces­sá­rio, arrastando-​​se des­ne­ces­sa­ri­a­mente num filme já de si muito longo.

O 3º Ato de Juno

  • 74.30 – Juno inter­roga o pai sobre o amor e a felicidade.
  • Juno fax uma ope­ra­ção noturna para entre­gar alguma coisa que não identificamos.
  • Ble­e­ker encon­tra um monte de gulo­sei­mas à porta de casa.
  • Juno pro­cura Ble­e­ker na pista de cor­rida e beija-​​o.
  • As águas de Juno rebentam.
  • Con­tra­ções for­tes fazem Juno sofrer.
  • 81.30CLÍMAX – o parto.
  • Ble­e­ker corre.
  • Juno com o pai no hos­pi­tal depois do parto.
  • Ble­e­ker apa­rece e deita-​​se na cams de hos­pi­tal ao lado de Juno.
  • Vanessa apa­rece para ver o bebé.
  • Flash­back para a nota que Juno dei­xou: “Se ainda estás inte­res­sada eu alinho”.
  • Juno vai ter com Ble­e­ker de bici­cleta, já no verão.
  • 86.30 – Juno e Ble­e­ker tocam viola jun­tos. Vol­tam a ser ado­les­cen­tes normais.

Análise do 3º ato de Juno

Como pode­mos ver o 3º ato de Juno é muito curto, com pouco mais de 12 minutos.

Juno, depois do momento mais negro que marca o fim do 2º ato, adota novas táti­cas para lidar com os pro­ble­mas da sua vida.

No que res­peita à sua rela­ção com Ble­e­ker – o enredo secun­dá­rio do filme – a jovem decide tomar a ini­ci­a­tiva nas suas mãos e fazer-​​lhe uma mar­ca­ção cer­rada – e bem sucedida.

Em rela­ção ao enredo prin­ci­pal tam­bém adota uma nova tática mas só vimos a sabê-​​lo no fim, quando des­co­bri­mos o con­teúdo da men­sa­gem dei­xada a Vanessa: “Se ainda estás inte­res­sada eu ali­nho”.

Esta nova tática só é pos­sí­vel por­que Juno ter­mina um pequeno arco de trans­for­ma­ção: perde parte da sua ino­cên­cia e deixa de acre­di­tar em solu­ções ide­ais para apren­der a viver satis­feita com a feli­ci­dade pos­sí­vel num mundo imperfeito..

O clí­max da estó­ria, obvi­a­mente, é o parto – tra­tado com humor e rea­lismo – e a sub­se­quente entrega do bebé à nova mãe. É aqui que fica res­pon­dida a ques­tão dra­má­tica ini­cial: “O que vai ser feito desta cri­ança?”.

Depois do clí­max vem uma curta sequên­cia de con­clu­são, de “dénou­e­ment”, em que vemos que o equi­lí­brio ori­gi­nal do mundo de Juno foi reposto e está inclu­sive melhor, já que ela resol­veu a sua rela­ção com Bleeker.

Como tudo em Juno, este é um 3º ato exemplar.

Conclusão

Com este artigo ter­mi­na­mos a aná­lise mais deta­lhada dos ele­men­tos que com­põem os três atos de uma estó­ria cons­truída de acordo com o modelo de estru­tura clássico.

Há outros mode­los estru­tu­rais, mas a estru­tura em três atos – o cha­mado para­digma – é o mais impor­tante de domi­nar e com­pre­en­der com­ple­ta­mente. É pre­ciso conhe­cer as regras para as poder transcender.

Não posso ter­mi­nar sem refor­çar uma ideia muito impor­tante: estas “regras” que refiro não são imu­tá­veis nem garan­tem, só por si, a qua­li­dade de uma estória.

Há um número incon­tá­vel de maus fil­mes que res­pei­tam este modelo estru­tu­ral, assim como há mui­tos fil­mes mara­vi­lho­sos que o des­res­pei­tam, no todo ou em parte.

O impor­tante é a estó­ria fun­ci­o­nar bem, ter o poder de nos agar­rar e pren­der do prin­cí­pio ao fim, de nos sur­pre­en­der, de liber­tar todo o tipo de emo­ções e nos dei­xar com uma sen­sa­ção de satis­fa­ção e catarse quando chega ao fim.

A estru­tura em três atos é ape­nas um bom ponto de par­tida para alcan­çar este objetivo.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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