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Favoritos: Tudo o que você precisa de saber sobre drama, pela mão de David Mamet (Republicação)
DavidMamet-imagem

David Mamet é um dos grandes argumentistas vivos. Um dos melhores. Um dos poucos cujos livros vale a pena ler mais do que uma vez.

Além de ter escrito filmes tão bons como "The Untouchables", "House of Games", "Glengarry Glen Ross" e o meu favorito, "State and Main", ainda criou e foi produtor executivo da série de televisão "The Unit".

Foi precisamente nesse último cargo que ele escreveu um memorando notável que agora apareceu divulgado em tudo o que é site de guionismo americano. O texto é uma verdadeira aula de escrita de guião, tão sucinta, concisa e precisa que decidi traduzi-la para português.

Não conheço um único argumentista, começando por mim mesmo, que não possa beneficiar com estes conselhos do mestre. Cada frase encerra uma verdade, uma  lição, uma noção de sabedoria prática,  todas tão acutilantes que é impossível escolher uma ou outra.

Leiam com atenção o texto todo, e não precisarão de ler muito mais[1].

Aos escritores de "The Unit"

Saudações.

Conforme vamos aprendendo a escrever esta série, torna-se claro um problema recorrente.

O problema é este: diferenciar drama e não-drama. Vamos lá analisar a questão.

Toda a gente na criação anda a reclamar connosco para tornar a série mais clara. Aparentemente teríamos a obrigação de enfiar uma carrada de informação num curto espaço de tempo.

Os nossos amigos, os pinguins[2], pensam, portanto, que nós fomos contratados para dar informação – e às vezes nós mesmos acreditamos nisso.

Mas tomem nota: os espectadores não vão procurar o nosso programa para ver informação. Vocês não o fariam. Eu não o faria. Ninguém o faria nem o fará. Os espectadores só vão sintonizar o nosso programa, e ficar sintonizadas, para ver drama.

Pergunta: o que é drama? Drama, uma vez mais, é a missão do herói para ultrapassar aquelas coisas que o impedem de alcançar um objectivo específico e premente.

Assim sendo: nós, os escritores, temos de fazer estas três perguntas acerca de cada cena:

  1. Quem quer o quê?
  2. O que acontecerá se não o conseguir?
  3. Porquê neste momento?

A resposta a estas três questões é o teste de Litmus da cena. Apliquem-nas sempre, e as respostas dir-vos-ão se a cena é dramática ou não.

Se a cena não for escrita dramaticamente, não será interpretada dramaticamente.

Não há pozinho mágico que salve uma cena chata, inútil, redundante ou meramente informativa depois de sair dos vossos teclados. A vocês, escritores, compete garantir que todas as cenas são dramáticas.

Isto inclui todas aquelas pequenas cenas de exposição em que duas pessoas falam de uma terceira. Estas tretas (e todos nós as escrevemos nas primeiras versões dos guiões) são ainda menos que inúteis, caso aconteça, Deus nos proteja disso, chegarem a ser  filmadas.

Se uma cena vos chateia quando a lêem, podem ter a certeza de que vai chatear os atores, e vai, depois, chatear as audiências, e lá vamos nós todos para a sopa dos pobres.

Alguém tem de fazer com que a cena seja dramática. Isso não é tarefa dos atores (a tarefa dos atores é serem verdadeiros). Não é tarefa dos realizadores. A tarefa deles é filmar a cena sem complicar e lembrar os atores para falarem depressa. É a vossa tarefa.

Cada cena tem de ser dramática. Isso significa: o personagem principal tem de ter uma necessidade simples, linear, e urgente que o/a impele a estar presente na cena.

Essa necessidade é a razão para ter aparecido. É a razão de ser da cena. A tentativa do personagem satisfazer essa necessidade irá, no fim da cena, conduzir inevitavelmente ao fracasso – é dessa forma que a cena termina. Isso, o fracasso, é o que nos impele, naturalmente, para a cena seguinte.

Todas estas sucessivas tentativas constituirão, quando juntas, o enredo do episódio.

Qualquer cena, pois, que não faça simultaneamente avançar o enredo e não se sustenha por si só (ou seja, pelos seus próprios méritos dramáticos) ou é supérflua ou está mal escrita.

Sim mas sim mas sim mas, dizem vocês: e a necessidade de enfiarmos no texto toda aquela informação?

E eu respondo “desenrasquem-se” – qualquer palerma com um fato azul pode ser (e é) ensinado a dizer “Tornem isto mais claro”, e “Eu quero saber mais acerca dele”.

Quando vocês conseguirem tornar tudo tão claro e transparente que até esse pinguim de fato azul fique satisfeito, quer vocês quer ele/a estarão no desemprego.

A tarefa de um dramaturgo é fazer o espectador interrogar-se sobre o que acontecerá a seguir. Não explicar-lhe o que acabou de acontecer, ou sugerir-lhe o que vai acontecer de seguida.

Qualquer palerma, como referi, consegue escrever, “Mas, Jim, se não assassinarmos o primeiro-ministro na próxima cena, toda a Europa será envolvida em chamas”.

Nós não somos pagos para perceber que o espectador precisa de toda essa informação para entender a cena seguinte, mas sim para escrever a cena que temos à frente de uma forma que o faça querer saber o que vem a seguir.

Sim mas sim mas sim mas insistem vocês.

E eu respondo desenrasquem-se.

Como é que se encontra o equilíbrio entre a informação que se esconde e a que se revela? Essa é a principal tarefa de um dramaturgo. E a habilidade para o fazer é o que vos separa das espécies inferiores nos seus fatos azuis.

Desenrasquem-se.

Comecem, sempre, com esta regra inviolável: a cena tem de ser dramática. Tem de começar porque o herói tem um problema, e tem de culminar com o herói ou heroína a ser impedido de ter sucesso, ou a descobrir que pode haver outra alternativa.

Leiam os vossos resumos. Qualquer resumo que diga “Bob e Sue discutem…” não está a descrever uma cena dramática.

Por favor notem que as nossas escaletas são, de forma geral, espetaculares. O drama decorre entre a escaleta e a primeira versão do guião.

Pensem como cineastas e não como funcionários porque, na realidade, vocês estão a fazer o filme. O que vocês escreverem, eles filmarão.

Estes são os sinais de perigo.

Sempre que dois personagens estiverem a falar de um terceiro, a cena é um monte de bosta.

Sempre que um personagem disser para outro “Como tu sabes”, ou seja, disser ao outro personagem aquilo que vocês, como escritores, precisam que o espectador saiba, a cena é um monte de bosta.

Não escrevam montes de bosta. Escrevam uma cena excitante de três, quatro, sete minutos, que faça a história seguir em frente e poderão, muito em breve, comprar uma casa em Bel Air e contratar alguém para viver lá por vocês.

Lembrem-se de que estão a escrever para um meio visual. A maior parte da escrita para televisão, incluindo a nossa, soa a rádio. A câmara pode dar as explicações por vocês. Deixem-na fazê-lo. O que é que os personagens estão a fazerliteralmente. Onde é que  mexem, o que estão a ler. O que assistem na televisão, o que estão a ver.

Se fingirem que os personagens não podem falar, e escreverem um filme mudo, estarão a escrever drama de primeira categoria.

Se retirarem a vós mesmos a muleta da narração, da exposição, até da fala, serão forçados a trabalhar num novo meio, contando a história em imagens (também conhecido como guionismo).

Esta é uma habilidade nova. Ninguém a faz naturalmente. Vocês podem treinar-se para a fazer, mas têm de começar.

Termino com o pensamento nuclear: olhem para a cena e perguntem a vós mesmos “Está dramática? É essencial? Faz avançar o enredo?

Respondam com honestidade.

Se a resposta for “Não” escrevam-na de novo ou deitem-na fora. Se tiverem dúvidas, liguem-me.

Love, Dave Mamet

Santa Mónica, 19 Octo 05

(Não é vossa responsabilidade saber as respostas, mas é vossa, e minha, responsabilidade saber e fazer as perguntas certas uma e outra vez. Até se tornarem uma segunda natureza. Acredito que as listei acima.)

Notas de Rodapé

  1. Nota: o texto original está escrito todo em maiúsculas, mas na tradução preferi usar uma forma menos 'agressiva'[]
  2. Os executivos da estação… Vê-se que o David Mamet gosta deles. Aliás, basta ler “Bambi Vs Godzilla” para saber o que o autor pensa dos executivos atuais[]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one
  • Cícero Soares 05/09/2012, 14:43

    Putz, já havia lido o, hum, petardo, ano atrás. Aula Magna.

    É… o Mamet, né? Na última década ele me desiludiu um pouco, mas… Mas nada sério, nenhum arranhão que comprotesse a sumidade dele, que continua inabalável.

    Mas que preciso rever algumas coisas, de décadas anteriores, preciso: The Verdict (parceria com o Lumet), The Spanish Prisoner, The Winslow Boy e…

    Putz, Things Change, visto ainda em VHS! Na época esse filme me causou a melhor das impressões, lembro-me dele como uma versão “menor” (não no sentido de qualidade, mas de deslocamento de tema) de Being There.

    Opa, olha outro que preciso urgentemente rever! rs.

  • a 13/10/2012, 8:47

    Comigo, o primeiro encontro foi com o “House of Games”. Nunca mais perdi o Mamet de vista, :-).

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