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Fountain: um novo formato para escrever um filme
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Um aviso pré­vio. Este artigo só inte­ressa a argu­men­tis­tas que tenham um cos­tela de nerd/​geek razo­a­vel­mente desen­vol­vida. Se não é o caso, sugiro que explore outros arti­gos do meu blogue.

O argu­men­tista ame­ri­cano John August anun­ciou recen­te­mente no seu blo­gue o lan­ça­mento de um novo for­mato de docu­mento para escre­ver um filme, a que cha­mou Fountain.

Passo a tra­du­zir o texto intro­du­tó­rio do site dedi­cado ao Foun­tain:

“Foun­tain é uma sin­taxe sim­ples de mar­ca­ção de texto para escre­ver, edi­tar e par­ti­lhar guiões em for­mato de texto sim­ples ime­di­a­ta­mente legí­vel. Foun­tain permite-​​lhe tra­ba­lhar no seu guião em qual­quer lugar, em qual­quer com­pu­ta­dor ou tablet, usando qual­quer pro­grama que edite fichei­ros de texto simples.

Foun­tain é ins­pi­rada pelo Mark­down de John Gru­ber[1] e é ime­di­a­ta­mente legí­vel. Quando é neces­sá­rio usar uma sin­taxe espe­cial, esta é sim­ples e intuitiva.

Mesmo quando é lido ape­nas como texto sim­ples, o seu guião tem ar de guião.

A sin­taxe Foun­tain suporta tudo o que um gui­o­nista neces­sita na fase ini­cial, cri­a­tiva, da escrita do guião. Não inclui opções de pro­du­ção como os MAISCONTINUADOS, mar­cas de revi­são, blo­queio de pági­nas ou pági­nas coloridas.

Por ser ape­nas texto sim­ples, Foun­tain é tam­bém ideal para arqui­var guiões sem medo de obso­les­cên­cia dos for­ma­tos ou incompatibilidade.”

O que quer isto dizer

O for­mato Foun­tain permite-​​nos agar­rar em qual­quer pro­grama que escreva em texto sim­ples – o Note­pad, no Win­dows, o Tex­tE­dit no Mac, o Vim, no Unix, o Ter­mi­nal, um edi­tor de html, um pro­grama de email, o Goo­gle Docs, até o Sim­ple­Note, no iPhone – e come­çar ime­di­a­ta­mente a escre­ver um guião.

Esse guião poderá ser aberto, lido, edi­tado e par­ti­lhado com qual­quer outro pro­grama que leia texto sim­ples, em qual­quer pla­ta­forma ou sis­tema operativo.

Melhor ainda, se daqui a dez ou vinte (ou cem) anos qui­ser­mos ler ou edi­tar de novo este ficheiro, é certo que o con­se­gui­re­mos. O mesmo não pode­mos dizer dos for­ma­tos exclu­si­vos dos vários pro­gra­mas de escrita de guião que con­cor­rem neste mercado.

Final­mente, se alguma vez for neces­sá­rio usar as fun­ci­o­na­li­da­des mais avan­ça­das dos pro­gra­mas de escrita de guião, como o Final Draft ou o CeltX, os fichei­ros de texto sim­ples são por eles impor­ta­dos com grande fidelidade.

Como funciona o Fountain

Para escre­ver no for­mato Foun­tain usa­mos uma abor­da­gem sim­ples e intui­tiva. Por exem­plo, as linhas que se seguem, se gra­va­das num ficheiro de texto sim­ples, seriam reco­nhe­ci­das cor­re­ta­mente como per­ten­cendo a um guião.

EXT. RUA – DIA

João cami­nha na rua, imerso nos seus pensamentos.

 

PEDRO (O.S.)

João, és tu?

 

João vira-​​se, surpreendido.

 

JOÃO

Pedro?!

(des­con­fi­ado)

O que fazes aqui?

 

Pedro sorri e enco­lhe os ombros.

CORTA PARA:

Percebe-​​se ao pri­meiro olhar que se trata de um guião, ape­sar dos ele­men­tos não esta­rem exa­ta­mente nos for­ma­tos padro­ni­za­dos para impressão.

Reco­nhe­ce­mos facil­mente o CABEÇALHO, os NOMES dos per­so­na­gens, as linhas de DIÁLOGO, as des­cri­ções de AÇÃO, e, no final, uma TRANSIÇÃO.

Escre­ver o básico em for­mato Foun­tain é tão sim­ples quanto isto. Há depois uma série de outras indi­ca­ções de sin­taxe, muito sim­ples e intui­ti­vas, que são apli­ca­das em situ­a­ções espe­cí­fi­cas, como diá­lo­gos para­le­los, cabe­ça­lhos secun­dá­rios, etc.

No momento de impri­mir o guião (para papel ou .pdf) cabe ao pro­grama em que isso for feito apli­car os tipos e tama­nhos de letra, mar­gens e espa­ços entre­li­nhas ade­qua­dos para cada um dos ele­men­tos, de forma a que o guião siga os padrões da indústria.

Resta ver se o for­mato Foun­tain vai ser ado­tado por gui­o­nis­tas pro­fis­si­o­nais, ou se será ape­nas uma curi­o­si­dade passageira.

Eu estou atu­al­mente a ter­mi­nar um guião, mas quando come­çar a escre­ver um filme novo vou expe­ri­men­tar o for­mato Foun­tain. Terei a segu­rança de saber que, como o Final Draft o importa per­fei­ta­mente, a qual­quer momento posso mudar sem tempo perdido.

Notas de Rodapé

  1. Mark­down, que é pre­ci­sa­mente a sin­taxe que estou a usar para escre­ver este artigo do blo­gue em texto sim­ples[]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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