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Os melhores programas para escrever um filme – a minha seleção
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Introdução

Antes de entrar no tema do artigo, devemos perceber porque razão a maioria dos guionistas usam algum tipo de software especial para a escrita de guiões.

Afinal de contas, não é verdade que o Quentin Tarantino escreve a primeira versão de todos os seus guiões apenas com lápis e um bloco de papel?

E o Word? Praticamente toda a gente tem uma cópia (provavelmente pirata) desse programa nos seus computadores. Até há razoáveis modelos próprios para escrever guiões com o Word.

O que é que justifica então o uso de um programa especializado para escrever um filme, se isso pode ser feito por outros métodos mais generalistas?

Há três respostas para esta questão:

  1. Porque enviar um bloco de papel por email costuma ser complicado;
  2. Porque a última versão tolerável do Word foi o “95” (como em “1995”, da última década do século passado) ;
  3. E, finalmente, porque um software especializado simplifica incrivelmente a vida dos guionistas.

Esta terceira razão é particularmente importante. Numa atividade tão complexa e difícil com escrever um filme, tudo o que possa tornar a nossa vida menos complicada é bem vindo.

Características comuns

Por razões que já expliquei noutros artigos os guiões são escritos segundo convenções próprias e um formato especial. Se não faz ideia do que estou a falar, sugiro uma leitura rápida deste artigo do Curso de guião.

Assim, todos os softwares de escrita de guião partilham obrigatoriamente duas características:

  1. Tornam mais simples a introdução dos elementos componentes do guião (cabeçalhos, descrições, diálogos, etc.);
  2. Automatizam a apresentação destes elementos do guião segundo as normas de formato aceites na indústria.

A forma como os diversos programas alcançam estes objetivos é mais ou menos semelhante entre todos (com uma excepção que destacarei mais adiante).

Introdução de elementos

Para tornar mais prática a introdução dos diferentes elementos usamos uma combinação entre a tecla de parágrafo e a de tabulação.

Introduzindo estas teclas a seguir a um parágrafo de um determinado estilo determinamos qual o estilo do parágrafo seguinte.

Por exemplo, no Final Draft, se estivermos num parágrafo com o estilo Cabeçalho e carregarmos na tecla parágrafo, o estilo do parágrafo seguinte será Ação. Isto tem lógica, pois a seguir a um Cabeçalho deve vir sempre uma descrição de Ação[1].

Se introduzirmos agora um novo parágrafo este manterá o estilo Ação. Isto também tem lógica, pois uma descrição pode estender-se por vários parágrafos. Mas se usarmos a tabulação mudamos o estilo do parágrafo para Personagem.

Um parágrafo a seguir a Personagem introduz uma linha de Diálogo. Uma tabulação a seguir a Diálogo introduz um Parênteses. E assim por diante.

A descrição deste método é mais complexa do que a sua utilização. Após um pouco de prática tudo isto se torna automático e intuitivo, e surfamos pelo nosso texto, saltando de estilo em estilo sem sequer pensar nisso.

Formatação

A segunda etapa deste processo é igualmente importante. Todos os programas de escrita de guião asseguram que, quando exportamos ou imprimimos o nosso documento, os estilos que usamos vão aparecer na página de acordo com as normas da indústria.

Por exemplo, segundo essas normas, os parágrafos de Cabeçalho e Ação devem ser alinhados à esquerda, a 2,5 cm da margem esquerda do papel, e estender-se até 2,5 cm da margem direita.

Já os parágrafos de Personagem, Parênteses e Diálogo também alinham à esquerda, mas as suas distâncias às margens são diferentes.

Cada programa garante que no momento da impressão todas estas medidas são respeitadas e o guião fica adequadamente formatado.

Para isso são usados modelos (templates) definidos conforme o tipo de guião que estamos a escrever. Continuando a usar o Final Draft como exemplo, vemos que esse programa oferece dezenas de modelos: além de duas ou três variações do guião de cinema básico, inclui modelos para as principais séries de televisão atuais.

Mais importante do que isso, os estilos dos modelos podem ser ajustados a necessidades especiais de produção.

Por exemplo, em Portugal usa-se muito um formato para televisão em que os cabeçalhos correm a página inteira, mas as descrições ficam na metade esquerda da página, alternando com os diálogos na metade direita.

Com um pouco de trabalho conseguimos alterar os estilos e criar um modelo específico para este formato (a que podemos chamar, se quisermos, Modelo TV Idiota).

Vantagens adicionais

Além destas duas características comuns a maior parte dos programas de escrita de guião oferecem duas outras vantagens:

  1. Métodos para ajudar na fase de planeamento da escrita;
  2. E métodos para ajudar na fase de reescrita.

Muitos autores de cinema e televisão só começam a escrever depois de ter uma sinopse e/ou uma escaleta mais ou menos detalhada da estória. É o método que eu uso, e já escrevi sobre isso num artigo recente.

Cada programa oferece métodos para tornar mais simples essa planificação. De forma geral esses métodos reproduzem digitalmente os métodos analógicos tradicionais: listas de cenas e cartões de notas.

Quanto à reescrita, não me canso de repetir que é uma das fases mais importantes do processo de escrita. Há quem diga até que os guiões não se escrevem; reescrevem-se.

Os programas de escrita de guião oferecem normalmente opções e métodos para auxiliar a reescrita, que vão desde a gestão de notas e comentários até à gravação e comparação de versões alternativas.

Finalmente, a minha seleção

O que não faltam são opções de escolha entre os softwares de escrita de guião, em todas as plataformas.

Vão desde os programas de desktop mais tradicionais até às web apps baseadas na nuvem, passando por uma miríade de aplicações para as plataformas móveis, telemóveis e tablets.

Muitos destes programas estão disponíveis nos diferentes sistemas operativos – Mac OS, Windows, Unix, iOS e Android. A dificuldade está apenas na escolha.

Já experimentei uma boa parte destas opções, comprei algumas delas, e li sobre quase todas as outras.

Depois de todos esses testes a minha seleção acaba por ser bastante tradicional, resumindo-se a três (mais uma) recomendações: Final Draft, CeltX, Scrivener e o jovem Highland.

Outros programas poderiam fazer parte desta lista, como o clássico MovieMagic Screenwriter, ou o recente Fade In. Mas esta seleção corresponde aos programas que uso com mais frequência.

Passo a seguir a explicar porquê, destacando as suas principais funcionalidades e aquelas que são, na minha perspetiva, as suas vantagens e defeitos.

Final Draft – o profissional

O Final Draft apresenta-se nos seus anúncios como “o padrão da indústria” e, de fato, acaba por sê-lo. Praticamente todos os guionistas profissionais têm uma cópia no seu computador e usam-no para grande (se não a maior) parte dos trabalhos.

Está atualmente na versão 8, mas já começa a revelar um pouco a sua idade avançada. É provável que em breve saia uma nova versão, até porque estão prometidas novidades para as plataformas móveis.

Seja como for, é um programa fácil de usar, robusto e estável, com um conjunto muito completo das funcionalidades necessárias nas três fases: planeamento, escrita e reescrita.

  • Formatação transparente à medida que escrevemos.
  • Dezenas de modelos para tv, teatro e cinema.
  • Um tipo de letra especial, o Courier Final Draft (que pode também ser usado com outros programas).
  • Uso das teclas de parágrafo e tabulação conforme descrito acima.
  • Introdução rápida de elementos repetitivos (nomes de personagens, locais, etc.).
  • Introdução automática de (More’s) e (Continued’s) (não é muito útil em Portugal).
  • Função de planejamento por escaleta ou cartões.
  • Divisão do ecrã em painéis, permitindo ver o guião e a escaleta ou cartões em paralelo.
  • Janela de navegação rápida entre cenas. *Notas de escrita.
  • Modo de revisão.
  • Um assistente de formatação, que detecta erros de formato antes da impressão.
  • Página de capa.
  • Funcionalidades de produção, como bloqueio de páginas e de cenas.
  • Criação automática de relatórios de guião (por exemplo, com o número e tamanho das cenas em cada local, ou para cada personagem).
  • Exportação perfeita para .pdf

Depois de aprender a usar o Final Draft (o que é relativamente fácil e rápido) é uma delícia trabalhar com ele. A escrita sai com fluidez e naturalidade, e o guionista pode concentrar-se apenas no conteúdo, esquecendo completamente as preocupações com a forma.

Em suma: na maior parte dos casos ninguém ficará mal por decidir escrever um guião com o Final Draft.

Isso não quer dizer que ele não tenha alguns inconvenientes.

O primeiro é, obviamente, o seu preço. Para dar $250 USD por uma cópia é preciso pensar duas vezes. Só quem esteja a trabalhar regularmente como guionista se pode dar a esse luxo.

Além disso há a já referida idade avançada da versão atual, que não permite usar algumas das vantagens dos sistemas operativos mais modernos, como a escrita em ecrã inteiro ou a gestão transparente de versões anteriores.

O Final Draft ganharia também muito com uma revisão das suas ferramentas de planeamento da escrita, que não são tão práticas e completas como poderiam ser. A sua utilização dos cartões não é muito intuitiva e a visão em escaleta tem grandes limitações.

Mas o pior defeito do Final Draft é a exportação para um formato compatível com o Word, o .rtf. É uma perfeita desgraça. O resultado é tão mau que eu tive de comprar um outro programa, o Fade In, só para esse efeito.

O Final Draft exporta perfeitamente para .pdf (mal seria se não o fizesse) e razoavelmente para “texto com formato”. Mas se o seu método de trabalho implica a entrega de uma versão final em Word, como acontece ainda (infelizmente) com muitas produtoras portugueses, é melhor escolher outro programa.

CeltX – o concorrente (quase) gratuito

O CeltX apareceu e ganhou uma grande base de adeptos apresentando-se como a alternativa gratuita ao Final Draft.

Hoje em dia continua a ter uma versão gratuita, mas vale a pena gastar um pouco mais (que em certas promoções pode ser tão pouco quanto $9 USD) para ter acesso ao que chamam de “PowerPack” que inclui algumas funcionalidades extra.

O CeltX mima a maior parte das funções e método de utilização do Final Draft, acrescentando-lhe algumas novidades e cortando em outras. Já escrevi um tutorial sobre o uso do CeltX, que continua a ser um dos artigos mais populares do blogue.

Na sua versão mais recente está a notar-se uma tentativa de centralizar o uso do CeltX na nuvem, com uma versão online e funcionalidades de arquivo distante. Não é o que mais me interessa, mas admito que em certos trabalhos em equipa essa funcionalidade possa ser útil.

Vejamos então as principais características do CeltX (usando o PowerPack como referência).

  • Disponível em 34 línguas e nas plataformas Windows, Mac, Linux.
  • Modelos para cinema, teatro, guiões audiovisuais (AV), rádio, banda desenhada e ficção em geral.
  • Formatação automática.
  • Gravação local e na nunvem.
  • Sicronização de guiões entre
  • Método de escrita rápida semelhante ao FD.
  • Bloqueio de cenas e de páginas para produção.
  • Adaptação automática de um modelo para outro (de banda desenhada para cinema, por exemplo).
  • Formulários para desenvolvimento de personagens, locais, etc.
  • Cartões de notas com diferentes modos de visualização.
  • Modo de painel de cortiça para ver os cartões de notas.
  • Escrita em ecrã inteiro.
  • Cronómetro e relatórios de progresso.
  • Criação de blocos de notas com imagens, vídeos e documentos, para referências de pesquisa.
  • Criação de* storyboards* e sua visualização animada.
  • Criação de esquemas de filmagem.
  • Clip art para colocar nos storyboards .
  • Relatórios de produção, como cronogramas, folhas de serviço e relatórios de filmagem.

O CeltX é, como se pode ver, um programa completo e versátil, que tem tudo o que é necessário para planear, escrever e apresentar um guião.

Será sempre uma boa opção de escrita, especialmente atendendo ao seu baixo preço.

Não posso, no entanto, deixar de referir alguns dos seus inconvenientes, começando pelo interface, que não é muito intuitivo. Certas funções deveriam ser acessíveis de uma forma mais prática e imediata.

Uma das coisas que contribui para esta complicação é o excesso de funções de utilidade duvidosa para um guionista (como os storyboards ou os relatórios de produção). O Final Draft também tem muitas opções que raramente usamos, mas estão normalmente associadas ao guião.

As opções do CeltX, contudo, tentam torná-lo uma espécie de “canivete suíço” da produção. Talvez isso o torne útil para algumas empresas e situações (embora nunca o tenha encontrado na prática), mas torna-o mais complicado para quem queira apenas escrever com ele.

O principal defeito do CeltX, contudo, tem também a ver com a exportação dos ficheiros. Se a saída em .pdf também funciona bem (fundamental), é praticamente impossível arrancar dele um ficheiro que possa ser usado funcionalmente noutro programa.

Essa é a principal razão porque não uso o CeltX com tanta frequência como os outros dois programas da minha seleção principal.

Se o seu método de trabalho termina num .pdf use o CeltX com confiança. Se passa por outros tipos de ficheiros, esqueça.

Scrivener – a alternativa todo-o-terreno

O Scrivener é o programa que comecei a usar mais recentemente para escrever um filme ou episódio de televisão. Mas é também, neste momento, o meu favorito.

É um verdadeiro cavalo de batalha, usado por escritores de todos os tipos, desde autores de ficção a universitários. A sua principal vantagem é a versatilidade, que permite compor e estruturar documentos longos e complexos.

Tem uma enorme gama de ferramentas que podem torná-lo um pouco intimidante à primeira vista. Exige também uma curva de aprendizagem um pouco mais longa do que os outros programas. Mas depois de ultrapassadas estas barreiras iniciais, é um prazer trabalhar com ele.

E não é porque seja um programa extraordinariamente rico de funções específicas para guionistas. As funcionalidades do modo de escrita de guião são limitadas ao mínimo: modo rápido de mudança de estilos, introdução automática de elementos, e formatação perfeita.

Não tem também quaisquer das funções “profissionais” de bloqueio de páginas e cenas.

Onde o Scrivener brilha é na planificação do guião. Não só é extraordinariamente versátil, como é simples, intuitiva e prática. De todos os programas que já usei foi o único que substituiu com vantagem o lápis e papel nas fases iniciais, mais soltas, do planeamento das estórias.

A sua funcionalidade torna-o extremamente útil para a planificação de projetos longos e complexos.

Por exemplo, o trabalho que estou neste momento a terminar inclui oito guiões completos de televisão mais versões alternativas de alguns desses guiões. No total são mais de trezentas e cinquenta cenas organizadas num único documento e acessíveis a qualquer momento.

Além disso, suporta praticamente tudo o que queiramos introduzir-lhe, sem que se notem diferenças de tempo de resposta. O documento de trabalho que refiro acima inclui ainda sinopses, tratamentos, notas com alterações, apanhados de sites, documentos e fotos de pesquisa, e ainda todos os rascunhos e cenas apagadas.

O Scrivener tem ainda uma funcionalidade exclusiva que adoro. É possível seleccionar em simultâneo cenas soltas, não sequenciais, e editá-las como um documento único.

Isso permite, por exemplo, ver ao mesmo tempo e editar todas as cenas de uma trama secundária, ou as que incluem um determinado personagem. Só essa possibilidade coloca o Scrivener numa categoria à parte.

Tão importante quanto isso, podemos exportar os guiões a qualquer momento, em conjunto ou individualmente, e até cena cena, para uma enormidade de formatos. Além do obrigatório .pdf, é possível exportar para .rtf, várias versões de .doc e .docx, .html, .xml, para o Final Draft (.fdx), e até para os vários formatos de ebook.

O Scrivener só tem versões para Mac e Windows, e ainda não tem equivalente nas plataformas móveis. É um programa pago mas não é muito caro – $45 USD – e vale cada centavo que custa.

Segue um resumo das suas principais características.

  • Modo de escrita de guião
  • Método de escrita rápida.
  • Autopreenchimento de elementos.
  • Formatação perfeita e flexível.
  • Exportação perfeita para grande variedade de formatos.
  • Gestão de projetos complexos e diversificados.
  • Flexibilidade completa na organização do trabalho.
  • Arquivo de elementos de pesquisa.
  • Gestão de versões.
  • Modo de escrita em ecrã inteiro.
  • Notas de documento e de cena.
  • Modo “scrivenings” que permite combinar temporariamente cenas não contíguas.
  • O melhor modo de escaleta de entre todos estes programas.
  • O melhor modo de cartões de notas, com um “quadro de cortiça” prático e flexível.
  • Possibilidade de tirar “instantâneos” do trabalho a qualquer momento, e regressar a eles mais tarde, se nos arrependermos.
  • Possibilidade de criar “coleções” de cenas segundo uma enorme variedade de critérios.
  • Modo de revisão.
  • Comentários e notas de rodapé.
  • Backups automáticos.
  • E mais tanta coisa, que é melho parar por aqui…

Tudo indica que o Scrivener se vai tornar o meu programa de escrita por defeito. A planificação das estórias é uma fase muito importante do meu processo de trabalho, e nenhum outro programa que eu tenha encontrado me dá as mesmas vantagens.

O Scrivener pode ser tão complexo ou tão simples quanto eu queira, e isso é o ideal. O modo de escrita de guião tem tudo o que eu preciso no dia a dia.

Mas se necessitar de funções mais avançadas como o bloqueio de páginas ou de cenas, a importação e exportação para o formato do Final Draft funciona perfeitamente.

Por uma questão de equilíbrio, devo apontar também as desvantagens do Scrivener.

A primeira, que já referi, é que pode ser um pouco intimidante a princípio. Mas tem um tutorial interativo muito completo (em inglês) que ajuda a ultrapassar a confusão inicial.

O preço, apesar de razoável, também pode afastar algumas pessoas. A minha recomendação é que baixem a versão gratuita limitada e experimentem. Estou certo de que verão que o investimento é justificado.

Por fim, a única coisa que me incomoda no dia a dia. Quando estamos a escrever no modo de guião e introduzimos uma nova cena ele automaticamente passa ao modo normal.

Supostamente isto é uma vantagem, pois permite combinar cenas ainda em tratamento com outras já definitivas (e fazer, por exemplo, os scriptments que caraterizam as primeiras versões dos guiões de James Cameron). Mas é uma vantagem que eu dispensava, pois vai contra o meu método de trabalho. É provável que haja uma forma de contornar isto, mas ainda não a descobri.

Em suma, se não conhece ainda o Scrivener, experimente-o. A sua vida de escritor/guionista nunca mais será a mesma.

Highland – a abordagem minimalista

Deixo para o fim, como bónus, o programa mais recente. Tão recente que ainda está em fase experimental (a chamada fase beta).

O Highland é um programa desenvolvido pelo guionista americano John August, um dos mais conhecidos e respeitados guionistas americanos no ativo, e alguns colaboradores.

Atualização: um comentário de um leitor leva-me a acrescentar um aviso importante – como todos os programas em fase alpha ou beta também o Highland deve ser tratado com luvas. Trabalhe com cópias dos seus ficheiros e faça sempre backups frequentes do trabalho. Use-o com cuidado e, por favor, não me responsabilize se perder algum ficheiro ;-)

O Highland parte de uma premissa muito clara: trabalha apenas em ficheiros de texto simples, .txt, usando uma sintaxe própria durante o processo de escrita. Mais tarde, quando é preciso imprimir ou exportar o ficheiro, essa sintaxe é automaticamente filtrada e convertida no formato correto.

A sintaxe usada, a que John August chamou Fountain, é muito intuitiva. É semelhante à que uso neste blogue para escrever as secções de cenas de guião.

Por exemplo, num documento .fountain qualquer linha isolada escrita apenas em letras maiúsculas é interpretada como um Cabeçalho, e formatada como tal no momento da impressão.

Assim,

EXT. CASA – DIA

ou

FLASHBACK – NO BARCO

ou até

NO CIMO DO MONTE

são frases que serão impressas como Cabeçalhos, e parecerão assim na página.

EXT. CASA – DIA

NO CIMO DO MONTE

 

FRANCISCO
O que é que me querias dizer?

será interpretado como um Personagem e o respetivo Diálogo, pois a frase em miúsculas não está isolada; tem o diálogo na linha imediatamente a seguir.

FRANCISCO

O que é que me querias dizer?

Parece mais complicado do que é. Na prática o processo acaba por ser bastante fluido e transparente, embora quem está habituado aos métodos de escrita rápida do Final Draft, CltX ou Scrivener possa estranhar.

A vantagem desta abordagem é que os ficheiros, gravados como texto simples, podem ser editados por qualquer programa, em qualquer plataforma. Podemos assim começar um guião no telemóvel, escrevê-lo no portátil, apresentá-lo e editá-lo num tablet e arquivá-lo na nuvem, sempre com o mesmo documento.

Os ficheiros são também muito leves e à “`prova de tempo”. Por muitos programas que nasçam e morram nas próximas décadas, é provável que seja sempre possível abrir, ler e editar um documento de texto simples. O mesmo não pode ser garantido, por exemplo, em relação ao Final Draft ou CeltX, ou mesmo o Scrivener.

Cada pessoa fará a sua avaliação da validade deste argumento. Não é suficientemente forte para eu adotar o Highland no dia a dia, mas talvez me convença a guardar uma versão de arquivo dos guiões finalizados no formato .fountain, como precaução para o futuro.

O Highland tem ainda uma outra ferramenta muito interessante: “derrete” .pdfs, ou seja, converte documentos .pdf para o formato .fountain ou Final Draft.

Em alguns trabalhos acontece recebermos guiões fechados, gravados em .pdf. O Highland permite convertê-los para um formato novamente editável. Só isto pode justificar baixar o programa (gratuito enquanto estiver na fase beta) e acrescentá-lo à nossa lista de ferramentas.

Os inconvenientes do Highland, por outro lado, são óbvios. Não inclui quaisquer ferramentas para a planificação dos guiões, ou sua reescrita. O uso duma sintaxe própria torna-o diferente dos concorrentes, obrigando a mais uma aprendizagem.

Mas estes “defeitos” são exatamente o que pode tornar atrativo o Highland aos olhos de um guionista de pendor mais minimalista.

Veredito final

Se teve paciência de ler até aqui, parabéns, Se saltou o miolo e veio direto ao final, devia ter vergonha ;-)

Cada um destes programas tem vantagens e desvantagens.

O Final Draft, completo, robusto mas caro, continuará provavelmente a ser o mais usado pelos guionistas profissionais em todo o mundo, principalmente se receber em breve uma atualização profunda e uma versão para tablet.

O CeltX, por outro lado, deverá manter-se como o favorito dos estudantes de cinema e guião, e dos projetos de baixo orçamento. Os seus defeitos são rapidamente esquecidos quando comparados com o seu preço incrível.

O Scrivener, que neste momento é o meu programa favorito, está condenado a ser descoberto pouco a pouco por muitos escritores e autores de estilos diversos, incluindo guionistas. Se um dia vier a ter um modo de escrita um pouco mais robusto, poderá ser o melhor candidato para destronar o Final Draft.

O Highland será sempre uma alternativa de nicho, mas estou certo de que os seus adeptos, como frequentemente acontece nos produtos de nicho, serão os mais fiéis de todos.

Quer uma recomendação final? Invista $45 USD e algumas horas de estudo no Scrivener. Não se vai arrepender.

Se usa frequentemente um ou mais destes programas, por favor deixe a sua opinião e sugestões nos comentários.

Notas de Rodapé

  1. Nota: este nome aplica-se também a descrições de personagens, locais, etc.[?]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

22 comentários… add one
  • Richardson Luz 20/07/2012, 5:23

    Prezado João Nunes, não sei se conheces um relativamente novo programa de escrita de guiões que foi feito por guinistas brasileiros; trata-se do Story Touch (http://www.storytouch.com/) embora o nome seja em inglês o programa é brasileiro. Tenho em meu computador, só que ainda não o utilizo muito por estar acostumado com o Cetx, mas eu gostaria que você o experimentasse um pouco e escrevesse no seu blogue o que achou dele. Talvez isso me incentive a usá-lo com maior frequência. Ele também tem um versão gratuita.

    • João Nunes 21/07/2012, 15:25

      Já baixei esse software há uns tempos (e noticiei-o aqui no blogue), mas achei o interface excessivamente complexo e não tive paciência para o aprofundar. Provavelmente deveria fazê-lo, até porque as versões pagas, mais caras, prometem uma série de funções que, se bem implementadas, poderiam ter alguma utilidade. Talvez o seu desafio me leve a explorá-lo um pouco mais…

  • berni ferreira 20/07/2012, 12:14

    Parabéns, João! O artigo está muito completo.

    A minha experiência com estes programas resume-se a dois deles: o final draft (uma versão trial, já bastante antiga) e o celtX.

    Relativamente à versão antiga do final draft, abandonei-a rapidamente devido a problemas relacionados sobretudo com o fato de escrever em português. Lembro-me vagamente de problemas com os acentos, por exemplo, que os anglo-saxónicos não usam.

    Quanto ao celtX, creio que não poderia estar mais de acordo com a avaliação do João. Por enquanto, vai dando conta do recado. Mas continuo a usar o famigerado Word para a fase de pesquisa, sistematização de ideias, outlines, etc.
    Muito resumidamente, ele responde adequadamente às minhas necessidades actuais. Contudo, tenho algum receio do que possa acontecer se algum dia tiver um guião de longa-metragem em produção… A tal “desgraça” na conversão para outros ficheiros que não o pdf é o principal motivo deste receio.

    Portanto, creio que, se tiver algum dia um guião aceite por uma produtora, vou comprar o scrivener o mais rapidamente possível. Até porque a descrição que o João faz neste artigo me deixa com água na boca.

    abraço

    Berni

    • João Nunes 21/07/2012, 15:23

      Mesmo que não tenhas um guião comprado ainda, baixa a demo do Scrivener. Tudo o que fazes com o Word podes fazer ainda melhor com ele. Depois é poupar nos cafés e tabaco durante uns tempos ;-)

  • Cícero Soares 21/07/2012, 12:11

    Putz, João, fui brincar com esse Highland e… e não é que acabei sendo decepado por ele?! rs.

    Estava testando com uma revisão de roteiro em .fdx (ufa!, santo Dropbox), e fiquei impressionado, gostei bastante a princípio, do aspecto “clean”, que, após pegar o jeito da formatação no próprio texto, acho que é ótimo pra trabalhar aos borbotões. Mas foi só salvar utilizando o menu superior (e não os botões laterais abaixo) e o Final Draft deixou de reconhecer o arquivo. E nem o tal Highland(er), quando fechei e abri o programa e o arquivo de novo.

    Deve ser bug (versão é ainda alpha, né?), bug cabeludo. Mas nem vou tirar a prova dos nove, já tratei de dar o troco, decepando-lhe sem piedade…rs. Vou esperar é um beta.

    • João Nunes 21/07/2012, 15:21

      Versões alpha e beta devem sempre ser tratadas com luvas. Vou acrescentar esse aviso no texto. Não me lembrei de o incluir porque a minha experiência com o programa foi notavelmente isenta de incidentes.
      Ainda bem que o Dropbox o safou. Também já me salvou não poucas vezes.

  • Sérgio Lacerda 04/12/2012, 22:17

    Olá pessoal, eis uma ótima oportunidade para testar efetivamente o Story Touch em sua versão TOP: http://storytouch.com/blog/Agenda/projeto-3

    • João Nunes 05/12/2012, 7:58

      Vou escrever um miniartigo para divulgar esta informação. Obrigado.

  • Odilio 21/07/2014, 19:19

    Boa tarde, dei uma olhada no final draft e acho que meu site para escritores também pode ajudar para trabalhar com a escrita de filmes, temos a separação de personagens, capitulos, notas, locais etc, e o editor de texto também é bastante completo, se tiver interesse em conhecer meu email é odilionoronha@gmail.com e o site é http://scriptor.net.br pode usar o facebook para logar sem preencher cadastro!
    obrigado!

  • Rosa 18/11/2014, 3:19

    Sei que você é especialista em cinema, mas teria uma dica aproximada para indicar um bom programa para roteiro deTV?

  • Paulo Monteiro 25/01/2015, 21:27

    Experimentei o Celtx mas na hora de fazer download para PDF todas as frases com assento ou til transformam-se em códigos estranhos e o guião fica inutilizável. : ( Eu não fiz download do programa porque o meu antivírus não permite, mesmo desligado, bloqueia o programa, não sei o que se passa. Desativei firewall, tudo, mas não parece adiantar. Então uso o programa diretamente no site. Não sei se com download isso desaparece. De qualquer das formas já estou á procura de outro programa gratuito. O que acha do Adobe Story Free? É gratuito, certo? Parece-me razoável mas ainda não tive tempo de explorar. Tem mais recomendações? Obrigado.

    • Hugo Morgado 09/06/2015, 21:37

      Paulo Monteiro, que browser estavas a utilizar para exportar? Internet Explorer?
      Usa o Chrome. Vais ver que fica perfeito.

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