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Os melhores programas para escrever um filme - a minha seleção
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Introdução

Antes de entrar no tema do artigo, deve­mos per­ce­ber por­que razão a mai­o­ria dos gui­o­nis­tas usam algum tipo de soft­ware espe­cial para a escrita de guiões.

Afi­nal de con­tas, não é ver­dade que o Quen­tin Taran­tino escreve a pri­meira ver­são de todos os seus guiões ape­nas com lápis e um bloco de papel?

E o Word? Pra­ti­ca­mente toda a gente tem uma cópia (pro­va­vel­mente pirata) desse pro­grama nos seus com­pu­ta­do­res. Até há razoá­veis mode­los pró­prios para escre­ver guiões com o Word.

O que é que jus­ti­fica então o uso de um pro­grama espe­ci­a­li­zado para escre­ver um filme, se isso pode ser feito por outros méto­dos mais generalistas?

Há três res­pos­tas para esta questão:

  1. Por­que enviar um bloco de papel por email cos­tuma ser complicado;
  2. Por­que a última ver­são tole­rá­vel do Word foi o “95” (como em “1995”, da última década do século passado) ;
  3. E, final­mente, por­que um soft­ware espe­ci­a­li­zado sim­pli­fica incri­vel­mente a vida dos guionistas.

Esta ter­ceira razão é par­ti­cu­lar­mente impor­tante. Numa ati­vi­dade tão com­plexa e difí­cil com escre­ver um filme, tudo o que possa tor­nar a nossa vida menos com­pli­cada é bem vindo.

Características comuns

Por razões que já expli­quei nou­tros arti­gos os guiões são escri­tos segundo con­ven­ções pró­prias e um for­mato espe­cial. Se não faz ideia do que estou a falar, sugiro uma lei­tura rápida deste artigo do Curso de guião.

Assim, todos os softwa­res de escrita de guião par­ti­lham obri­ga­to­ri­a­mente duas características:

  1. Tor­nam mais sim­ples a intro­du­ção dos ele­men­tos com­po­nen­tes do guião (cabe­ça­lhos, des­cri­ções, diá­lo­gos, etc.);
  2. Auto­ma­ti­zam a apre­sen­ta­ção des­tes ele­men­tos do guião segundo as nor­mas de for­mato acei­tes na indústria.

A forma como os diver­sos pro­gra­mas alcan­çam estes obje­ti­vos é mais ou menos seme­lhante entre todos (com uma excep­ção que des­ta­ca­rei mais adiante).

Introdução de elementos

Para tor­nar mais prá­tica a intro­du­ção dos dife­ren­tes ele­men­tos usa­mos uma com­bi­na­ção entre a tecla de pará­grafo e a de tabulação.

Intro­du­zindo estas teclas a seguir a um pará­grafo de um deter­mi­nado estilo deter­mi­na­mos qual o estilo do pará­grafo seguinte.

Por exem­plo, no Final Draft, se esti­ver­mos num pará­grafo com o estilo Cabe­ça­lho e car­re­gar­mos na tecla pará­grafo, o estilo do pará­grafo seguinte será Ação. Isto tem lógica, pois a seguir a um Cabe­ça­lho deve vir sem­pre uma des­cri­ção de Ação[1].

Se intro­du­zir­mos agora um novo pará­grafo este man­terá o estilo Ação. Isto tam­bém tem lógica, pois uma des­cri­ção pode estender-​​se por vários pará­gra­fos. Mas se usar­mos a tabu­la­ção muda­mos o estilo do pará­grafo para Personagem.

Um pará­grafo a seguir a Per­so­na­gem intro­duz uma linha de Diá­logo. Uma tabu­la­ção a seguir a Diá­logo intro­duz um Parên­te­ses. E assim por diante.

A des­cri­ção deste método é mais com­plexa do que a sua uti­li­za­ção. Após um pouco de prá­tica tudo isto se torna auto­má­tico e intui­tivo, e sur­fa­mos pelo nosso texto, sal­tando de estilo em estilo sem sequer pen­sar nisso.

Formatação

A segunda etapa deste pro­cesso é igual­mente impor­tante. Todos os pro­gra­mas de escrita de guião asse­gu­ram que, quando expor­ta­mos ou impri­mi­mos o nosso docu­mento, os esti­los que usa­mos vão apa­re­cer na página de acordo com as nor­mas da indústria.

Por exem­plo, segundo essas nor­mas, os pará­gra­fos de Cabe­ça­lho e Ação devem ser ali­nha­dos à esquerda, a 2,5 cm da mar­gem esquerda do papel, e estender-​​se até 2,5 cm da mar­gem direita.

Já os pará­gra­fos de Per­so­na­gem, Parên­te­ses e Diá­logo tam­bém ali­nham à esquerda, mas as suas dis­tân­cias às mar­gens são diferentes.

Cada pro­grama garante que no momento da impres­são todas estas medi­das são res­pei­ta­das e o guião fica ade­qua­da­mente formatado.

Para isso são usa­dos mode­los (tem­pla­tes) defi­ni­dos con­forme o tipo de guião que esta­mos a escre­ver. Con­ti­nu­ando a usar o Final Draft como exem­plo, vemos que esse pro­grama ofe­rece deze­nas de mode­los: além de duas ou três vari­a­ções do guião de cinema básico, inclui mode­los para as prin­ci­pais séries de tele­vi­são atuais.

Mais impor­tante do que isso, os esti­los dos mode­los podem ser ajus­ta­dos a neces­si­da­des espe­ci­ais de produção.

Por exem­plo, em Por­tu­gal usa-​​se muito um for­mato para tele­vi­são em que os cabe­ça­lhos cor­rem a página inteira, mas as des­cri­ções ficam na metade esquerda da página, alter­nando com os diá­lo­gos na metade direita.

Com um pouco de tra­ba­lho con­se­gui­mos alte­rar os esti­los e criar um modelo espe­cí­fico para este for­mato (a que pode­mos cha­mar, se qui­ser­mos, Modelo TV Idi­ota).

Vantagens adicionais

Além des­tas duas carac­te­rís­ti­cas comuns a maior parte dos pro­gra­mas de escrita de guião ofe­re­cem duas outras vantagens:

  1. Méto­dos para aju­dar na fase de pla­ne­a­mento da escrita;
  2. E méto­dos para aju­dar na fase de reescrita.

Mui­tos auto­res de cinema e tele­vi­são só come­çam a escre­ver depois de ter uma sinopse e/​ou uma esca­leta mais ou menos deta­lhada da estó­ria. É o método que eu uso, e já escrevi sobre isso num artigo recente.

Cada pro­grama ofe­rece méto­dos para tor­nar mais sim­ples essa pla­ni­fi­ca­ção. De forma geral esses méto­dos repro­du­zem digi­tal­mente os méto­dos ana­ló­gi­cos tra­di­ci­o­nais: lis­tas de cenas e car­tões de notas.

Quanto à rees­crita, não me canso de repe­tir que é uma das fases mais impor­tan­tes do pro­cesso de escrita. Há quem diga até que os guiões não se escre­vem; reescrevem-​​se.

Os pro­gra­mas de escrita de guião ofe­re­cem nor­mal­mente opções e méto­dos para auxi­liar a rees­crita, que vão desde a ges­tão de notas e comen­tá­rios até à gra­va­ção e com­pa­ra­ção de ver­sões alternativas.

Finalmente, a minha seleção

O que não fal­tam são opções de esco­lha entre os softwa­res de escrita de guião, em todas as plataformas.

Vão desde os pro­gra­mas de desk­top mais tra­di­ci­o­nais até às web apps base­a­das na nuvem, pas­sando por uma miríade de apli­ca­ções para as pla­ta­for­mas móveis, tele­mó­veis e tablets.

Mui­tos des­tes pro­gra­mas estão dis­po­ní­veis nos dife­ren­tes sis­te­mas ope­ra­ti­vos – Mac OS, Win­dows, Unix, iOS e Android. A difi­cul­dade está ape­nas na escolha.

Já expe­ri­men­tei uma boa parte des­tas opções, com­prei algu­mas delas, e li sobre quase todas as outras.

Depois de todos esses tes­tes a minha sele­ção acaba por ser bas­tante tra­di­ci­o­nal, resumindo-​​se a três (mais uma) reco­men­da­ções: Final Draft, CeltX, Scri­ve­ner e o jovem Highland.

Outros pro­gra­mas pode­riam fazer parte desta lista, como o clás­sico Movi­e­Ma­gic Scre­en­wri­ter, ou o recente Fade In. Mas esta sele­ção cor­res­ponde aos pro­gra­mas que uso com mais frequência.

Passo a seguir a expli­car porquê, des­ta­cando as suas prin­ci­pais fun­ci­o­na­li­da­des e aque­las que são, na minha pers­pe­tiva, as suas van­ta­gens e defeitos.

Final Draft – o profissional

O Final Draft apresenta-​​se nos seus anún­cios como “o padrão da indús­tria” e, de fato, acaba por sê-​​lo. Pra­ti­ca­mente todos os gui­o­nis­tas pro­fis­si­o­nais têm uma cópia no seu com­pu­ta­dor e usam-​​no para grande (se não a maior) parte dos trabalhos.

Está atu­al­mente na ver­são 8, mas já começa a reve­lar um pouco a sua idade avan­çada. É pro­vá­vel que em breve saia uma nova ver­são, até por­que estão pro­me­ti­das novi­da­des para as pla­ta­for­mas móveis.

Seja como for, é um pro­grama fácil de usar, robusto e está­vel, com um con­junto muito com­pleto das fun­ci­o­na­li­da­des neces­sá­rias nas três fases: pla­ne­a­mento, escrita e reescrita.

  • For­ma­ta­ção trans­pa­rente à medida que escrevemos.
  • Deze­nas de mode­los para tv, tea­tro e cinema.
  • Um tipo de letra espe­cial, o Cou­rier Final Draft (que pode tam­bém ser usado com outros programas).
  • Uso das teclas de pará­grafo e tabu­la­ção con­forme des­crito acima.
  • Intro­du­ção rápida de ele­men­tos repe­ti­ti­vos (nomes de per­so­na­gens, locais, etc.).
  • Intro­du­ção auto­má­tica de (More’s) e (Continued’s) (não é muito útil em Portugal).
  • Fun­ção de pla­ne­ja­mento por esca­leta ou cartões.
  • Divi­são do ecrã em pai­néis, per­mi­tindo ver o guião e a esca­leta ou car­tões em paralelo.
  • Janela de nave­ga­ção rápida entre cenas. *Notas de escrita.
  • Modo de revisão.
  • Um assis­tente de for­ma­ta­ção, que detecta erros de for­mato antes da impressão.
  • Página de capa.
  • Fun­ci­o­na­li­da­des de pro­du­ção, como blo­queio de pági­nas e de cenas.
  • Cri­a­ção auto­má­tica de rela­tó­rios de guião (por exem­plo, com o número e tama­nho das cenas em cada local, ou para cada personagem).
  • Expor­ta­ção per­feita para .pdf

Depois de apren­der a usar o Final Draft (o que é rela­ti­va­mente fácil e rápido) é uma delí­cia tra­ba­lhar com ele. A escrita sai com flui­dez e natu­ra­li­dade, e o gui­o­nista pode concentrar-​​se ape­nas no con­teúdo, esque­cendo com­ple­ta­mente as pre­o­cu­pa­ções com a forma.

Em suma: na maior parte dos casos nin­guém ficará mal por deci­dir escre­ver um guião com o Final Draft.

Isso não quer dizer que ele não tenha alguns inconvenientes.

O pri­meiro é, obvi­a­mente, o seu preço. Para dar $250 USD por uma cópia é pre­ciso pen­sar duas vezes. Só quem esteja a tra­ba­lhar regu­lar­mente como gui­o­nista se pode dar a esse luxo.

Além disso há a já refe­rida idade avan­çada da ver­são atual, que não per­mite usar algu­mas das van­ta­gens dos sis­te­mas ope­ra­ti­vos mais moder­nos, como a escrita em ecrã inteiro ou a ges­tão trans­pa­rente de ver­sões anteriores.

O Final Draft ganha­ria tam­bém muito com uma revi­são das suas fer­ra­men­tas de pla­ne­a­mento da escrita, que não são tão prá­ti­cas e com­ple­tas como pode­riam ser. A sua uti­li­za­ção dos car­tões não é muito intui­tiva e a visão em esca­leta tem gran­des limitações.

Mas o pior defeito do Final Draft é a expor­ta­ção para um for­mato com­pa­tí­vel com o Word, o .rtf. É uma per­feita des­graça. O resul­tado é tão mau que eu tive de com­prar um outro pro­grama, o Fade In, só para esse efeito.

O Final Draft exporta per­fei­ta­mente para .pdf (mal seria se não o fizesse) e razo­a­vel­mente para “texto com for­mato”. Mas se o seu método de tra­ba­lho implica a entrega de uma ver­são final em Word, como acon­tece ainda (infe­liz­mente) com mui­tas pro­du­to­ras por­tu­gue­ses, é melhor esco­lher outro programa.

CeltX – o concorrente (quase) gratuito

O CeltX apa­re­ceu e ganhou uma grande base de adep­tos apresentando-​​se como a alter­na­tiva gra­tuita ao Final Draft.

Hoje em dia con­ti­nua a ter uma ver­são gra­tuita, mas vale a pena gas­tar um pouco mais (que em cer­tas pro­mo­ções pode ser tão pouco quanto $9 USD) para ter acesso ao que cha­mam de “Power­Pack” que inclui algu­mas fun­ci­o­na­li­da­des extra.

O CeltX mima a maior parte das fun­ções e método de uti­li­za­ção do Final Draft, acrescentando-​​lhe algu­mas novi­da­des e cor­tando em outras. Já escrevi um tuto­rial sobre o uso do CeltX, que con­ti­nua a ser um dos arti­gos mais popu­la­res do blogue.

Na sua ver­são mais recente está a notar-​​se uma ten­ta­tiva de cen­tra­li­zar o uso do CeltX na nuvem, com uma ver­são online e fun­ci­o­na­li­da­des de arquivo dis­tante. Não é o que mais me inte­ressa, mas admito que em cer­tos tra­ba­lhos em equipa essa fun­ci­o­na­li­dade possa ser útil.

Veja­mos então as prin­ci­pais carac­te­rís­ti­cas do CeltX (usando o Power­Pack como referência).

  • Dis­po­ní­vel em 34 lín­guas e nas pla­ta­for­mas Win­dows, Mac, Linux.
  • Mode­los para cinema, tea­tro, guiões audi­o­vi­su­ais (AV), rádio, banda dese­nhada e fic­ção em geral.
  • For­ma­ta­ção automática.
  • Gra­va­ção local e na nunvem.
  • Sicro­ni­za­ção de guiões entre
  • Método de escrita rápida seme­lhante ao FD.
  • Blo­queio de cenas e de pági­nas para produção.
  • Adap­ta­ção auto­má­tica de um modelo para outro (de banda dese­nhada para cinema, por exemplo).
  • For­mu­lá­rios para desen­vol­vi­mento de per­so­na­gens, locais, etc.
  • Car­tões de notas com dife­ren­tes modos de visualização.
  • Modo de pai­nel de cor­tiça para ver os car­tões de notas.
  • Escrita em ecrã inteiro.
  • Cro­nó­me­tro e rela­tó­rios de progresso.
  • Cri­a­ção de blo­cos de notas com ima­gens, vídeos e docu­men­tos, para refe­rên­cias de pesquisa.
  • Cri­a­ção de* story­bo­ards* e sua visu­a­li­za­ção animada.
  • Cri­a­ção de esque­mas de filmagem.
  • Clip art para colo­car nos story­bo­ards .
  • Rela­tó­rios de pro­du­ção, como cro­no­gra­mas, folhas de ser­viço e rela­tó­rios de filmagem.

O CeltX é, como se pode ver, um pro­grama com­pleto e ver­sá­til, que tem tudo o que é neces­sá­rio para pla­near, escre­ver e apre­sen­tar um guião.

Será sem­pre uma boa opção de escrita, espe­ci­al­mente aten­dendo ao seu baixo preço.

Não posso, no entanto, dei­xar de refe­rir alguns dos seus incon­ve­ni­en­tes, come­çando pelo inter­face, que não é muito intui­tivo. Cer­tas fun­ções deve­riam ser aces­sí­veis de uma forma mais prá­tica e imediata.

Uma das coi­sas que con­tri­bui para esta com­pli­ca­ção é o excesso de fun­ções de uti­li­dade duvi­dosa para um gui­o­nista (como os story­bo­ards ou os rela­tó­rios de pro­du­ção). O Final Draft tam­bém tem mui­tas opções que rara­mente usa­mos, mas estão nor­mal­mente asso­ci­a­das ao guião.

As opções do CeltX, con­tudo, ten­tam torná-​​lo uma espé­cie de “cani­vete suíço” da pro­du­ção. Tal­vez isso o torne útil para algu­mas empre­sas e situ­a­ções (embora nunca o tenha encon­trado na prá­tica), mas torna-​​o mais com­pli­cado para quem queira ape­nas escre­ver com ele.

O prin­ci­pal defeito do CeltX, con­tudo, tem tam­bém a ver com a expor­ta­ção dos fichei­ros. Se a saída em .pdf tam­bém fun­ci­ona bem (fun­da­men­tal), é pra­ti­ca­mente impos­sí­vel arran­car dele um ficheiro que possa ser usado fun­ci­o­nal­mente nou­tro programa.

Essa é a prin­ci­pal razão por­que não uso o CeltX com tanta frequên­cia como os outros dois pro­gra­mas da minha sele­ção principal.

Se o seu método de tra­ba­lho ter­mina num .pdf use o CeltX com con­fi­ança. Se passa por outros tipos de fichei­ros, esqueça.

Scrivener – a alternativa todo-o-terreno

O Scri­ve­ner é o pro­grama que come­cei a usar mais recen­te­mente para escre­ver um filme ou epi­só­dio de tele­vi­são. Mas é tam­bém, neste momento, o meu favorito.

É um ver­da­deiro cavalo de bata­lha, usado por escri­to­res de todos os tipos, desde auto­res de fic­ção a uni­ver­si­tá­rios. A sua prin­ci­pal van­ta­gem é a ver­sa­ti­li­dade, que per­mite com­por e estru­tu­rar docu­men­tos lon­gos e complexos.

Tem uma enorme gama de fer­ra­men­tas que podem torná-​​lo um pouco inti­mi­dante à pri­meira vista. Exige tam­bém uma curva de apren­di­za­gem um pouco mais longa do que os outros pro­gra­mas. Mas depois de ultra­pas­sa­das estas bar­rei­ras ini­ci­ais, é um pra­zer tra­ba­lhar com ele.

E não é por­que seja um pro­grama extra­or­di­na­ri­a­mente rico de fun­ções espe­cí­fi­cas para gui­o­nis­tas. As fun­ci­o­na­li­da­des do modo de escrita de guião são limi­ta­das ao mínimo: modo rápido de mudança de esti­los, intro­du­ção auto­má­tica de ele­men­tos, e for­ma­ta­ção perfeita.

Não tem tam­bém quais­quer das fun­ções “pro­fis­si­o­nais” de blo­queio de pági­nas e cenas.

Onde o Scri­ve­ner bri­lha é na pla­ni­fi­ca­ção do guião. Não só é extra­or­di­na­ri­a­mente ver­sá­til, como é sim­ples, intui­tiva e prá­tica. De todos os pro­gra­mas que já usei foi o único que subs­ti­tuiu com van­ta­gem o lápis e papel nas fases ini­ci­ais, mais sol­tas, do pla­ne­a­mento das estórias.

A sua fun­ci­o­na­li­dade torna-​​o extre­ma­mente útil para a pla­ni­fi­ca­ção de pro­je­tos lon­gos e complexos.

Por exem­plo, o tra­ba­lho que estou neste momento a ter­mi­nar inclui oito guiões com­ple­tos de tele­vi­são mais ver­sões alter­na­ti­vas de alguns des­ses guiões. No total são mais de tre­zen­tas e cin­quenta cenas orga­ni­za­das num único docu­mento e aces­sí­veis a qual­quer momento.

Além disso, suporta pra­ti­ca­mente tudo o que quei­ra­mos introduzir-​​lhe, sem que se notem dife­ren­ças de tempo de res­posta. O docu­mento de tra­ba­lho que refiro acima inclui ainda sinop­ses, tra­ta­men­tos, notas com alte­ra­ções, apa­nha­dos de sites, docu­men­tos e fotos de pes­quisa, e ainda todos os ras­cu­nhos e cenas apagadas.

O Scri­ve­ner tem ainda uma fun­ci­o­na­li­dade exclu­siva que adoro. É pos­sí­vel selec­ci­o­nar em simul­tâ­neo cenas sol­tas, não sequen­ci­ais, e editá-​​las como um docu­mento único.

Isso per­mite, por exem­plo, ver ao mesmo tempo e edi­tar todas as cenas de uma trama secun­dá­ria, ou as que incluem um deter­mi­nado per­so­na­gem. Só essa pos­si­bi­li­dade coloca o Scri­ve­ner numa cate­go­ria à parte.

Tão impor­tante quanto isso, pode­mos expor­tar os guiões a qual­quer momento, em con­junto ou indi­vi­du­al­mente, e até cena cena, para uma enor­mi­dade de for­ma­tos. Além do obri­ga­tó­rio .pdf, é pos­sí­vel expor­tar para .rtf, várias ver­sões de .doc e .docx, .html, .xml, para o Final Draft (.fdx), e até para os vários for­ma­tos de ebook.

O Scri­ve­ner só tem ver­sões para Mac e Win­dows, e ainda não tem equi­va­lente nas pla­ta­for­mas móveis. É um pro­grama pago mas não é muito caro – $45 USD – e vale cada cen­tavo que custa.

Segue um resumo das suas prin­ci­pais características.

  • Modo de escrita de guião
  • Método de escrita rápida.
  • Auto­pre­en­chi­mento de elementos.
  • For­ma­ta­ção per­feita e flexível.
  • Expor­ta­ção per­feita para grande vari­e­dade de formatos.
  • Ges­tão de pro­je­tos com­ple­xos e diversificados.
  • Fle­xi­bi­li­dade com­pleta na orga­ni­za­ção do trabalho.
  • Arquivo de ele­men­tos de pesquisa.
  • Ges­tão de versões.
  • Modo de escrita em ecrã inteiro.
  • Notas de docu­mento e de cena.
  • Modo “scri­ve­nings” que per­mite com­bi­nar tem­po­ra­ri­a­mente cenas não contíguas.
  • O melhor modo de esca­leta de entre todos estes programas.
  • O melhor modo de car­tões de notas, com um “qua­dro de cor­tiça” prá­tico e flexível.
  • Pos­si­bi­li­dade de tirar “ins­tan­tâ­neos” do tra­ba­lho a qual­quer momento, e regres­sar a eles mais tarde, se nos arrependermos.
  • Pos­si­bi­li­dade de criar “cole­ções” de cenas segundo uma enorme vari­e­dade de critérios.
  • Modo de revisão.
  • Comen­tá­rios e notas de rodapé.
  • Bac­kups automáticos.
  • E mais tanta coisa, que é melho parar por aqui…

Tudo indica que o Scri­ve­ner se vai tor­nar o meu pro­grama de escrita por defeito. A pla­ni­fi­ca­ção das estó­rias é uma fase muito impor­tante do meu pro­cesso de tra­ba­lho, e nenhum outro pro­grama que eu tenha encon­trado me dá as mes­mas vantagens.

O Scri­ve­ner pode ser tão com­plexo ou tão sim­ples quanto eu queira, e isso é o ideal. O modo de escrita de guião tem tudo o que eu pre­ciso no dia a dia.

Mas se neces­si­tar de fun­ções mais avan­ça­das como o blo­queio de pági­nas ou de cenas, a impor­ta­ção e expor­ta­ção para o for­mato do Final Draft fun­ci­ona perfeitamente.

Por uma ques­tão de equi­lí­brio, devo apon­tar tam­bém as des­van­ta­gens do Scrivener.

A pri­meira, que já referi, é que pode ser um pouco inti­mi­dante a prin­cí­pio. Mas tem um tuto­rial inte­ra­tivo muito com­pleto (em inglês) que ajuda a ultra­pas­sar a con­fu­são inicial.

O preço, ape­sar de razoá­vel, tam­bém pode afas­tar algu­mas pes­soas. A minha reco­men­da­ção é que bai­xem a ver­são gra­tuita limi­tada e expe­ri­men­tem. Estou certo de que verão que o inves­ti­mento é justificado.

Por fim, a única coisa que me inco­moda no dia a dia. Quando esta­mos a escre­ver no modo de guião e intro­du­zi­mos uma nova cena ele auto­ma­ti­ca­mente passa ao modo normal.

Supos­ta­mente isto é uma van­ta­gem, pois per­mite com­bi­nar cenas ainda em tra­ta­mento com outras já defi­ni­ti­vas (e fazer, por exem­plo, os script­ments que cara­te­ri­zam as pri­mei­ras ver­sões dos guiões de James Came­ron). Mas é uma van­ta­gem que eu dis­pen­sava, pois vai con­tra o meu método de tra­ba­lho. É pro­vá­vel que haja uma forma de con­tor­nar isto, mas ainda não a descobri.

Em suma, se não conhece ainda o Scri­ve­ner, experimente-​​o. A sua vida de escritor/​guionista nunca mais será a mesma.

Highland – a abordagem minimalista

Deixo para o fim, como bónus, o pro­grama mais recente. Tão recente que ainda está em fase expe­ri­men­tal (a cha­mada fase beta).

O High­land é um pro­grama desen­vol­vido pelo gui­o­nista ame­ri­cano John August, um dos mais conhe­ci­dos e res­pei­ta­dos gui­o­nis­tas ame­ri­ca­nos no ativo, e alguns colaboradores.

Atu­a­li­za­ção: um comen­tá­rio de um lei­tor leva-​​me a acres­cen­tar um aviso impor­tante – como todos os pro­gra­mas em fase alpha ou beta tam­bém o High­land deve ser tra­tado com luvas. Tra­ba­lhe com cópias dos seus fichei­ros e faça sem­pre bac­kups fre­quen­tes do tra­ba­lho. Use-​​o com cui­dado e, por favor, não me res­pon­sa­bi­lize se per­der algum ficheiro ;-)

O High­land parte de uma pre­missa muito clara: tra­ba­lha ape­nas em fichei­ros de texto sim­ples, .txt, usando uma sin­taxe pró­pria durante o pro­cesso de escrita. Mais tarde, quando é pre­ciso impri­mir ou expor­tar o ficheiro, essa sin­taxe é auto­ma­ti­ca­mente fil­trada e con­ver­tida no for­mato correto.

A sin­taxe usada, a que John August cha­mou Foun­tain, é muito intui­tiva. É seme­lhante à que uso neste blo­gue para escre­ver as sec­ções de cenas de guião.

Por exem­plo, num docu­mento .foun­tain qual­quer linha iso­lada escrita ape­nas em letras maiús­cu­las é inter­pre­tada como um Cabe­ça­lho, e for­ma­tada como tal no momento da impressão.

Assim,

EXT. CASA – DIA

ou

FLASHBACKNO BARCO

ou até

NO CIMO DO MONTE

são fra­ses que serão impres­sas como Cabe­ça­lhos, e pare­ce­rão assim na página.

EXT. CASA – DIA

NO CIMO DO MONTE

 

FRANCISCO
O que é que me que­rias dizer?

será inter­pre­tado como um Per­so­na­gem e o res­pe­tivo Diá­logo, pois a frase em miús­cu­las não está iso­lada; tem o diá­logo na linha ime­di­a­ta­mente a seguir.

FRANCISCO

O que é que me que­rias dizer?

Parece mais com­pli­cado do que é. Na prá­tica o pro­cesso acaba por ser bas­tante fluido e trans­pa­rente, embora quem está habi­tu­ado aos méto­dos de escrita rápida do Final Draft, CltX ou Scri­ve­ner possa estranhar.

A van­ta­gem desta abor­da­gem é que os fichei­ros, gra­va­dos como texto sim­ples, podem ser edi­ta­dos por qual­quer pro­grama, em qual­quer pla­ta­forma. Pode­mos assim come­çar um guião no tele­mó­vel, escrevê-​​lo no por­tá­til, apresentá-​​lo e editá-​​lo num tablet e arquivá-​​lo na nuvem, sem­pre com o mesmo documento.

Os fichei­ros são tam­bém muito leves e à “‘prova de tempo”. Por mui­tos pro­gra­mas que nas­çam e mor­ram nas pró­xi­mas déca­das, é pro­vá­vel que seja sem­pre pos­sí­vel abrir, ler e edi­tar um docu­mento de texto sim­ples. O mesmo não pode ser garan­tido, por exem­plo, em rela­ção ao Final Draft ou CeltX, ou mesmo o Scrivener.

Cada pes­soa fará a sua ava­li­a­ção da vali­dade deste argu­mento. Não é sufi­ci­en­te­mente forte para eu ado­tar o High­land no dia a dia, mas tal­vez me con­vença a guar­dar uma ver­são de arquivo dos guiões fina­li­za­dos no for­mato .foun­tain, como pre­cau­ção para o futuro.

O High­land tem ainda uma outra fer­ra­menta muito inte­res­sante: “der­rete” .pdfs, ou seja, con­verte docu­men­tos .pdf para o for­mato .foun­tain ou Final Draft.

Em alguns tra­ba­lhos acon­tece rece­ber­mos guiões fecha­dos, gra­va­dos em .pdf. O High­land per­mite convertê-​​los para um for­mato nova­mente edi­tá­vel. Só isto pode jus­ti­fi­car bai­xar o pro­grama (gra­tuito enquanto esti­ver na fase beta) e acrescentá-​​lo à nossa lista de ferramentas.

Os incon­ve­ni­en­tes do High­land, por outro lado, são óbvios. Não inclui quais­quer fer­ra­men­tas para a pla­ni­fi­ca­ção dos guiões, ou sua rees­crita. O uso duma sin­taxe pró­pria torna-​​o dife­rente dos con­cor­ren­tes, obri­gando a mais uma aprendizagem.

Mas estes “defei­tos” são exa­ta­mente o que pode tor­nar atra­tivo o High­land aos olhos de um gui­o­nista de pen­dor mais minimalista.

Veredito final

Se teve paci­ên­cia de ler até aqui, para­béns, Se sal­tou o miolo e veio direto ao final, devia ter vergonha ;-)

Cada um des­tes pro­gra­mas tem van­ta­gens e desvantagens.

O Final Draft, com­pleto, robusto mas caro, con­ti­nu­ará pro­va­vel­mente a ser o mais usado pelos gui­o­nis­tas pro­fis­si­o­nais em todo o mundo, prin­ci­pal­mente se rece­ber em breve uma atu­a­li­za­ção pro­funda e uma ver­são para tablet.

O CeltX, por outro lado, deverá manter-​​se como o favo­rito dos estu­dan­tes de cinema e guião, e dos pro­je­tos de baixo orça­mento. Os seus defei­tos são rapi­da­mente esque­ci­dos quando com­pa­ra­dos com o seu preço incrível.

O Scri­ve­ner, que neste momento é o meu pro­grama favo­rito, está con­de­nado a ser des­co­berto pouco a pouco por mui­tos escri­to­res e auto­res de esti­los diver­sos, incluindo gui­o­nis­tas. Se um dia vier a ter um modo de escrita um pouco mais robusto, poderá ser o melhor can­di­dato para des­tro­nar o Final Draft.

O High­land será sem­pre uma alter­na­tiva de nicho, mas estou certo de que os seus adep­tos, como fre­quen­te­mente acon­tece nos pro­du­tos de nicho, serão os mais fiéis de todos.

Quer uma reco­men­da­ção final? Invista $45 USD e algu­mas horas de estudo no Scri­ve­ner. Não se vai arrepender.

Se usa fre­quen­te­mente um ou mais des­tes pro­gra­mas, por favor deixe a sua opi­nião e suges­tões nos comentários.

Notas de Rodapé

  1. Nota: este nome aplica-​​se tam­bém a des­cri­ções de per­so­na­gens, locais, etc.[]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

11 comentários… add one

  • Richardson Luz 20/07/2012, 5:23

    Prezado João Nunes, não sei se conheces um relativamente novo programa de escrita de guiões que foi feito por guinistas brasileiros; trata-se do Story Touch (http://www.storytouch.com/) embora o nome seja em inglês o programa é brasileiro. Tenho em meu computador, só que ainda não o utilizo muito por estar acostumado com o Cetx, mas eu gostaria que você o experimentasse um pouco e escrevesse no seu blogue o que achou dele. Talvez isso me incentive a usá-lo com maior frequência. Ele também tem um versão gratuita.

    • João Nunes 21/07/2012, 15:25

      Já baixei esse software há uns tempos (e noticiei-o aqui no blogue), mas achei o interface excessivamente complexo e não tive paciência para o aprofundar. Provavelmente deveria fazê-lo, até porque as versões pagas, mais caras, prometem uma série de funções que, se bem implementadas, poderiam ter alguma utilidade. Talvez o seu desafio me leve a explorá-lo um pouco mais…

  • berni ferreira 20/07/2012, 12:14

    Parabéns, João! O artigo está muito completo.

    A minha experiência com estes programas resume-se a dois deles: o final draft (uma versão trial, já bastante antiga) e o celtX.

    Relativamente à versão antiga do final draft, abandonei-a rapidamente devido a problemas relacionados sobretudo com o fato de escrever em português. Lembro-me vagamente de problemas com os acentos, por exemplo, que os anglo-saxónicos não usam.

    Quanto ao celtX, creio que não poderia estar mais de acordo com a avaliação do João. Por enquanto, vai dando conta do recado. Mas continuo a usar o famigerado Word para a fase de pesquisa, sistematização de ideias, outlines, etc.
    Muito resumidamente, ele responde adequadamente às minhas necessidades actuais. Contudo, tenho algum receio do que possa acontecer se algum dia tiver um guião de longa-metragem em produção… A tal “desgraça” na conversão para outros ficheiros que não o pdf é o principal motivo deste receio.

    Portanto, creio que, se tiver algum dia um guião aceite por uma produtora, vou comprar o scrivener o mais rapidamente possível. Até porque a descrição que o João faz neste artigo me deixa com água na boca.

    abraço

    Berni

    • João Nunes 21/07/2012, 15:23

      Mesmo que não tenhas um guião comprado ainda, baixa a demo do Scrivener. Tudo o que fazes com o Word podes fazer ainda melhor com ele. Depois é poupar nos cafés e tabaco durante uns tempos ;-)

  • Cícero Soares 21/07/2012, 12:11

    Putz, João, fui brincar com esse Highland e… e não é que acabei sendo decepado por ele?! rs.

    Estava testando com uma revisão de roteiro em .fdx (ufa!, santo Dropbox), e fiquei impressionado, gostei bastante a princípio, do aspecto “clean”, que, após pegar o jeito da formatação no próprio texto, acho que é ótimo pra trabalhar aos borbotões. Mas foi só salvar utilizando o menu superior (e não os botões laterais abaixo) e o Final Draft deixou de reconhecer o arquivo. E nem o tal Highland(er), quando fechei e abri o programa e o arquivo de novo.

    Deve ser bug (versão é ainda alpha, né?), bug cabeludo. Mas nem vou tirar a prova dos nove, já tratei de dar o troco, decepando-lhe sem piedade…rs. Vou esperar é um beta.

    • João Nunes 21/07/2012, 15:21

      Versões alpha e beta devem sempre ser tratadas com luvas. Vou acrescentar esse aviso no texto. Não me lembrei de o incluir porque a minha experiência com o programa foi notavelmente isenta de incidentes.
      Ainda bem que o Dropbox o safou. Também já me salvou não poucas vezes.

  • Sérgio Lacerda 04/12/2012, 22:17

    Olá pessoal, eis uma ótima oportunidade para testar efetivamente o Story Touch em sua versão TOP: http://storytouch.com/blog/Agenda/projeto-3

    • João Nunes 05/12/2012, 7:58

      Vou escrever um miniartigo para divulgar esta informação. Obrigado.

  • Odilio 21/07/2014, 19:19

    Boa tarde, dei uma olhada no final draft e acho que meu site para escritores também pode ajudar para trabalhar com a escrita de filmes, temos a separação de personagens, capitulos, notas, locais etc, e o editor de texto também é bastante completo, se tiver interesse em conhecer meu email é odilionoronha@gmail.com e o site é http://scriptor.net.br pode usar o facebook para logar sem preencher cadastro!
    obrigado!

  • Rosa 18/11/2014, 3:19

    Sei que você é especialista em cinema, mas teria uma dica aproximada para indicar um bom programa para roteiro deTV?

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