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P & R: devo rever a escrita da véspera?

Durante o pro­cesso de escrita da 1ª ver­são do guião, quan­tas vezes será neces­sá­rio parar para rever o que foi escrito no dia ante­rior? Eu não revejo mas algo me diz que vou che­gar ao fim do 1º draft e não vou gos­tar do resul­tado final. — Rafael

Rafael, é mesmo muito pro­vá­vel que che­gue ao fim do 1º draft e não goste do que escre­veu. É natu­ral e, diria mesmo, quase inevitável.

Quando ima­gi­na­mos o nosso guião, imaginamo-​​lo per­feito e sem falhas. Mas rara­mente che­ga­mos à pri­meira a esse pata­mar de per­fei­ção. É para isso que serve a rees­crita; para apro­xi­mar passo a passo o guião final daquele que ide­a­li­za­mos antes de come­çar a escrever.

Quanto à revi­são durante a escrita, há várias cor­ren­tes de pensamento.

Há quem ache que deve­mos ten­tar escre­ver tudo sem parar para olhar para trás. Alguns insis­tem mesmo que deve­mos escre­ver muito, depressa e sem rever, para obter aquilo que deno­mi­nam de “vomit draft” — a “ver­são vomi­tada”. Vomi­tada, ima­gino eu, por­que saiu de uma gol­fada, mas tam­bém por­que nor­mal­mente é um horror.

Outros auto­res pre­fe­rem ir revendo à medida que escre­vem. Lembro-​​me de um escri­tor (mas não de quem é) que afir­mava todos os dias rever o manus­crito desde a pri­meira linha, o que fazia com que em cada dia acres­cen­tasse cada vez menos mate­rial novo.

Mesmo que não se seja tão exa­ge­rado, grande parte dos auto­res gos­tam de “aque­cer” para a escrita do dia revendo e alte­rando um pouco do que escre­ve­ram nos dias anteriores.

Penso que a maior parte dos auto­res, como eu, andam no meio termo. Ten­ta­mos seguir em frente num bom ritmo, para man­ter o entu­si­asmo, mas não nos impe­di­mos de cor­ri­gir ou alte­rar algu­mas coi­sas pelo caminho.

Por vezes são ideias novas para melho­rar uma cena ante­rior; outras vezes apercebemo-​​nos de algum erro come­tido; mui­tas vezes é ape­nas uma maneira de adiar um pouco o regresso à escrita ori­gi­nal, sem­pre mais difícil.

O perigo de vol­tar dema­si­a­das vezes atrás é per­der o ímpeto e a ener­gia que tanta falta vão fazer para che­gar ao fim. Mas cada autor é que sabe qual o método mais ade­quado ao seu estilo de escrita.

Uma per­gunta final: pre­sumo que tenha bai­xado e lido o meu eBook gra­tuito dedi­cado exclu­si­va­mente à rees­crita. Se não o fez reco­mendo que o faça.

Alguns artigos afins de que talvez goste:

  1. Per­gun­tas & Repos­tas: em que ordem devo escre­ver as cenas?
  2. O tru­que final do Final Draft
  3. Dez coi­sas a rever num argu­mento antes de o apresentar
  4. Per­gun­tas & Res­pos­tas: o que devo fazer agora?

Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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