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Perguntas & Respostas: como escrever diálogos sobrepostos Qual o formato do diálogo quando os personagens falam ao mesmo tempo
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Às vezes vejo em fil­mes ou tele­no­ve­las cenas em que há uma dis­cus­são mais aca­lo­rada entre dois per­so­na­gens ou mais, falando ao mesmo tempo. Como esse tipo de situ­a­ção é escrito no guião? — Rodrigo

Rodrigo, em cinema os rea­li­za­do­res ten­tam sem­pre evi­tar que os ato­res sobre­po­nham as falas, pedindo-​​lhes para falar bem sepa­ra­da­mente um do outro.

Se os ato­res estão numa dis­cus­são muito aca­lo­rada, como refere no seu exem­plo, falando em simul­tâ­neo, é quase impos­sí­vel garan­tir que em cada tomada (take) suces­sivo eles irão dizer as mes­mas coi­sas nos mes­mos momen­tos.  Isso torna muito difí­cil a mon­ta­gem das várias toma­das do plano

Quando um rea­li­za­dor quer ter este tipo de ação numa cena, opta nor­mal­mente por filmá-​​la num plano-​​sequência único, evi­tando a mon­ta­gem. O único senão nesta solu­ção é que toda a sequên­cia tem de sair bem na tomada, pois não há pos­si­bi­li­dade de melho­rar o diá­logo atra­vés da montagem.

Outra alter­na­tiva é regis­trar a cena com várias câma­ras ao mesmo tempo, para garan­tir o sin­cro­nismo (rac­cord) das várias toma­das com ângu­los diferentes.

Esta última solu­ção é nor­mal em algu­mas séries de tele­vi­são e nas tele­no­ve­las (estas são sem­pre gra­va­das com mais do que uma câmara em simul­tâ­neo), mas é menos fre­quente em cinema onde, por razões diver­sas (cus­tos, ilu­mi­na­ção) é mais comum fil­mar ape­nas com uma câmara.

De qual­quer forma, se é impor­tante para a nossa estó­ria ter­mos uma cena em que exista esta sobre­po­si­ção de falas, o que faze­mos é indi­car isso de duas for­mas diferentes.

Em pri­meiro lugar, expli­ca­mos essa par­ti­cu­la­ri­dade no pará­grafo de des­cri­ção da ação. Pode ser uma frase como:

Rodrigo e Clara estão tão ner­vo­sos que as suas des­cul­pas e expli­ca­ções se sobre­põem atabalhoadamente.

Segui­da­mente escre­ve­mos os diá­lo­gos sobre­pos­tos usando um for­mato espe­cial, como indico a seguir:

Os pro­gra­mas espe­ci­a­li­za­dos de escrita de guião, como o Final Draft, Scri­ve­ner ou CeltX já pre­vêem esta opção de escrita para­lela de diá­lo­gos (dual dia­lo­gue), que pode ser com­pli­cada de repro­du­zir num pro­grama como o Word.

Tenha sem­pre em conta que é uma situ­a­ção muito espe­cí­fica e que deve ser usada com mode­ra­ção, e ape­nas quando acres­cen­tar real­mente qual­quer coisa à estó­ria ou à defi­ni­ção dos personagens.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one

  • Antunes 15/06/2012, 9:45

    Fantástico. Até meio óbvio, mas fantástico. O problema é que como ouvir no cinema diálogos sobrepostos. Em Sangue do Meu Sangue, por exemplo, a gente tem que fazer uma opção escolher qual conversa vamos prestar atenção. Este filme teria de imprimir algumas páginas de diálogos em modelo paisagem, para poderem ficar devidamente sobrepostos, já quem tem cenas com quatro personagens ao mesmo tempo falando, sendo cada dois conversando assuntos diferentes.

    • João Nunes 15/06/2012, 11:08

      Eu não tive oportunidade de ver “Sangue do meu Sangue”, porque já estava fora de Portugal na altura da estreia. Mas tanto quanto pude saber esse filme nasceu de um longo período de ensaios com os atores, em que as cenas e os diálogos foram evoluindo até se chegar a essa opção de diálogos radicalmente sobrepostos.
      Como tal não teve um guião final formal, escrito dentro dos moldes que eu discuto neste site.
      Foi uma opção experimental, só possível porque o João Canijo era simultaneamente argumentista e realizador do filme, e tinha a confiança do produtor, atores e equipa desde o início.
      O Mike Fidgis também escreveu e dirigiu um filme em 2000, chamado “Timecode”, em que acompanhávamos em simultâneo 4 linhas de ação nos quatro quartos da tela. Estas linhas de ação por vezes cruzavam-se e víamos a mesma cena de dois ângulos diferentes. No caso desse filme a mistura de som seleccionava o que estávamos a ouvir em cada momento.
      Para escrever essa estória o Mike Fidgis teve de inventar um modelo de guião mais parecido com uma partitura musical do que com um guião tradicional. São experiências pontuais e não devem ser consideradas como um modelo pelos guionistas que não reunam as condições especiais da sua gestação.

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