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Perguntas & Respostas: qual a diferença entre um insert e um flashback?
insert o dez

Qual a dife­rença entre insert e flash­back e como aplica-​​la para escre­ver um insert no roteiro? — Rodrigo

Rodrigo, insert é um termo de lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fica, flash­back um con­ceito de dra­ma­tur­gia. Não têm abso­lu­ta­mente nada a ver um com o outro.

Insert é a desig­na­ção gené­rica de qual­quer plano cine­ma­to­grá­fico des­ti­nado a cha­mar a aten­ção para um por­me­nor da ação ou de um cenário.

Pode ser, por exem­plo, um insert de um mos­tra­dor de um reló­gio, de uma expres­são de um per­so­na­gem, da mão do cow­boy aproximando-​​se do col­dre da pis­tola, ou de um ter­mi­na­tor ope­rando o pró­prio braço.

Alguns tipos de insert têm nomes mais espe­cí­fi­cos, como o close up (CU) ou o extreme close up (ECU). Outros são muito mais gené­ri­cos, ou então espe­cí­fi­cos de uma deter­mi­nada situação.

Flash­back, ou ana­lepse, por outro lado, é a desig­na­ção para uma sequên­cia de ação, mais ou menos pro­lon­gada, pas­sada num momento ante­rior ao da sequên­cia tem­po­ral “nor­mal” que esta­mos a acompanhar.

Pode ser ape­nas um plano curto, que dura só um ins­tante, recor­dando algo que acon­te­ceu antes, como o plano em que Juno recorda o momento em que engra­vi­dou, no filme do mesmo nome.

Ou pode ser uma longa sequên­cia nar­ra­tiva, como o exem­plo reti­rado do filme de “Era uma vez na Amé­rica que ana­li­sei aqui no site”. Este último exem­plo é muito bom por­que têm a par­ti­cu­la­ri­dade de incluir flash­backs den­tro de flash­backs.

Não vou expli­car aqui como se escre­vem flash­backs, por­que já escrevi sobre isso antes no blo­gue. Leia esse artigo, que con­tém muita infor­ma­ção sobre o assunto.

Quanto aos inserts, a minha opi­nião (que coin­cide com o con­senso geral na atu­a­li­dade) é de que eles são uma deci­são de rea­li­za­ção, que com­pete ape­nas ao realizador. 

É o rea­li­za­dor que tem de deci­dir como vai nar­rar cine­ma­to­gra­fi­ca­mente, usando todos os recur­sos da lin­gua­gem audi­o­vi­sual, a estó­ria que nós escre­ve­mos no guião.

Alguns rea­li­za­do­res, por exem­plo, são gran­des uti­li­za­do­res dos planos-​​sequência, e não gos­tam de usar inserts. Outros, pelo con­trá­rio, fazem dos inserts um ele­mento chave da sua lin­gua­gem. E outros ainda usam-​​nos orga­ni­ca­mente, ape­nas quando os enten­dem necessários.

Sendo uma deci­são de rea­li­za­ção, não com­pete aos gui­o­nis­tas esta­rem a inclui-​​los nos guiões. Quando por vezes encon­tra­mos guiões que refe­rem espe­ci­fi­ca­mente um insert, são nor­mal­mente guiões muito anti­gos, ou então “sho­o­ting scripts”, guiões téc­ni­cos de pro­du­ção, já escri­tos com a inter­ven­ção do realizador.

Se nós, enquanto gui­o­nis­tas, achar­mos que é impor­tante para a com­pre­en­são da estó­ria cha­mar a aten­ção para algum por­me­nor, deve­mos fazê-​​lo de forma sub­til, sem espe­ci­fi­car que se trata de um insert.

Para isso usa­mos as des­cri­ções de ação, moldando-​​as de forma a cha­mar a aten­ção para o que que­re­mos des­ta­car. Por exem­plo, se eu escre­ver uma linha de des­cri­ção como “Um PINCEL deli­neia no papel a forma da torre Eif­fel” é pos­sí­vel que o rea­li­za­dor, ao ler essa des­cri­ção, pense que um insert - neste caso um close up do pin­cel - seja uma boa forma de dar o des­ta­que necessário.

Mas pode tam­bém ter outra solu­ção que alcance o mesmo efeito. De qual­quer forma essa será sem­pre uma deci­são sua.

Por exem­plo, no meu guião de “O Pre­sente”, da série de cur­tas “O Dez”, des­crevi um momento da ação desta forma:

O médico surge entre os dois enfer­mei­ros, debruçando-​​se sobre Edgar.

Tem uma SERINGA cheia na mão.

MEDICO

Não se pre­o­cupe, Pedro. É para o seu bem.

Ao escre­ver a frase “Tem uma SERINGA cheia na mão” num pará­grafo inde­pen­dente estava a suge­rir subli­mi­nar­mente ao rea­li­za­dor que deve­ria dar um des­ta­que espe­cial à seringa. Uma maneira de o fazer (aquela que me ocor­reu durante a escrita) seria atra­vés de um insert da seringa.

Con­tudo, no momento da pre­pa­ra­ção do filme,  o rea­li­za­dor (que por coin­ci­dên­cia tam­bém fui eu ;-) não acei­tou a sugestão.

Em vez de usar um insert pre­feri reve­lar a seringa atra­vés de um movi­mento em dois tem­pos. Ou seja, segui a suges­tão de dar um des­ta­que espe­cial à seringa, mas fi-​​lo usando um recurso dife­rente de lin­gua­gem de cinema.

Veja­mos outro exem­plo. Num momento ante­rior do mesmo guião, escrevi uma cena desta forma:

INT. SALA DE EDGAR – NOITE

Edgar está a dor­mir exac­ta­mente na mesma posi­ção que o vimos antes, encos­tado no sofá. Acorda sobres­sal­tado e olha o relógio.

Neste caso, quando pas­sei ao papel de rea­li­za­dor, decidi come­çar a cena com um insert: um extreme close up do olho de Edgar, abrindo-​​se para reve­lar o reflexo da janela ilu­mi­nada pela luz do dia.

Foi uma deci­são de rea­li­za­dor que não estava indi­cada no guião mas enri­que­ceu muito a cena. Ou seja, cada macaco no seu galho.

Se qui­ser pode ver a curta “O Pre­sente” com­pleta aqui no Sapo Vídeo. E pode compará-​​la com o guião,  baixando-​​o aqui.

Boas escri­tas.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one

  • Rodrigo Costa 21/05/2012, 14:34

    Realmente a duvida foi esclarecida. Quando vinha-me o termo “insert” em mente, achava que era como uma espécie de lembrança repentina e rápida que o personagem tinha. Muito grato.

    • João Nunes 22/05/2012, 16:02

      Essas cenas com lembranças repentinas e rápidas de um personagem são um tipo de flashbacks muito em voga hoje. São muito comuns, por exemplo, nas séries de investigação criminal, em que são usados frequentemente para recordar pistas que um personagem (e os espectadores) viram antes e que se revelam ter mais importância do que parecia na altura.

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