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Perguntas & Respostas: qual a melhor maneira de começar a escrever?
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Quero escre­ver um curta, base­ada em fatos reais. Gos­ta­ria de saber a melhor maneira de come­çar a escre­ver: escrevo uma nar­ra­tiva
antes? Escrevo em um caderno? Vou direto pro PC? — Carolyne

Carolyne, cada autor tem um método pró­prio, e não há regras uni­ver­sais para isso. Ao longo do tempo nós pró­prios vamos encon­trando a forma que melhor se adapta ao nosso tem­pe­ra­mento, estilo de escrita e até ao  pro­jeto em que esta­mos a trabalhar.

Mui­tas vezes esse pro­cesso vai evo­luindo e sofrendo trans­for­ma­ções com o tempo e a experiência.

Já entre­vis­tei alguns auto­res aqui no site, em que falam dos seus pro­ces­sos cri­a­ti­vos. Por exem­plo, o Artur Ribeiro, o Tiago San­tos ou o Filipe Melo.

No site do soft­ware Story Touch encon­tra tam­bém depoi­men­tos de vários rotei­ris­tas bra­si­lei­ros sobre os seus métodos.

Posso descrever-​​lhe o pro­cesso que, de forma geral, uso nos meus pro­je­tos pes­so­ais. Isso tal­vez a ajude a encon­trar o seu caminho.

  1. Quando tenho uma ideia, tomo sem­pre nota dela, num caderno ou no com­pu­ta­dor. Tenho ano­ta­das mais ideias do que alguma vez terei tempo para escre­ver. Há um pro­cesso de sele­ção natu­ral que define quais as que sobre­vi­vem ou as que são esquecidas.
  2. A par­tir daí vou pen­sando na ideia, amadurecendo-​​a, acres­cen­tando por­me­no­res, desenvolvendo-​​a. Esse pro­cesso pode levar anos, ou ser rela­ti­va­mente rápido.
  3. A certa altura sinto que está na hora de avan­çar. Por vezes é por­que já jun­tei o número sufi­ci­ente de deta­lhes para deli­near os ele­men­tos essen­ci­ais da estó­ria, outras vezes é pelo cru­za­mento com outra ideia ou fonte de ins­pi­ra­ção. Seja como for, sinto que está no momento de come­çar a tra­ba­lhar a sério no projeto.
  4. Passo então a jun­tar as ideias que tive numa única sinopse mais ou menos desen­vol­vida. É nesta fase que faço tam­bém a pes­quisa que possa ser necessária. 
  5. Quando estou satis­feito com a sinopse escrevo uma esca­leta (outline) com as cenas todas resu­mi­das em sequên­cia. Começa nor­mal­mente por ser em papel, mas rapi­da­mente a passo para o com­pu­ta­dor. Neste momento estou a usar o soft­ware Scri­ve­ner, mas o Final Draft ou o CeltX tam­bém têm a opção de escaleta.
  6. Quando tenho a esca­leta com­pleta duas coi­sas podem acon­te­cer: ou con­ti­nuo ime­di­a­ta­mente a escre­ver, se o entu­si­asmo se man­teve; ou guardo o pro­jeto mais algum tempo, por­que sinto que ainda não está na altura de o terminar.
  7. No pro­cesso de escrita uso um dos três softwa­res acima refe­ri­dos: o CeltX, gra­tuito; o Final Draft, que a maior parte dos pro­fis­si­o­nais usam; ou o Scri­ve­ner, que come­cei recen­te­mente a explo­rar, e me está a satis­fa­zer muito. Em breve escre­ve­rei um artigo com­pa­ra­tivo des­tes três programas.
  8. A dura­ção da  escrita varia em fun­ção do tipo de peça. Numa curta pode ir de um dia a uma semana; numa longa pode demo­rar até dois ou três meses.
  9. Segue-​​se, obvi­a­mente, a fase de rees­crita.
  10. Por fim, depen­dendo do resul­tado final, guardo-​​o numa gaveta ou mostro-​​o a outras pessoas.

Nos pro­je­tos de enco­menda, o pro­cesso é mais ou menos o mesmo, mas num tempo mais curto e sem a última opção.

Inde­pen­den­te­mente de tudo o resto nos tra­ba­lhos pagos tenho obri­ga­to­ri­a­mente de os escre­ver den­tro do prazo com­bi­nado. O meu con­tra­tante não pode espe­rar que eu esteja “ins­pi­rado” para ter­mi­nar o trabalho.

Atu­al­mente estou a ten­tar apli­car essa mesma filo­so­fia aos pro­je­tos pes­so­ais: se che­gar à fase da esca­leta, tento não parar aí e seguir até ao fim.

A rea­li­dade, con­forme já referi antes, é que nunca escre­ve­mos de graça: ou são outros a pagar-​​nos, em dinheiro; ou somos nós a pagar, em tempo e suor.

Leia as entre­vis­tas que indi­quei em cima, per­ceba bem os dife­ren­tes méto­dos, e parta daí à des­co­berta do seu pró­prio pro­cesso para come­çar a escrever.

Boas escri­tas.

 

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

3 comentários… add one

  • A.C. Costa Ferraz 13/07/2012, 16:25

    Grandes dicas.

    É sempre bom tomar um fôlego. É isso que seu blog é. Recarrenga as baterias.

    Obrigado.

    • João Nunes 13/07/2012, 17:17

      Obrigado. Ainda bem que o blogue tem esse efeito em si. O curioso é que, para mim, escrever no blogue tem exatamente o mesmo efeito.

  • Rogério Amorim 25/07/2013, 11:21

    Apesar de possuir um curso de guionismo, nunca utilizei essa técnica, dediquei o meu tempo de reformado a escrever livros, a contar estórias. Depois, o meu amigo e professor, João de Mancelos, deu-me o seu link. Li quase todos os seus blogs e dei comigo a pensar: porque não? As estórias estão construídas, só as tenho de passar para guião. Comecei por o livro “O Adeus a África” (estória verídica), editado pela Corpos Editora, uma versão melhorada do livro “Costa dos Esqueletos”, (Europa América – 2000) Ponderei todas as cenas relevantes, são muitas, o que me leva a pensar que dará mais que 120 páginas. Neste contexto, precisava da sua valiosa ajuda.
    Também sei que, por questões económicas e logísticas, pois a estória teria de ser filmada no local, (Moçâmedes, Foz do Cunene e trajecto até Walvis Bay) ninguém, pelo menos em Portugal, irá apostar na realização deste filme. Será o gozo pelo gozo.
    Obrigado

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