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Perguntas & Respostas: E se a nossa ideia afinal não é original
zero dark thirty destaque

Vai sair um filme muito seme­lhante à ideia que estava a desen­vol­ver. O que é que faço agora? A minha von­tade é de não escre­ver mais nada. Esta era mesmo a opor­tu­ni­dade. – Estela

Estela, des­culpe contrariá-​​la, mas isso não existe; não há essa coisa de um deter­mi­nado guião ou ideia ser “A OPORTUNIDADE”.

Ideias há mui­tas, em todo o lado.

Leia um jor­nal com aten­ção e veja quan­tas notí­cias pode­riam dar bons fil­mes. A morte do Bin Laden, por exem­plo – quan­tas pes­soas devem ter pen­sado que daria uma grande estó­ria? Mui­tas, com cer­teza. Mas só uma che­gou ao fim[1].

As ideias, para­do­xal­mente, são o ele­mento mais impor­tante e menos impor­tante de um filme.

É claro que se a ideia for má, ou gasta, ou inviá­vel, o pro­jeto nunca será bom.

Mas uma boa ideia não é garante de um bom resul­tado. Até por­que é pra­ti­ca­mente impos­sí­vel ter uma ideia cem por cento original.

O que conta prin­ci­pal­mente é desenvolvê-​​las, escrevê-​​las, terminá-​​las; a maneira como o faze­mos, o jeito que lhes damos, a forma como nos apro­pri­a­mos delas e as tor­na­mos nossas.

Por isso mesmo não é pos­sí­vel regis­tar uma ideia; ape­nas a sua exe­cu­ção. Enquanto não pas­sar­mos à escrita, à con­cre­ti­za­ção, é como se as ideias não existissem.

E isso tem de ser feito uma vez, e outra, e outra. Uma car­reira de gui­o­nista, ou autor, faz-​​se de per­se­ve­rança, empe­nho, tra­ba­lho – todos os dias.

Umas vezes com melho­res resul­ta­dos, outras pio­res, mas sem­pre com con­ti­nui­dade. Um gui­o­nista, ou escri­tor, que ache que a sua car­reira depende de uma única ideia, não tem real­mente futuro. O mais pro­vá­vel, aliás, é que não che­gue nunca a con­cre­ti­zar essa sua única ideia.

Desculpe-​​me se pareço um pouco duro, mas espero que isto sirva de estí­mulo para si. Tam­bém já tive ideias que depois apa­re­ce­ram em outros fil­mes. A dife­rença é que eles as escre­ve­ram, e eu não.

Temos é de ficar satis­fei­tos, por­que isso é a prova que era uma boa ideia. E quem teve uma boa ideia pode ter mui­tas mais.

Por isso, comece por ver se há alguma maneira de dar a volta à sua ideia para a dife­ren­ciar do filme ame­ri­cano que refere. Não me parece difí­cil; os orça­men­tos devem ser tão des­pro­por­ci­o­na­da­mente dife­ren­tes que pou­cas seme­lhan­ças os guiões pode­riam ter.

Mas se mesmo assim acha que isso não é pos­sí­vel, então res­pire fundo e siga em frente. Faça o luto neces­sá­rio pela fale­cida ideia, e comece a tra­ba­lhar na pró­xima. O impor­tante é con­ti­nuar a escre­ver e a acre­di­tar em si.

Notas de Rodapé

  1. E o filme, *Dark Zero Thirty*, é fan­tás­tico, por sinal[]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

6 comentários… add one

  • João Ramos 31/01/2013, 14:05

    Concordo plenamente com o que foi dito sobretudo porque também já me aconteceu, como possivelmente já aconteceu a todos os argumentistas. Lembro-me a primeira vez que aconteceu tinha desenvolvido uma premissa que achava ser original e comecei a trabalhar nela, passado algum tempo saiu um filme norte americano com uma premissa muito semelhante. A primeira vez é a que custa mais, porque tal como a Estela senti-me desmotivado e um pouco ”furioso” e parei de escrever deixando o guião nos confins da minha gaveta e passei energicamente para um outro projecto, a decepção tornou-se em combustível para dar seguimento a um guião que se tornou consideravelmente melhor do que aquele que tinha começado a trabalhar. A vida de argumentista tem destas coisas e como o Sr. João Nunes o importante é continuar-mos a escrever e a acreditar-mos em nós, porque passado um bom tempo é que percebi que a minha ideia afinal não era assim tão igual à do filme americano e que poderia contornar todas a parecenças e torna-la numa estória melhor seguindo um caminho diferente do que tinha planeado ao inicio, é tudo uma questão de adaptação.

    • João Nunes 31/01/2013, 18:18

      O que destaco do seu comentário é a frase “passei energicamente para um outro projecto”. O espírito deve ser exactamente esse.

    • Estela 01/02/2013, 6:06

      Muito obrigada pelos vossos comentários. A minha primeira reação foi mesmo essa: uma desilusão, seguida de uma fúria tremenda. Mas passada a tempestade, a estória continuava viva na minha cabeça, as ideias e os arranjos (que a tornam mais interessante) continuaram a fluir e eu continuei a escrever e a corrigir, como tenho feito. Consigo ver as diferenças entre o filme e a minha estória. Vou continuar a escrever e terminar o meu trabalho.

      Muito obrigada a ambos.

      Estela

      • João Nunes 01/02/2013, 7:09

        Boa! É isso mesmo!

  • Felipe Petrucelli 01/02/2013, 20:04

    Eu tinha uma esquete teatral que pretendia transformar num roteiro de longa. Mas foi ficando dentro da gaveta dormitando por 2 anos. Um belo dia, tchan,tchan,tchan…não é que lançam um filme com a mesma ideia? Até os personagens principais eram iguais! Eu comecei a rir. Sabe quando se ri de nervoso? Pois é. E para completar, o filme se tornou o de maior público no Brasil e assim permaneceu por uns 3 ou quatro anos. Teve até sequência….Lógico, encostei a tal ideia de novo na gaveta e ali permanecerá até o dia em que eu achar que mereça ser novamente trabalhada, sem que me acusem de copiar a ideia dos outros, embora eu possa provar que ela é anterior ao tal filme, e já que a tal esquete foi registrada e encenada por um grupo amador……….Enquanto isto, vou trabalhando outras ideias que, graças a Deus, não param de surgir.

    Meu abraço a todos e em especial ao João Nunes.

    • João Nunes 01/02/2013, 20:33

      É como o Felipe diz: as ideias não param de surgir e quanto mais nós confiamos nisso mais surgem ainda.

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