Perguntas & Respostas: E se a nossa ideia afinal não é original

João Nunes —  31/01/2013 — 6 Comments

Vai sair um filme muito seme­lhante à ideia que estava a desen­vol­ver. O que é que faço agora? A minha von­tade é de não escre­ver mais nada. Esta era mesmo a opor­tu­ni­dade. – Estela

Estela, des­culpe contrariá-​​la, mas isso não existe; não há essa coisa de um deter­mi­nado guião ou ideia ser “A OPORTUNIDADE”.

Ideias há mui­tas, em todo o lado.

Leia um jor­nal com aten­ção e veja quan­tas notí­cias pode­riam dar bons fil­mes. A morte do Bin Laden, por exem­plo – quan­tas pes­soas devem ter pen­sado que daria uma grande estó­ria? Mui­tas, com cer­teza. Mas só uma che­gou ao fim[1].

As ideias, para­do­xal­mente, são o ele­mento mais impor­tante e menos impor­tante de um filme.

É claro que se a ideia for má, ou gasta, ou inviá­vel, o pro­jeto nunca será bom.

Mas uma boa ideia não é garante de um bom resul­tado. Até por­que é pra­ti­ca­mente impos­sí­vel ter uma ideia cem por cento original.

O que conta prin­ci­pal­mente é desenvolvê-​​las, escrevê-​​las, terminá-​​las; a maneira como o faze­mos, o jeito que lhes damos, a forma como nos apro­pri­a­mos delas e as tor­na­mos nossas.

Por isso mesmo não é pos­sí­vel regis­tar uma ideia; ape­nas a sua exe­cu­ção. Enquanto não pas­sar­mos à escrita, à con­cre­ti­za­ção, é como se as ideias não existissem.

E isso tem de ser feito uma vez, e outra, e outra. Uma car­reira de gui­o­nista, ou autor, faz-​​se de per­se­ve­rança, empe­nho, tra­ba­lho – todos os dias.

Umas vezes com melho­res resul­ta­dos, outras pio­res, mas sem­pre com con­ti­nui­dade. Um gui­o­nista, ou escri­tor, que ache que a sua car­reira depende de uma única ideia, não tem real­mente futuro. O mais pro­vá­vel, aliás, é que não che­gue nunca a con­cre­ti­zar essa sua única ideia.

Desculpe-​​me se pareço um pouco duro, mas espero que isto sirva de estí­mulo para si. Tam­bém já tive ideias que depois apa­re­ce­ram em outros fil­mes. A dife­rença é que eles as escre­ve­ram, e eu não.

Temos é de ficar satis­fei­tos, por­que isso é a prova que era uma boa ideia. E quem teve uma boa ideia pode ter mui­tas mais.

Por isso, comece por ver se há alguma maneira de dar a volta à sua ideia para a dife­ren­ciar do filme ame­ri­cano que refere. Não me parece difí­cil; os orça­men­tos devem ser tão des­pro­por­ci­o­na­da­mente dife­ren­tes que pou­cas seme­lhan­ças os guiões pode­riam ter.

Mas se mesmo assim acha que isso não é pos­sí­vel, então res­pire fundo e siga em frente. Faça o luto neces­sá­rio pela fale­cida ideia, e comece a tra­ba­lhar na pró­xima. O impor­tante é con­ti­nuar a escre­ver e a acre­di­tar em si.

Notas de Rodapé

  1. E o filme, *Dark Zero Thirty*, é fan­tás­tico, por sinal[]

João Nunes

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João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

6 responses to Perguntas & Respostas: E se a nossa ideia afinal não é original

  1. João Ramos 31/01/2013 at 14:05

    Con­cordo ple­na­mente com o que foi dito sobre­tudo por­que tam­bém já me acon­te­ceu, como pos­si­vel­mente já acon­te­ceu a todos os argu­men­tis­tas. Lembro-​​me a pri­meira vez que acon­te­ceu tinha desen­vol­vido uma pre­missa que achava ser ori­gi­nal e come­cei a tra­ba­lhar nela, pas­sado algum tempo saiu um filme norte ame­ri­cano com uma pre­missa muito seme­lhante. A pri­meira vez é a que custa mais, por­que tal como a Estela senti-​​me des­mo­ti­vado e um pouco ”furi­oso” e parei de escre­ver dei­xando o guião nos con­fins da minha gaveta e pas­sei ener­gi­ca­mente para um outro pro­jecto, a decep­ção tornou-​​se em com­bus­tí­vel para dar segui­mento a um guião que se tor­nou con­si­de­ra­vel­mente melhor do que aquele que tinha come­çado a tra­ba­lhar. A vida de argu­men­tista tem des­tas coi­sas e como o Sr. João Nunes o impor­tante é continuar-​​mos a escre­ver e a acreditar-​​mos em nós, por­que pas­sado um bom tempo é que per­cebi que a minha ideia afi­nal não era assim tão igual à do filme ame­ri­cano e que pode­ria con­tor­nar todas a pare­cen­ças e torna-​​la numa estó­ria melhor seguindo um cami­nho dife­rente do que tinha pla­ne­ado ao ini­cio, é tudo uma ques­tão de adaptação.

    • João Nunes 31/01/2013 at 18:18

      O que des­taco do seu comen­tá­rio é a frase “pas­sei ener­gi­ca­mente para um outro pro­jecto”. O espí­rito deve ser exac­ta­mente esse.

    • Muito obri­gada pelos vos­sos comen­tá­rios. A minha pri­meira rea­ção foi mesmo essa: uma desi­lu­são, seguida de uma fúria tre­menda. Mas pas­sada a tem­pes­tade, a estó­ria con­ti­nu­ava viva na minha cabeça, as ideias e os arran­jos (que a tor­nam mais inte­res­sante) con­ti­nu­a­ram a fluir e eu con­ti­nuei a escre­ver e a cor­ri­gir, como tenho feito. Con­sigo ver as dife­ren­ças entre o filme e a minha estó­ria. Vou con­ti­nuar a escre­ver e ter­mi­nar o meu trabalho.

      Muito obri­gada a ambos.

      Estela

  2. Felipe Petru­celli 01/02/2013 at 20:04

    Eu tinha uma esquete tea­tral que pre­ten­dia trans­for­mar num roteiro de longa. Mas foi ficando den­tro da gaveta dor­mi­tando por 2 anos. Um belo dia, tchan,tchan,tchan…não é que lan­çam um filme com a mesma ideia? Até os per­so­na­gens prin­ci­pais eram iguais! Eu come­cei a rir. Sabe quando se ri de ner­voso? Pois é. E para com­ple­tar, o filme se tor­nou o de maior público no Bra­sil e assim per­ma­ne­ceu por uns 3 ou qua­tro anos. Teve até sequência.…Lógico, encos­tei a tal ideia de novo na gaveta e ali per­ma­ne­cerá até o dia em que eu achar que mereça ser nova­mente tra­ba­lhada, sem que me acu­sem de copiar a ideia dos outros, embora eu possa pro­var que ela é ante­rior ao tal filme, e já que a tal esquete foi regis­trada e ence­nada por um grupo amador.….…..Enquanto isto, vou tra­ba­lhando outras ideias que, gra­ças a Deus, não param de surgir.

    Meu abraço a todos e em espe­cial ao João Nunes.

    • João Nunes 01/02/2013 at 20:33

      É como o Felipe diz: as ideias não param de sur­gir e quanto mais nós con­fi­a­mos nisso mais sur­gem ainda.

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