As cinco fases da escrita do guião

Os autores de qualquer projecto de inovação, criativo ou de outra natureza, passam invariavelmente por diferentes fases até à sua conclusão. Os guionistas não são excepção.

Entre o momento excitante da ideia inicial e o alívio de escrever “Fim” na última página, um guionista vai conhecer uma verdadeira montanha russa de emoções. Estas correspondem, de forma geral, à relação entre o esforço despendido na escrita do guião e os resultados obtidos.

Se fizermos um pequeno gráfico correlacionando esses dois elemento – esforço e resultados – podemos dividir o processo em cinco fases:

  • O Sonho
  • O Arranque
  • O Buraco
  • A Retoma
  • O Sucesso

Gráfico das cinco fases da escrita de um guião

Entender essas cinco fases é indispensável para garantir que o guionista – e os empreendedores em geral – conseguirá chegar ao fim da escrita do guião.

O Sonho

Tudo começa com "O Sonho": “Tenho uma ideia que dava um bom filme. Devia transformá-la num guião”.

Essa ideia pode ter surgido num momento de inspiração, ou pode ter vindo a desenvolver-se ao longo de muito tempo. Pode até nem ser uma ideia própria, e sim uma encomenda. Mas, num caso ou noutro, nesta fase ela ainda não passa de um sonho.

O primeiro passo que o guionista tem de dar, neste momento, é convencer-se a si mesmo de que tem as condições e capacidade para transformar esse sonho numa realidade. Tem de acreditar que está preparado e que, com os tais 1% de inspiração e 99% de transpiração, vai conseguir chegar ao fim.

Infelizmente muitos guionistas (e criadores em geral) não chegam a sair desta fase. A rotina, a inércia, a falta de autoconfiança, a crítica alheia ou a simples preguiça podem fazer “O Sonho” secar antes mesmo de começar.

O autor Steven Pressfield fala de todos estes aspectos, que ele engloba sob a designação geral de “A Resistência”, no seu livro The War of Art, cuja leitura recomendo.

O Arranque

Qundo o guionista consegue ultrapassar “A Resistência” entra numa fase privilegiada do seu projeto.

A pesquisa, a exploração dos personagens e do universo da estória, a criação das primeiras cenas e sequências, tudo aquilo que compõe “O Arranque” de um guião, são etapas muito recompensadoras e em que o guionista vê frutos e resultados rápidos do esforço que aplica.

Dependendo do processo de cada guionista esta fase de arranque pode ir até à escrita das primeiras páginas do guião, talvez até ao fim do 1º acto, ou pode ficar-se numa etapa anterior; na escaleta, por exemplo.

O Buraco

A certa altura o trabalho começa a render menos. Surgem dificuldades, obstáculos, problemas de resolução mais complicada, dilemas sem solução óbvia, e o projeto perde parte da sua graça inicial. É “O Buraco”.

Para os guionistas esta fase surge muitas vezes durante a escrita do 2º ato, ou seja, do miolo da obra. O autor escreveu um bom começo e até pode saber como quer terminar, mas encontra grandes dificuldades em unir princípio e fim.

Nessa altura começa a ter dúvidas da sua capacidade de chegar ao final. “Porque é que me meti nisto?”, é a pergunta que mais se repete na sua cabeça.

Escrever começa a ser encarado como um sacrifício e tudo serve como desculpa para não o fazer. Primeiro por um dia, depois por dois ou três, e finalmente o projeto é abandonado.

Nesta fase é muito comum que surjam outras ideias que aparentam ser muito mais interessantes do que aquela em que o guionista está a trabalhar. É uma das tentações mais recorrentes e perigosas que qualquer autor tem de enfrentar.

É o momento mais complexo e crucial de todo o processo, pois é nele que se dá a maior parte das desistências. O autor Seth Godin escreve sobre esta fase em grande detalhe no seu livro The Dip, cuja leitura também aconselho.

A Retoma

Quando o guionista consegue ultrapassar a fase d’“O Buraco” o trabalho começa a fluir de novo. É como se alguma coisa se tivesse desbloqueado dentro dele. É “A Retoma”.

Escrever volta a ser um prazer, e são as outras atividades que começam a ser colocadas em segundo plano. A tentação de procrastinar desaparece (ou pelo menos é substancialmente reduzida).

Chegado a esta fase é muito difícil que o guionista volte a interromper o projecto, a não ser que algum obstáculo externo o desvie de novo. Mas nesta altura a vontade de arranjar soluções será maior do que a de arranjar desculpas.

Este novo estado de espírito conduzirá inevitavelmente a…

O Sucesso

Entenda-se aqui como “O Sucesso” a simples conclusão da escrita do guião. Pode ser considerada assim porque a maior parte dos pretensos guionistas nunca chegam a conhecer a sensação de satisfação que dá chegar a esta fase.

Nem sempre o guião será tão bom como o autor desejava, nem tão bem conseguido como quando era apenas um sonho. Esse é o preço da realidade.

De igual forma, nem sempre o guionista conseguirá que outras pessoas se interessem pelo seu guião ao ponto de o comprar, e muito menos de o converter em filme.

Mas sem o guião estar escrito o filme nunca poderá acontecer. Com ele terminado há, pelo menos, uma possibilidade do sonho se tornar realidade.

Conclusão

As fases 1 e 3 – “O Sonho” e “O Buraco” – são as mais perigosas para o guionista, por razões diferentes.

É muito fácil um guionista apaixonar-se tanto por uma ideia que fica paralizado, sem coragem para iniciar o processo da sua concretização. Enquanto a ideia está apenas no ar é perfeita; escrevê-la é condená-la à nossa própria imperfeição. O problema é que, ao fim de algum tempo, a ideia deixa de parecer tão interessante e, inevitavelmente, acaba por morrer antes de lhe ser dada uma hipótese.

Esse é o perigo d’“O Sonho”. A única solução para o evitar é começar. Dar o primeiro passo. Criar o documento no computador. Escrever as primeiras palavras num bloco. Começar.

O perigo d’“O Buraco” é mais óbvio – escrever é difícil mesmo – mas nem por isso mais fácil de evitar. A solução é forçar o traseiro a sentar-se na cadeira, como já escrevi neste artigo ou neste outro, e escrever todos os dias.

O humorista Jerry Seinfeld tem um segredo para conseguir isso. Coloca na parede um calendário grande e faz um “X” a vermelho em cada dia em que escreve. A partir daí o seu desafio é criar uma cadeia ininterrupta de “X’s”. Nunca experimentei, mas acredito que pode funcionar muito bem.

Em que fase é que está o seu guião. Não estará na altura de passar à fase seguinte?

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5 comentários

  • Leonardo Santana 04/04/2013   Deixe uma resposta a →

    O que dizer? Só sí identificar, concordar e sí auxiliar com esse texto. Nota 10! Estava na fase do Buraco e nem sabia, somente deixando a criatividade chegar e usando essa desculpa para não escrever e quando chegava usava outras desculpas, e nesse meio tempo escrevia outras ideias que surgiam caindo em uma tentação que é prejudicial. Mas taí uma pergunta que me veio, Deixar de escrever outras ideias ao mesmo tempo, é prejudical?

  • Fernando Martins 05/04/2013   Deixe uma resposta a →

    Dizes-o no início e com muita razão: as áreas criativas passam por essas fases. Desde escrever um guião, ou um livro, ou um simples artigo, até à criação de um jogo, um filme, uma curta, ou mesmo um programa de computador.

    Pela minha parte, cujo nome do meio deveria ser “procrastinador”, tenho mais ou menos 3672 projectos na fase do “Sonho” (mais dúzia, menos dúzia), caí no “Buraco” pelo menos umas boas centenas de vezes e raríssimas vezes chego à fase de “Sucesso”. Pior! Como o que me motiva é o desafio e a diversidade ao invés da repetição, quando levo um determinado tipo de projecto até ao “Sucesso”, normalmente não me interessam mais projectos do mesmo tipo… mesmo que o que tenha atingido o “Sucesso” não seja um sucesso! :-)

    Claro que há sempre algo de novo em cada projecto, e continua-se sempre a tentar… isto sou só eu a falar com muito sono!

    Bom, mas era só para dizer: bom artigo!

  • PR 10/04/2013   Deixe uma resposta a →

    Gostei do Artigo.
    E realmente o Ato II é sempre o ponto mais fácil de emperrar e se desmotivar. Pelo menos para mim. Infelizmente os teoricos sobre escrita de roteiro ainda desenvolveram poucas ferramentas para desenvolvermos o Ato II.É o que eu mais sinto falta.

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