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Como escrever um anti-herói
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Como já vimos antes no curso de guião um filme de modelo clás­sico tem nor­mal­mente um pro­ta­go­nista, ou seja, um per­so­na­gem que, pela sua ini­ci­a­tiva, ações e esco­lhas, faz avan­çar a estó­ria. Em ter­mos vul­ga­res cos­tu­ma­mos dizer que a estó­ria é “acerca dele”.

O pro­ta­go­nista tem um papel fun­da­men­tal e insubs­ti­tuí­vel em qual­quer nar­ra­tiva: é atra­vés dele que esta­be­le­ce­mos uma liga­ção emo­ci­o­nal que nos leva a que­rer acom­pa­nhar o desen­vol­vi­mento dra­má­tico da estória.

Esse envol­vi­mento emo­ci­o­nal, como tam­bém já vimos antes, assenta numa com­bi­na­ção de três elementos:

  • a admi­ra­ção, como nos casos de Indi­ana Jones, ou Cla­risse de O Silên­cio dos Ino­cen­tes;
  • a empa­tia, como com Juno, ou Geor­ges de Amour;
  • ou o fas­cí­nio, como com Lawrence da Arábia.

Estes três ele­men­tos podem estar pre­sen­tes em simul­tâ­neo, com peso vari­ado. O nor­mal, con­tudo, é que um dos ele­men­tos se sobre­po­nha aos restantes.

O Herói

O tipo mais vul­gar de pro­ta­go­nista é o Herói, que cor­res­ponde a um arqué­tipo encon­trado em todas as tra­di­ções nar­ra­ti­vas, desde os con­tos infan­tis às estó­rias bíbli­cas. O Herói é o cow­boy do cha­péu branco, o advo­gado ide­a­lista, o polí­cia cora­joso, o prín­cipe valente. Os seus moti­vos são sem­pre cla­ros e as suas inten­ções nunca menos que nobres.

Um pouco de cin­zento, no entanto, ajuda a defi­nir melhor os heróis, dando-​​lhes pro­fun­di­dade e dimen­são. Afi­nal de con­tas, até mesmo Indi­ana Jones tem casos român­ti­cos mal resol­vi­dos e medo de cobras.

Numa dica publi­cada durante o Fre­nesi 2013 acon­se­lhei a dar um traço único, uma falhaum segredo aos nos­sos pro­ta­go­nis­tas, como forma de os tor­nar mais inte­res­san­tes. Intro­du­zindo imper­fei­ções e defei­tos na sua figura con­se­gui­mos mui­tas vezes ampliar os aspec­tos de admi­ra­ção, empa­tia e fascínio.

O Herói per­feito pode ser abor­re­cido; o pro­ta­go­nista com falhas e defei­tos tem, pelo menos, espaço aberto para se trans­for­mar. E a trans­for­ma­ção é um dos mais satis­fa­tó­rios meca­nis­mos de recom­pensa para os espec­ta­do­res de uma obra de ficção.

Os anti-heróis

Se num extremo da gra­du­a­ção dos pro­ta­go­nis­tas temos o herói, o outro extremo é ocu­pado pelos anti-​​heróis. Esta­mos a falar de per­so­na­gens como Michael Cor­le­one, de O Padri­nho, Rid­dick, de Pitch Black, Tra­vis Bic­kle, de Taxi Dri­ver ou o jovem Rob­bie, do recente A Parte dos Anjos.

Nos anti-​​heróis o fas­cí­nio tende a sobrepôr-​​se à empa­tia ou à admi­ra­ção. No entanto, como já referi, entre Indi­ana Jones e Tra­vis Bic­kle há toda uma série de pos­si­bi­li­da­des à nossa dis­po­si­ção, como uma gama de cin­zen­tos que se estende entre o branco mais lumi­noso e o negro mais pro­fundo. Apro­vei­tar todas as pos­si­bi­li­da­des que essa gama ofe­rece é um dos tra­ços que dis­tin­guem os melho­res guionistas.

Indiana Jones e Travis Bickle

Como escrever um anti-herói?

Criar e escre­ver um anti-​​herói é sem­pre fas­ci­nante mas pode ser tam­bém um desa­fio com­pli­cado. É mais fácil con­se­guir que os espec­ta­do­res se iden­ti­fi­quem com um pro­ta­go­nista mais tra­di­ci­o­nal, de vir­tu­des mais cla­ras e bem defi­ni­das, do que com um anti-​​herói.

Para nossa sorte há algu­mas solu­ções que nos per­mi­tem criar pon­tos de con­tato entre o espec­ta­dor e o pro­ta­go­nista anti-​​herói.

A con­di­ção essen­cial é ter­mos uma com­pre­en­são pro­funda da nossa pró­pria natu­reza, no que ela tem de rico, com­plexo e até para­do­xal. Se não com­pre­en­der­mos que a con­tra­di­ção faz parte essen­cial da cons­ti­tui­ção da iden­ti­dade humana, incluindo a nossa pró­pria iden­ti­dade pes­soal, nunca sere­mos capa­zes de trans­mi­tir cre­di­vel­mente essa com­ple­xi­dade aos per­so­na­gens que criamos.

Depois, há que con­se­guir mani­fes­tar a com­ple­xi­dade na escrita dos nos­sos anti-​​heróis. Como a lin­gua­gem do cinema nos dá um acesso muito limi­tado à intros­pec­ção dos per­so­na­gens, temos que reve­lar as suas per­so­na­li­da­des ape­nas atra­vés das ações e esco­lhas que fazem.

Enquanto que os Heróis ten­dem a fazer esco­lhas que os espec­ta­do­res “apro­vam” com natu­ra­li­dade, os anti-​​heróis optam com mais frequên­cia por ações que fogem à norma social. São pre­ci­sa­mente essas esco­lhas e ações ines­pe­ra­das, ou até “repro­vá­veis” – ações e esco­lhas que nós, espec­ta­do­res, sabe­mos não ter a cora­gem de fazer – que tor­nam os anti-​​heróis tão fascinantes.

Há ape­nas um pro­blema: os tra­ços de fuga às nor­mas, se extre­ma­dos, podem criar pro­ta­go­nis­tas tão nega­ti­vos que se torna difí­cil criar pon­tos de con­tato com os espectadores.

Para con­tra­ba­lan­çar essa ten­dên­cia, e faci­li­tar a pro­je­ção dos espec­ta­do­res no nosso pro­ta­go­nista anti-​​herói, pode­mos apli­car uma das qua­tro téc­ni­cas que explico de seguida.

Dar-lhe justificações

Quando enten­de­mos os ante­ce­den­tes – o cha­mado backs­tory, ou his­tó­ria pré­via – de um per­so­na­gem temos mais faci­li­dade em acei­tar as suas ações e esco­lhas, mesmo quando elas fogem ao que é soci­al­mente aceite.

É o caso, por exem­plo, de Rob­bie, o jovem pro­ta­go­nista de A Parte dos Anjos.

Per­ce­be­mos desde cedo que ele vem de uma famí­lia mise­rá­vel, com ante­ce­den­tes cri­mi­nais; que sobre­vive com difi­cul­dade nos bair­ros mais vio­len­tos da cidade, lutando con­tra tudo e con­tra todos; e que nin­guém, come­çando pelo seu futuro sogro, está dis­posto a dar-​​lhe uma opor­tu­ni­dade real de sair desse cír­culo vicioso.

Isso torna mais acei­tá­vel a solu­ção que ele encon­tra para asse­gu­rar o futuro do seu filho recém-​​nascido: rou­bar e ven­der no mer­cado negro três gar­ra­fas de um whisky valiosíssimo.

Dar-lhe motivos nobres

Michael Cor­le­one, pro­ta­go­nista de O Padri­nho, é um dos mais extra­or­di­ná­rios anti-​​heróis jamais cri­a­dos. A sua estó­ria é uma via­gem de trans­for­ma­ção de con­tor­nos trá­gi­cos. Começa como herói de guerra ide­a­lista e ter­mina como impi­e­doso senhor do submundo.

Essa trans­for­ma­ção, con­tudo, é jus­ti­fi­cada pela nobreza da inten­ção que a con­duz: defen­der o seu pai e a famí­lia do ata­que trai­ço­eiro que sofre. Qual­quer um de nós con­se­gue enten­der e sim­pa­ti­zar com essa motivação.

Dar-lhe um traço redentor

Ridick, pro­ta­go­nista de Pitch Black, é apre­sen­tado como um assas­sino impi­e­doso e cruel, em quem nin­guém pode dar-​​se ao luxo de con­fiar. No entanto, ao longo do filme, vemos que ele se afei­çoa por uma outra per­so­na­gem, uma ado­les­cente a quem passa a proteger.

Essa mani­fes­ta­ção de sen­si­bi­li­dade – uma pequena falha na sua cou­raça ini­cial – permite-​​nos vis­lum­brar uma parte da sua per­so­na­li­dade com a qual pode­mos sim­pa­ti­zar. Basta essa pequena mudança para o tor­nar um per­so­na­gem que que­re­mos acom­pa­nhar e a quem dese­ja­mos o sucesso.

Dar-lhe antagonistas ainda piores do que ele

Tra­vis Bic­kle, o pro­ta­go­nista do clás­sico Taxi Dri­ver, é o con­su­mado anti-​​herói: um taxista incom­pre­en­sí­vel, con­tra­di­tó­rio, anti-​​social, com com­por­ta­men­tos no limiar da psicopatia.

A solu­ção que Paul Sch­ra­der encon­trou para nos apro­xi­mar de um pro­ta­go­nista tão nega­tivo foi arranjar-​​lhe adver­sá­rios muito pio­res do que ele: um bando de pro­xe­ne­tas que explo­ram sexu­al­mente uma cri­ança, forçando-​​a à prostituição.

Assim, no clí­max do filme, o que nou­tras cir­cuns­tân­cias seria um sim­ples banho de san­gue, converte-​​se numa lição de jus­tiça apli­cada por um anjo exter­mi­na­dor com quem nos con­se­gui­mos identificar.

Conclusão

Estas qua­tro téc­ni­cas podem ser com­bi­na­das para uma efi­cá­cia ainda maior. Em A Parte dos Anjos, por exem­plo, Rob­bie faz o pleno com as quatro:

  • Jus­ti­fi­ca­ções – a sua ori­gem miserável;
  • Um motivo nobre – garan­tir o futuro do filho recém-​​nascido;
  • Um traço reden­tor – é fiel aos amigos;
  • Adver­sá­rios pio­res do que ele – mili­o­ná­rios ame­ri­ca­nos tão fúteis que estão dis­pos­tos a pagar milhões por um bar­ril de whisky velho.

No caso de Rob­bie, esta con­jun­ção das qua­tro téc­ni­cas justificava-​​se devido ao tom do filme, uma comé­dia semi-​​dramática com pre­o­cu­pa­ções soci­ais mas tam­bém de entretenimento.

Nou­tros casos não será neces­sá­rio, ou sequer con­ve­ni­ente, exa­ge­rar tanto nos tra­ços de sim­pa­tia. Mas usar pelo menos uma des­tas téc­ni­cas vai com cer­teza ajudar-​​nos a criar anti-​​heróis mais facil­mente “digeríveis”.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

2 comentários… add one

  • Moisés César Reis 08/06/2013, 14:11

    Eu em breve apresentarei o roteiro do meu primeiro filme O PARADOXO DO AMOR para uma grande produtora nacional, quanto eu posso vir a receber e caso se torne um mega sucesso de bilheteria, ganho uma porcentagem?

    • João Nunes 09/06/2013, 10:30

      Tudo dependerá do contrato que conseguir negociar com a produtora. O contrato será tanto melhor quanto mais interessados eles estiverem e menos ansioso por vender você estiver.

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