Dicas de escrita de guião do Frenesi 2013 – segunda semana

O FrenesiDeEscrita 2013 chega hoje ao fim da segunda semana. Os 67 participantes estão envolvidos de corpo e alma e eu continuo  tentar motivá-los enviando dicas de escrita de guião todos os dias.

O artigo de hoje reúne as dicas que escrevi esta semana.

DICA #6

Já tem a sua escaleta?

"Quando me sento para escrever já tenho uma lista de todas as cenas, o que acontece em cada cena, e quantas páginas prevejo que cada cena vai ocupar." – Paul Schrader (Taxi Driver, Raging Bull)

Há dois tipos de escritores: os que planificam a estória antes de escrever e os que partem à descoberta da estória conforme vão escrevendo.

Um dos caminhos não é necessariamente melhor do que o outro; o que funciona para um escritor, funciona – e ponto final.

Os guionistas profissionais, contudo, têm grande vantagem em pertencer ao primeiro grupo.

Em primeiro lugar, porque muitas vezes os seus trabalhos são encomendas, e os produtores querem sempre ver um tratamento antes de se comprometerem a encomendar o guião.

Depois, porque um guião tem uma dimensão limitada de mais ou menos 90 a 120 páginas. É muito mais fácil chegar ao fim dentro desses limites tendo feito um plano de trabalho antes.

Para o guionista esse plano de trabalho é a escaleta.

Uma escaleta é uma lista dos principais momentos de uma estória, ou seja, dos eventos dramáticas que impulsionam a estória para frente ou mudam o seu rumo bruscamente.

Não é preciso escrever uma linha da escaleta para cada cena, apenas para cada evento dramático. Um determinado evento resumido numa linha da escaleta – João decide criar o FrenesiDeEscrita – pode ser dividido no guião em várias cenas – João lê a notícia de que não vai haver ScriptFrenzy; João discute o assunto com um amigo guionista; João toma duche pensativo; João senta-se ao computador e escreve artigo anunciando o FrenesiDeEscrita.

Se faz parte dos seus planos escrever uma escaleta comece por definir os principais eventos dramáticos da sua estória.

Por exemplo:

  • o mundo inicial do protagonista;
  • o incidente que perturba a sua estabilidade;
  • o momento em que o protagonista se decide tomar a inciativa;
  • uma grande reviravolta que acontecerá no meio da estória;
  • o momento negro em que o protagonista quase desiste;
  • a sua decisão de dar o tudo por tudo;
  • o confronto final com o seu antagonista;
  • e o fim da sua estória.

Com isso já terá oito eventos dramáticos, e um esboço de estrutura para a sua estória. Agora só falta encher os espaços vazios entre uns e outros.

Para um filme de longa metragem deve contar com cerca de quarenta eventos dramáticos.

DICA #7

Qual o Género do seu filme?

Desde o tempo de Aristótles que se classificam as obras de ficção por géneros. No caso do Ari, os géneros eram o Épico, a Tragédia e a Comédia, que tinham definições algo diferentes das que usamos hoje.

Nos nossos dias a maior parte das obras de ficção, especialmente os filmes, também encaixam em géneros.

A classificação destes varia com os autores, mas alguns são facilmente reconhecíveis e consensuais: o Drama, a Comédia, a Comédia Romântica, a Aventura, o Terror, o Thriller, o Western, a Fantasia, a Ficção Científica, o Filme de Época, o Filme de Detectives, etc.

Há também subgéneros que se afirmam com alguma autonomia em certos períodos: dentro do Terror, por exemplo, podemos identificar os subgéneros de Zombies, de Vampiros, de Fantasmas, de Possessões Demoníacas, de Gore, etc.

Os géneros são importantes porque carregam consigo uma série de convenções bem estabelecidas que correspondem a certas expectativas das audiências.

É preciso conhecer as convenções dos géneros para as respeitar, ou desrespeitar intencionalmente.

Por exemplo, durante muito tempo os zombies andavam devagar e de braços estendidos; nos filmes mais recentes temos assistido a uma vaga de zombies corredores. Antigamente eram mortos-vivos ressuscitados por algum fenómeno excepcional; hoje são pessoas comuns infetadas por vírus altamente contagiosos.

Também é interessante conhecer bem as convenções dos géneros para os poder combinar entre si. Recentemente temos assistido a combinações estranhas, recebidas com maior ou menor sucesso: western+ficção científica = Cowboys & Aliens; vampiros+ romântico= Crepúsculo; histórico+vampiros= Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, etc.

Há ainda uma terceira possibilidade muito interessante: escrever o guião jogando com as convenções e as expetativas associadas ao género, para as subverter. É o caso de filmes de sucesso como O Sexto Sentido, Scream ou A Casa na Floresta, e de um monte de comédias burras, como os Scary Movies e congéneres.

Se o seu filme encaixa dentro de um género – o Thriller de Psicopatas, por exemplo -, é importante ver as obras mais importantes desse género antes de começar a escrever.

Vê-las e estudá-las com atenção e respeito, não para copiar, mas para ter a certeza de que não defraudará desnecessariamente as expectativas dos seus espectadores.

DICA #8

Qual o Tema do seu filme?

O Tema é provavelmente o mais mal entendido elemento do universo de uma estória. No entanto é também um dos mais importantes.

O que é, então, o Tema de uma estória? Talvez seja mais fácil começar por dizer o que o Tema não é.

Em primeiro lugar, não é o assunto explícito da estória, a sua temática. O Tema dos Salteadores da Arca Perdida, a existir um, não é a luta contra os Nazis. O Tema de O Padrinho não é a luta das famílias da Mafia pelo poder.

Não é, também, a mensagem da estória, embora esteja mais próximo disso. Samuel Goldwin, um famoso chefe de estúdio americano, gostava de dizer, "Se querem enviar uma mensagem vão aos Correios". O Tema é mais subtil do que a mensagem explícita que se possa tirar de um filme.

O Tema não tem a mesma importância em todos os tipos de filme. Costuma ter mais peso em filmes dramáticos, que tocam questões morais e éticas importantes, e menos relevância nos filmes de aventura e fantasia.

Finalmente, o Tema não é a premissa do filme. Normalmente até começamos a escrever sem ter uma ideia clara dos componentes temáticos do guião. Estes vão surgindo naturalmente no decurso da montagem da estória, da relação que se vai construindo entre os personagens e o enredo.

Para muitos autores, o Tema é um conceito moral, ético ou filosófico que o filme implicitamente discute. Nesse sentido, os Temas dos filmes acima mencionados talvez fossem a importância do indivíduo, nos Salteadores, e a primazia da lealdade no Padrinho.

Obviamente, estas interpretações serão sempre subjetivas e refletirão tanto do intérprete como do objeto interpretado. Duas pessoas verão o mesmo filme e verão nele um Tema ou Temas diferentes, de acordo com a sua própria estrutura moral e ética.

Por isso a minha visão do Tema toma esse aspecto em consideração.

Segundo John Truby, no livro The Anatomy of Story: 22 Steps to Becoming a Master Storyteller (que neste momento está em promoção para o Kindle) "O Tema é a visão do autor de como agir no mundo. É a sua visão moral."

A minha interpretação do Tema aproxima-se desta: O Tema é a razão verdadeira e profunda porque um autor se interessa por uma determinada estória e não por outras. É a projeção da visão de mundo do autor na sua estória.

Neste sentido o Tema é sempre uma opção inconsciente que tomamos no momento em que nos apaixonamos por uma certa premissa de estória, um personagem ou uma ideia de enredo, e decididmos desenvolvê-la num guião. O processo de escrita vai limitar-se a revelá-lo, pouco a pouco, em camadas sucessivas.

Não se preocupe em encontrar já o Tema do seu guião. Mas conforme o for escrevendo esteja atento a preocupações morais e éticas que esteja a aflorar.

DICA #9

Qual o Tom do seu filme?

Aqui está outro conceito nem sempre bem entendido: o Tom de um filme. No entanto, é um conceito extremamente importante de compreender.

O Tom de um filme fica claramente definido nas primeiras páginas de um guião. A partir daí o guionista tem a responsabilidade de manter esse tom de forma consistente. Caso não o faça corre o risco de confundir e alienar a sua audiência.

Por exemplo, há filmes que misturam muito bem drama e comédia, como o Silver Linnings Playbook. Mas isso fica claro desde os primeiros minutos de exibição, e o espectador aceita sem problemas essa combinação.

Pelo contrário, um filme como Amour é quase totalmente desprovido de humor, o que os seus espectadores também entendem e aceitam sem problemas.

No entanto, se ao fim de uma hora de exibição, os autores removessem do primeiro todo o sentido de humor, ou começassem a introduzir piadas no segundo, correriam sérios riscos de perder o envolvimento que tivessem até aí conseguido com os espectadores.

O Tom faz pois parte do contrato implícito entre autores e público.

Para tornar as coisas um pouco mais concretas podemos recorrer a um pequeno gráfico.

Usando dois eixos Leve – Pesado e Realista – Fantasista obtemos quatro quadrantes nos quais podemos enquadrar praticamente todos os filmes de modelo clássico.

Em que quadrante enquadraria o seu filme?

Reflita sobre isso e certifique-se de que o mantém lá do início ao fim.

DICA #10

Você não está a escrever um guião; está a escrever um filme.

O cinema é um meio audiovisual. Quando estamos a escrever um guião temos de ter isso em conta: cinema é áudio mais visual.

O que isso significa é que temos de deixar cair todos os hábitos provenientes da literatura e privilegiar os que são específicos do meio cinema.

Muito resumidamente, e na prática, isto significa duas coisas.

Em primeiro lugar, só podemos escrever num guião aquilo que possa ser mostrado, por imagem e por som, num filme.

Parece óbvio, mas na realidade não o é. Quantos guiões já eu li em que são escritas frases como a seguinte:

Francisco olha para Sofia e recorda como ela estava linda no dia em que se conheceram.

Como é que motramos isto num filme? É impossível, a não ser que nós o tornemos explícito de outra forma. Por exemplo:

Francisco olha para Sofia.

 

FLASHBACK – INT. FESTA – NOITE (1999)

 

Sofia, dez anos mais nova, dança animadamente no centro da sala.

Francisco, encostado a uma parede, olha para ela, encantado.

Ao introduzir o flashback transformamos o recurso literário da frase inicial – uma introspecção – em algo que pode ser mostrado num filme.

Em segundo lugar, devemos sempre privilegiar as soluções visuais e auditivas específicas da linguagem cinematográfica antes de recorrer a outras. É o famoso "show, don't tell""mostra, não contes".

Por exemplo, podemos ter um personagem a contar a outro como foi difícil desativar o alarme do banco e entrar no cofre; ou podemos mostrar essa cena de grande tensão, sem um único diálogo. Qual opção acha que teria mais impacto numa sala de cinema?

Olhe para o seu guião e faça esta análise: escreveu alguma coisa que não possa ser mostrada em imagens ou sons? Escreveu alguma coisa que possa ser mostrada apenas em imagens ou sons?

Faça isso e terá um guião definitivamente mais cinematográfico.

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