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Edson Athayde: É assim que escrevo

O meu amigo de muitos anos Edson Athayde é um dos publicitários mais premiados da história de Portugal, tendo recebido mais de 300 prémios e nomeações em festivais nacionais e internacionais de publicidade (entre eles, ganhou 7 Leões em Cannes).

Em paralelo a sua carreira publicitária, é cronista regular de diversas publicações, tem 9 livros publicados, é produtor musical, foi professor de vários cursos, apresentou programas de televisão e trabalhou como especialista em marketing político em diversas campanhas.

Como se tudo isto não bastasse, resolveu experimentar a mão na escrita para cinema. E a sua primeira tentativa, o guião “Moeda de Troca”, escrita em parceria com o realizador espanhol Roger Gual, ganhou o primeiro prémio do concurso de escrita organizado e patrocinado pelo roteirista brasileiro Aguinaldo Silva.

Se isto tudo não lhe desperta o interesse para ler a entrevista que ele simpaticamente me concedeu a propósito deste último prémio, não sei o que o fará.

Edson Athayde

Como é o teu processo de escrita? És de tratamentos, escaletas, etc. ou passas de imediato à escrita?

Prefiro passar directo para escrita, sem rede, sem saber exactamente que história irei contar nem com que personagens. Sei que não é a maneira mais lógica e prática mas é como eu prefiro.

No máximo, acho relevante ter um tema geral (tipo “os ciúmes” ou “um mundo de aparências” ou “amigos de longa data” e etc) e um personagem principal.

Escrevo dez, quinze, trinta páginas assim, daí regresso ao começo e reescrevo já com uma certa direcção, com alguns personagens vinculados à história. Mas o fim não precisa ainda de existir. Escrevo cronologicamente e gosto da sensação de me supreender com o fim da história.

Quanto tempo costumas levar a escrever um guião de cinema, e a que ritmo? Mais especificamente, quanto tempo levou este guião premiado?

A primeira escrita é rápida. Uma, duas semanas. O importante é não permitir o bloqueio, nem permitir emparedar-me por um preciosismo qualquer de imagem ou linguagem.

A primeira reescrita leva também uma semana ou duas. Depois tem o que eu chamo de primeira versão, mas que já é um guião pronto e possível de ser lido por outros profissionais. Isso vem da segunda reescrita (dois ou três dias) e da escrita do final (mais ou menos uma semana).

Mais coisa, menos coisa, foi quanto demorou a ser escrito o guião premiado (embora tenha havido um intervalo de um ano entre a segunda reescrita e a escrita final).

Quer dizer que duas dessas versões chegaram para estares satisfeito?

Acho que a primeira versão já deve ser satisfatória. Uma segunda versão só para melhorar diálogos ou para limar uma ou outra cena.

Como foi o teu trabalho em parceria para escrever este guião? Como é que dividiam as tarefas entre os dois?

Eu e o Roger Gual (meu parceiro na escrita do “Moeda de Troca”, o guião premiado) temos uma grande sintonia criativa. Nem tem a ver com gostos. O Roger é mais ligado ao cinema europeu, cine de arte de culto, tem uma grande cultura de cinemateca. E, apesar de ser bom na escrita, é fundamentalmente um realizador.

Eu curto mais a narrativa clássica do cinema americano. Tive a minha fase dedicada ao cinema de culto mas a minha onda é outra. E, apesar de poder realizar, sou fundamentalmente um escritor.

Nas vezes em que trabalhamos juntos a escrever, eu e Roger estabelecemos um processo de brainstormings diários pela manhã. Depois eu seguia a escrever a partir daquilo que falamos mas que poderia até ser bem diferente pois os personagens faziam coisas que estavam combinadas, mas revelavam nos seus diálogos coisas que não sabíamos.

Em vez de nos preocuparmos com isso, conversávamos no dia seguinte a história a partir do ponto em que eu deixava pela madrugada. Nem sempre aproveitámos tudo. Às vezes jogamos páginas fora. Mas, via de regra, a coisa sempre andava algumas páginas.

Em que fases dás a ler a alguém aquilo que escreves? É a amigos, colegas, familiares — ou logo para o produtor?

Acho ler guião uma coisa muito chata. Isto de ser um filme em papel atrapalha bastante. Daí que tenho um grande pudor em pedir para alguém ler meus guiões. E isso da leitura do produtor é algo que ainda vou ter que descobrir como é.

Edson e Aguinaldo

Com o guionista Aguinaldo Silva.

Como achas que vais lidar com as notas e comentários de terceiros, produtor, realizador, leitores?

Tenho uma experiência de décadas como diretor de criação de publicitário. O que mais sei fazer é corrigir coisas, minhas e dos outros. Isso deverá ajudar no processo.

Além do mais, se pretendo fazer cinema dentro da indústria (ou para a TV) tenho que posicionar-me como um autor mas não uma prima dona. Sei bater pé para manter o que acredito ser fundamental, mas sei também corrigir aquilo que uma outra parte exige e que para mim não faz muita ou nenhuma diferença.

Qual é a tua abordagem às reescritas, que processo usas?

Durante todo o processo de escrita mantenho aceso um diálogo entre o que é acadêmico e o que é inovador ou pessoal. Digo isto, porque, é justamente por esse diálogo que a reescrita torna-se uma parte importante e viva.

Estou sempre a perguntar-me: isso é coerente? Esse personagem pode fazer isso? Pode dizer isso nesse tom? Por outro lado, será que isso não está previsível de mais? Esta cena não está aqui por mera formalidade estrutural? E, já agora, onde se nota o meu tom autoral?

Acredito ser importante não perder esse último ponto. Quero acreditar que pode ser uma qualidade que um guião meu seja diferente de um guião escrito por outra pessoa.

Onde é que costumas escrever? E quais são os teus horários/ritmos normais de escrita?

Computador, sempre. Lugares públicos, se possível (mas onde a temperatura ambiente seja boa, tenha música não muito alta, a iluminação adequada). De manhã à noite. Sem parar. Na primeira fase, nem para comer. O mergulho tem que ser total. Na última fase a coisa pode ser mais relaxada. Aí o importante é estar sempre a pensar na história.

Que apetrechos usas para escrever no computador? Que software?

Uso o Final Draft. E o Google, meu Deus. Como eu conseguia escrever antes sem o Google? Tenho uma necessidade permanente de pesquisar nomes, referências de locação, expressões idiomáticas, imagens e trechos de livros que possam servir de inspiração.

Quais seriam as condições ideais para poderes escrever o grande guião da tua vida?

Sinceramente, acho que já escrevi o “Moeda de Troca” em condições próximas das ideais (sem um prazo definido, com um parceiro de confiança, sobre um tema que me interessava, com tempo para concentrar-me na história, numa cidade linda como Barcelona, revezando a escrita entre um apartamento confortável e um café de rua que era um charme só e com internet de graça). O que eu poderia querer mais?

Para dizer a verdade, salvo uma massagem no fim de cada longa sessão de escrita, também não me lembro de mais nada para melhorar o processo.

Obrigado, Edson, e espero que encontres rapidamente um produtor interessado em trazer o “Moeda de Troca” para a tela.

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15 comentários

  • valeu, joão. gostei das perguntas. espero que as respostas tenham sido satisfatórias. quanto ao produtor interessado, acho mais complicado. parafraseando o outro: “vida é o que acontece enquanto um produtor diz que vai ler o seu guião (coisa que nunca irá fazer) e o assistente dele mandar um e-mail com uma desculpa qualquer de recusa”. :) grande abraço,

    • João Nunes 22/02/2013   Deixe uma resposta a →

      Edson, a entrevista ficou muito completa e esclarecedora. Gostei particularmente da tua reflexão sobre a “voz autoral”, que é um assunto muito rico.
      Também achei especialmente interessante o método de trabalho que descreves, que vai contra uma série de coisas que recomendo aqui no blogue: a necessidade de planeamento prévio, de conhecer bem os personagens antes de começar a escrever, de saber o fim para poder orientar tudo nesse sentido, etc.
      Pessoalmente não me consigo imaginar a escrever da maneira que descreves, começando apenas com um tema geral em mente. O que, provavelmente, quer dizer que um dia destes deveria sair da minha zona de conforto e lançar-me de cabeça num projeto assim.
      De qualquer forma, acho que os leitores gostarão de ver comprovado na prática que realmente não há regras universais de escrita; apenas o que funciona para cada autor e cada projeto.
      Abraço forte e, uma vez mais, um grande obrigado.

  • pois é, joão. acho que essa questão do método é a mais interessante e estimulante desta profissão. eu adoraria conseguir ter tudo planeado antes de escrever, mas simplesmente não é a minha. vai dar para eu escrever alguns filmes, algumas peça, alguns livros, mas não todos os possíveis. creio que que cada um deve seguir o seu jeito, o seu instinto. isso não quer dizer quebrar as regras, no que toca ao conteúdo (um turning point sempre acontecerá na hora que tiver que acontecer, nunca antes, nem depois, por exemplo) mas também significa que não posso, não devo e não quero escrever com o robert mckee a buzinar no meu ouvido quatrocentas páginas de regras de um livro. mas, é como você disse: trata-se de um tema que dá panos para manga. abração

  • Bárbara 22/02/2013   Deixe uma resposta a →

    Sou grande admiradora do trabalho do Edson Athayde, que me ajudou a espreitar e a explorar o quotidiano de outras perspetivas. Gostei imenso desta entrevista.

    Acompanho, religiosamente, a newsletter do João Nunes e pode ser que, desta vez, inspirada também nas técnicas pessoais do Edson, acabe de vez com a minha procrastinação e comece a escrever a sério!

    Votos de muitos mais sucessos para ambos!

  • Bárbara 22/02/2013   Deixe uma resposta a →

    Ah, acrescento que o meu pai escreve de forma muito idêntica à do Edson e nunca se perdeu, nem mesmo nos romances de centenas de páginas! ;)
    Começa com uma ideia, sem rede, vai escrevendo e diz que os personagens vão ganhando vida e, a partir de certa altura, já são eles que falam, agem e “fazem estória” ;)

  • Excelente entrevista! Fiquei bastante curioso em saber mais sobre o processo de criação e escrita a quatro mãos, o que para mim é tanto um objetivo, como também um desafio. Como pensar as cenas e a estrutura da história tendo dois autores com visões cinematográficas distintas? Ainda mais com uma escrita que foge às regras, formas e fórmulas repetidas à exaustão pelos manuais de roteiro, que nos ensinam a driblar a página em branco, mas nos tiram a graça do devaneio livre.

    Um grande abraço a todos!

    • João Nunes 23/02/2013   Deixe uma resposta a →
    • pois é, guilherme. se já complicado escrever sozinho, mais ainda pode se tornar numa parceria. mais uma vez, o meu caso é muito particular. a minha sintonia criativa com roger é muito grande embora sejamos criadores muito distintos. acho que a coisa funciona, por exemplo, por não haver a tentativa de dividir o trabalho numa percentagem clara de um lado e para outro. ou seja, nunca ponderamos trabalhar num esquema “eu escrevo esta cena e você escreve aquela”. até poderia pintar num caso ou noutro mas o nosso lance sempre teve mais a ver com a construção da história em si. ou você e o seu parceiro acreditam que uma co-autoria não se define pelo número de páginas escritas por ou por outro ou pelo número de vezes em que você ganha uma discussão ou a coisa irá descambar para ressentimentos e porrada. a ser assim, mais vale deixar a amizade em paz e continuar a escrever sozinho. abs e espero ver você na entrega dos prêmios no rio.

      • Guilherme Macedo 25/02/2013  

        João, muito esclarecedor o seu artigo sobre o processo de escrita coletiva. Na escrita em dupla a idéia é o filho mais frágil, podendo a qualquer momento morrer na próxima vírgula para dar lugar a outra – melhor, se a dupla estiver em excelente sintonia.

        Edson, realmente a afinação e o respeito mútuo são a alma do negócio. Entendi sobre seu processo de escrita ser livre de regras, mas ciente ao que diz respeito à dramaturgia. Eu particularmente gosto muito do modo como o McKee e o Christopher Vogler orientam o escritor sobre os elementos da narrativa para que o processo da escrita não vire um caos. Mas, como o McKee certa vez disse, mesmo tendo noção dos postulados sobre a história, ela pode virar uma sopa de clichês se o autor não tiver sensibilidade para conduzi-la.
        Nos encontramos na premiação, com certeza!

  • Alda Gonçalves 24/02/2013   Deixe uma resposta a →

    Olá, João Nunes
    Gostei imenso da entrevista e acho fantástica esta dedicação à causa da escrita para cinema. Também me parece que muitas vezes há regras a mais, mas fico sempre insegura no caminho a seguir.
    Saudações
    alda

    • João Nunes 24/02/2013   Deixe uma resposta a →

      O McKee (que o Edson critica implicitamente na entrevista) faz uma distinção interessante no seu livro Story, entre “regras” – que são preceitos que terão de ser seguidos e obedecidos – e “princípios” – que são práticas comuns que o tempo e a experiência têm validado.
      O que ele apresenta e defende no livro são esses “princípios”, e não as supostas “regras”, que também critica. Todo o guionista tem vantagem em estudar os taisprincípios – coisas como o inciting incident, os pontos de viragem, a necessidade de conflito, etc -, para os poder respeitar ou desviar-se deles conscientemente e com conhecimento de causa.

  • não há nada como uma abrir uma caixa de pandora: nunca sabemos direito o que irá sair lá de dentro. afirmei uma série de coisas relacionadas ao meu modo de escrever ficção (seja para cinema, para livros, teatro, etc) mas, na vontade de ser sintético, acredito ter sido impreciso numas coisas. a principal é que tento ser um narrador clássico. logo, acredito, piamente, que as histórias tem que ter começo, meio e fim; que os personagens principais têm que passar por conflitos que os vão redefinir; que, como os dizem os gregos, drama significa ação. ou seja, a minha base de trabalho em nada difere dos princípios de quem percebe do riscado. fui estudar escrita de roteiro em los angeles (ou seja, dentro da meca da indústria) justamente por acreditar que quem aprende as peças que compõe uma boa narrativa tem meio caminhado andado para escrever uma boa história. posto isto, daí a confusão, tem a minha maneira particular de escrever. posso começar sem saber para onde vou, mas tenho sempre em mente que a história tem que ir para algum lugar. posso saber muito pouco do meu personagem principal, mas tenho que saber a sua motivação principal ou o evento que irá modificar a sua vida ou as características que fazem dele uma pessoa interessante. o meu método não passa por começar a escrever a espera que o espírito santo conceda-me uma história. passa apenas por escrever melhor sem um plano de voo completamente definido, com o roteiro já todo descrito em cenas a espera de diálogos. por favor, não queiram entender isso como um manifesto anti-regras. falou? na paz? :)

  • Jorge Ferreira 08/04/2013   Deixe uma resposta a →

    Parabéns Edson,

    Você poderia nos contar a sinopse do Moeda de troca?

    Tenho particular interesse em ver o tipo de abordagem usada pelo roteirista e compara-la com outros roteiros de mesma temática.

    • João Nunes 09/04/2013   Deixe uma resposta a →

      O pedido fica feito, se o Edson achar conveniente responderá.
      Seria até superinteressante se ele divulgasse o próprio guião, não é?
      Mas como se trata de um original ainda não produzido, e com a autoria partilhada, isso será muito pouco provável.

      • edson athayde 12/04/2013  

        obrigdo, jorge, pelo interesse. mas divulgar a sinopse de um guião ainda inédito é uma coisa temerária. mas, quem sabe, um dia ele possa não srr mais inédito… :) abs,

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