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O que podemos aprender com... Lawrence da Arábia
lawrence da arabia

O site 9filmframes faz resu­mos visu­ais de fil­mes conhe­ci­dos, selec­ci­o­nando nove fra­mes sig­ni­fi­ca­ti­vos para con­tar a sua estó­ria por ima­gens. É um gas­ta­tempo diver­tido, mas tam­bém tem uma uti­li­dade prá­tica para nós, gui­o­nis­tas: recordar-​​nos o quanto o cinema é um meio nar­ra­tivo essen­ci­al­mente visual.

Há pou­cos dias vivi essa expe­ri­ên­cia muito inten­sa­mente ao rever em sala de cinema o Lawrence da Ará­bia. É um filme com lugar garan­tido no meu top ten pri­vado, mas nunca o tinha visto no grande écrã.

A con­clu­são foi óbvia: os per­so­na­gens de Lawrence da Ará­bia, come­çando pelo seu pro­ta­go­nista, são ricos, mul­ti­di­men­si­o­nais e bem carac­te­ri­za­dos; a trama é envol­vente e bem estru­tu­rada; os diá­lo­gos são sem­pre inte­li­gen­tes e pro­fun­dos; a banda sonora de Mau­rice Jarre é uma obra-​​prima; mas Lawrence da Ará­bia não seria o mesmo filme sem o poder imenso das ima­gens que David Lean e o seu dire­tor de foto­gra­fia, Fred­die Young, con­se­gui­ram captar.

Quem não fica com a res­pi­ra­ção cor­tada pela beleza do nas­cer do sol no deserto? Quem não recorda a mul­ti­dão de guer­rei­ros beduí­nos seguindo a som­bra de T. E. Lawrence ao longo do com­boio tom­bado? Quem não apre­cia as ima­gi­na­ti­vas tran­si­ções com que Lean faz avan­çar a estória?

O que é impor­tante con­si­de­rar, no entanto, é que solu­ções visu­ais como estas podem – e devem – já estar no guião. É da res­pon­sa­bi­li­dade do gui­o­nista – mais uma entre tan­tas – ima­gi­nar ima­gens for­tes e ines­que­cí­veis, explo­rar moti­vos visu­ais, criar metá­fo­ras vívi­das para os temas da narrativa.

Por exem­plo, a famosa tran­si­ção da chama do fós­foro para o nas­cer do sol no deserto vem des­crita no guião de Lawrence da Ará­bia, de Robert Bolt e Michael Wil­son, desta forma:

(…)

LAWRENCE deita a cabeça para trás num encan­ta­mento silencioso.

LAWRENCE

Oh, obri­gado, Dry­den. Isto vai ser divertido.

DRYDEN

Lawrence, só dois tipos de cri­a­tu­ras acham o deserto ´diver­tido´, Beduí­nos… e–

(o seu olhar vagueia pelas foto­gra­fias de figu­ras quei­ma­das pelo sol e pelos frag­men­tos de pedra)

–deu­ses. E você não é nenhuma delas. Acre­dite, para as pes­soas vul­ga­res é uma for­na­lha ardente.

DRYDEN pre­para um cigarro preto russo. LAWRENCE adianta-​​se, agarra numa caixa de fós­fo­ros e acende-​​lhe um.

LAWRENCE

(sua­ve­mente)

Não, Dry­den, vai ser divertido.

A inten­si­dade firme da sua expres­são con­tra­diz as suas palavras.

CLOSE UP. DRYDEN. Olha do fós­foro aceso nos dedos de LAWRENCE para o rosto de LAWRENCE.

DRYDEN

(amargo)

É sabido que você tem um sen­tido muito par­ti­cu­lar do que é divertido.

CLOSE UP. LAWRENCE. Sorri e leva o fós­foro aos lábios. Sopra e apaga-​​o normalmente.

DISSOLVE TO:

NASCER DO SOL NO DESERTO

É uma das mais famo­sas elip­ses visu­ais da his­tó­ria do cinema, um tour de force de rea­li­za­ção, cine­ma­to­gra­fia e mon­ta­gem. E, con­tudo, já está per­fei­ta­mente des­crita nas pági­nas do guião.

Para ser­mos total­mente hones­tos temos que reco­nhe­cer que esta ver­são do guião de Lawrence da Ará­bia que se encon­tra na inter­net é, pro­va­vel­mente, um sho­o­ting script, ou seja, um guião escrito com o envol­vi­mento do rea­li­za­dor, para efei­tos de pro­du­ção. Como tal vem cheio de indi­ca­ções de pla­nos e movi­men­tos de câmara, recur­sos que, como não me canso de repe­tir, devem ser evi­ta­das nos nos­sos guiões iniciais.

Mas uma coisa é a ten­ta­ção de nos por­mos no lugar do rea­li­za­dor, que deve ser com­ba­tida. Outra é usar­mos nos nos­sos guiões todo o poten­cial da lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fica, incluindo os seus recur­sos visu­ais, que são pre­ci­sa­mente aquilo que mais dis­tin­gue o cinema das outras artes narrativas.

Um bom exer­cí­cio, que deve­mos man­ter sem­pre em mente, é ten­tar escre­ver pri­meiro cada cena, cada evento, ape­nas recor­rendo a ima­gens. Só depois de esgo­tar­mos as pos­si­bi­li­da­des da lin­gua­gem visual deve­mos então usar outros recur­sos, nome­a­da­mente os diálogos.

É mais fácil de dizer do que de fazer, mas vai cer­ta­mente con­tri­buir para ele­var os nos­sos guiões a outro pata­mar de inte­resse artístico.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

4 comentários… add one

  • Rafael Poggi 24/05/2013, 9:19

    João, você diz:

    “…uma coisa é a ten­ta­ção de nos por­mos no lugar do rea­li­za­dor, que deve ser com­ba­tida. Outra é usar­mos nos nos­sos guiões todo o poten­cial da lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fica, incluindo os seus recur­sos visu­ais…”

    Há uma tênue linha separando esses dois recursos, não? Como saber exatamente o limite dessa linha para não transpassa-la?

    • João Nunes 24/05/2013, 12:34

      O truque, no meu entender, é não usar linguagem técnica de realização. Ou seja, evitar os termos que enchem os shooting scripts: travelling, close up, plano americano, dolly in, etc. Se conseguirmos “dirigir” o filme no guião apenas com a força das nossas descrições, estamos no bom caminho.
      Por exemplo, em vez de escrevermos

      CLOSE UP - Lágrima de suor na testa de Francisco.

      podemos escrever apenas

      Uma lágrima de suor escorre, muito lentamente, pela testa de Francisco.

      Os leitores do guião (incluindo o realizador) vão ler esta linha e visualizar a imagem naturalmente como nós a imaginamos. Daí até aparecer na tela em close up é apenas um pequeno passo.

      • Rafael Poggi 24/05/2013, 13:27

        Mas isso vai muito da interpretação do diretor que, como sabemos, geralmente têm egos infladíssimos. O ideal seria sempre estar presente nas filmagens/gravações ou no mínimo nas reuniões de decoupagem do roteiro. Não?

      • João Nunes 25/05/2013, 19:11

        A realidade é que, como guionistas, o nosso papel termina no momento em que o guião final entra em produção. Alguns realizadores gostam de envolver os guionistas noutras fases do processo, porque consideram haver vantagens nisso. Outros, pelo contrário, preferem evitar qualquer envolvimento. Tudo vai depender da relação com o realizador e das circunstâncias específicas de cada produção.
        Se quisermos garantir o nosso envolvimento e poder de decisão sobre um projeto até ao fim, a única maneira é sermos nós próprios a realizar. Cada vez mais guionistas optam por essa via – ou sonham com isso.

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