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O que podemos aprender com… "Lincoln"
Lincoln destaque

Fui ontem final­mente ver Lin­coln, o filme pro­du­zido e rea­li­zado por Ste­ven Spi­el­berg que é can­di­dato a 12 Ósca­res este ano.

Não é o melhor filme que vi recen­te­mente, posi­ção que cabe a Django Unchai­ned (seguido de perto por Zero Dark Thirty e Amour) mas é um exce­lente filme[1], com uma dire­ção sóbria e efi­caz, uma inter­pre­ta­ção ines­que­cí­vel de Daniel Day Lewis no papel prin­ci­pal, uma foto­gra­fia, dire­ção de arte e guarda roupa irre­pre­en­sí­veis e, sobre­tudo, um guião muito bem escrito pelo gui­o­nista e dra­ma­turgo Tony Kushner.

Ao refle­tir sobre o guião de Lin­coln chamaram-​​me a aten­ção três téc­ni­cas usa­das por Tony Kush­ner, que gos­ta­ria de dis­cu­tir aqui. São três pode­ro­sas fer­ra­men­tas que estão à dis­po­si­ção dos gui­o­nis­tas e que em Lin­coln são muito bem apro­vei­ta­das: a camu­fla­gem da expo­si­ção, os dile­mas e as con­ta­gens decrescentes.

Camuflar a exposição

Sem­pre que num guião pre­ci­sa­mos de pas­sar aos espec­ta­do­res infor­ma­ção neces­sá­ria para a com­pre­en­são da estó­ria, fala­mos em exposição.

A quan­ti­dade de expo­si­ção depende do filme, do tema, e do público a quem se dirige. Em Juras­sic Park, que trata de dinos­sau­ros tra­zi­dos à vida atra­vés de pes­quisa gené­tica, é pre­ciso dar mais infor­ma­ção do que, por exem­plo, numa comé­dia dra­má­tica con­tem­po­râ­nea como Juno, sobre a gra­vi­dez adolescente.

Lin­coln, enquanto filme his­tó­rico sobre um tema muito espe­cí­fico – as mano­bras polí­ti­cas que con­du­zi­ram à apro­va­ção da 13ª Emenda, que garan­tiu o fim defi­ni­tivo da escra­va­tura – neces­sita de for­ne­cer aos espec­ta­do­res bas­tante mais infor­ma­ção do que a mai­o­ria dos fil­mes. Tony Kush­ner con­se­gue fazê-​​lo com uma extra­or­di­ná­ria ele­gân­cia e eficácia.

Em pri­meiro lugar, reduz essa infor­ma­ção ao mínimo pos­sí­vel. Este é tal­vez o passo mais impor­tante para o gui­o­nista: deci­dir pre­vi­a­mente quanta e qual a infor­ma­ção neces­sá­ria e sufi­ci­ente para que o espec­ta­dor médio possa enten­der a estória.

A nossa ten­dên­cia, mui­tas vezes, é des­con­fiar da capa­ci­dade dedu­tiva do espec­ta­dor e que­rer dar mais infor­ma­ção do que a neces­sá­ria. É nor­mal­mente errado; as pes­soas apa­nham mais infor­ma­ção e com mais faci­li­dade do que imaginamos.

Em segundo lugar, Tony Kush­ner arranja sem­pre jus­ti­fi­ca­ção para for­ne­cer essa informação.

Em momento nenhum sen­ti­mos que um deter­mi­nado fato está a ser apre­sen­tado ape­nas para nosso bene­fí­cio. Há sem­pre uma razão natu­ral e cre­dí­vel para a infor­ma­ção ser mos­trada: ou surge numa dis­cus­são entre pes­soas com pon­tos de vista dife­ren­tes; ou vem num escla­re­ci­mento de um per­so­na­gem a outro que ignora cer­tos fatos; ou é ilus­trada visu­al­mente, etc.

Em ter­ceiro lugar o gui­o­nista divide essa infor­ma­ção em peque­nas doses, espa­lha­das por dife­ren­tes per­so­na­gens e cenas, e apresenta-​​a à medida das neces­si­da­des da estó­ria. Não há uma cena única em que toda a infor­ma­ção é pas­sada de uma só vez, como acon­tece, por exem­plo (e muito bem), em Juras­sic Park. Divi­dindo a expo­si­ção em doses home­o­pá­ti­cas Kush­ner torna-​​a mais dis­creta e fácil de digerir.

Final­mente, Tony Kush­ner usa muito bem a téc­nica que Black Sni­der,  no seu livro Save the Cat!, deno­mi­nou de “O Papa na Pis­cina” (Pope in the Pool).

Esta téc­nica foi bati­zada em home­na­gem a uma cena de um thril­ler em que certo gui­o­nista terá con­ver­tido um monó­tono diá­logo de expo­si­ção numa cena sur­pre­en­dente, colo­cando o Papa em fato de banho na pis­cina do Vati­cano. A ideia é que, ao incluir um ele­mento ines­pe­rado ou sur­pre­en­dente numa cena, ele­mento esse que se torna assim o foco da aten­ção, pode­mos pas­sar infor­ma­ção que, de outra forma, seria abor­re­cida ou exagerada.

Tony Kush­ner usa esta fer­ra­menta com muita efi­cá­cia na cena ini­cial de Lin­coln.

Para recor­dar o famoso dis­curso de Lin­coln em Gettys­burg serve-​​se de uma con­versa do pre­si­dente[2] com jovens mili­ta­res, negros e bran­cos, pres­tes a par­tir para a frente de bata­lha. São os pró­prios sol­da­dos que, como forma de demons­trar a sua admi­ra­ção pelo pre­si­dente, vão decla­mando as par­tes do dis­curso que memorizaram.

Nou­tra cena, para ilus­trar a impor­tân­cia cru­cial de apro­var a Emenda antes do fim da guerra, Tony Kush­ner coloca o Secre­tá­rio de Estado a inter­ro­gar, à frente de Lin­coln, um casal que pro­cu­rara o pre­si­dente com um pedido pes­soal. Sur­pre­en­di­dos com o fato, verí­dico e real, de que Lin­coln cos­tu­mava rece­ber dire­ta­mente os seus elei­to­res, nem per­ce­be­mos a quan­ti­dade de infor­ma­ção impor­tante que nos está a ser pas­sada na cena.

Tony Kush­ner fá-​​lo tam­bém, por exem­plo, mos­trando o fas­cí­nio do filho mais novo de Lin­coln por uma série de foto­gra­fias que mos­tram cri­an­ças negras escra­vas, e os pre­ços por que foram ven­di­das. As dúvi­das que estas ima­gens revol­tan­tes sus­ci­tam na mente inqui­eta do garoto pas­sam tam­bém a ser as nos­sas dúvi­das e inquietações.

Fá-​​lo ainda, e muito bem, em todas as cenas no Con­gresso, em que esta­mos tão fas­ci­na­dos com os deba­tes ace­sos entre aque­les cava­lhei­ros bar­ri­gu­dos, bar­bu­dos e cheios de defei­tos que vamos absor­vendo sem hesi­tar toda a infor­ma­ção que nos vai sendo fornecida.

Final­mente, fá-​​lo atra­vés das dis­cus­sões ínti­mas do casal Lin­coln (grande papel de Sally Field) em que somos con­vi­da­dos a tes­te­mu­nhar o lado humano, pes­soal, frá­gil e ator­men­tado de uma grande figura histórica.

É o caso, exem­plar, da ter­rí­vel dis­cus­são sobre o alis­ta­mento do filho no Exér­cito, em que ecoa todo o fra­gor da Guerra Civil, e é apre­sen­tado cla­ra­mente o tema do filme: a neces­si­dade de fazer esco­lhas difí­ceis e de saber viver com as suas consequências.

Dilemas

É pre­ci­sa­mente este tema do filme que serve para ilus­trar a segunda fer­ra­menta dra­má­tica usada por Tony Kush­ner no guião.

Como já referi amiúde, na escrita para cinema os per­so­na­gens devem ser defi­ni­dos pelas suas ações, pelo que fazem e dizem con­cre­ta­mente. A aná­lise intros­pe­tiva das per­so­na­li­da­des está fora do âmbito da lin­gua­gem audi­o­vi­sual, que depende do que é visto e ouvido, do que pode ser mos­trado na tela, da rela­ção da pes­soa com o seu ambi­ente e circunstâncias.

Nor­mal­mente as ações dos per­so­na­gens são resul­tado das esco­lhas que fazem face às situ­a­ções com que são con­fron­ta­dos. Perante a mesma situ­a­ção per­so­na­gens dife­ren­tes rea­gem de manei­ras dife­ren­tes, mos­trando exa­ta­mente quem são.

Dessa forma, uma das manei­ras de defi­nir a per­so­na­li­dade dos nos­sos per­so­na­gens é atra­vés da cri­a­ção de situ­a­ções que os obri­guem a fazer esco­lhas. E isso será tanto mais efi­caz quanto mais difí­ceis forem essas escolhas.

Quando, em vez de esco­lhas, os per­so­na­gens são con­fron­ta­dos com dile­mas, o seu cará­ter é tes­tado e reve­lado com mais nitidez.

Numa esco­lha nor­mal um per­so­na­gem é obri­gado a optar entre uma linha de ação cor­reta, mas difí­cil e com con­sequên­cias impre­vi­sí­veis, e uma linha de ação incor­reta, mas nor­mal­mente mais fácil e ten­ta­dora. O drama, neste caso, não vem do sen­tido da esco­lha mas das difi­cul­da­des que sabe­mos que o per­so­na­gem irá ter de enfren­tar ao fazer a boa opção.

Um dilema, pelo con­trá­rio, é uma situ­a­ção em que o per­so­na­gem tem de esco­lher entre duas linhas de ação igual­mente váli­das e meri­tó­rias, igual­mente difí­ceis, mas que são mutu­a­mente exclu­si­vas; ao optar por uma será obri­gado a abdi­car da outra.

É pre­ci­sa­mente esta noção da perda ine­vi­tá­vel que dá um enorme peso emo­ci­o­nal à deci­são des­ses per­so­na­gens, reve­lando com muito maior pre­ci­são a sua ver­da­deira natureza.

Em Lin­coln o pro­ta­go­nista é colo­cado, no 3º ato, já a cami­nho do clí­max da estó­ria, face a um dilema com enor­mes con­sequên­cias mate­ri­ais e morais: se acei­tar a pro­posta de paz dos emis­sá­rios do Sul con­fe­de­rado pode ter­mi­nar de ime­di­ato a guerra mas perde a opor­tu­ni­dade de apro­var a 13ª Emenda; se, pelo con­trá­rio, optar por atra­sar a pro­posta de paz, tem a pos­si­bi­li­dade de apro­var a Emenda cons­ti­tu­ci­o­nal, mas à custa do pro­lon­ga­mento da guerra e da pre­vi­sí­vel morte de mui­tos soldados.

Para acen­tuar ainda mais o peso deste dilema, Tony Kush­ner esco­lhe esse pre­ciso momento da estó­ria para fazer o filho mais velho de Lin­coln alistar-​​se no Exér­cito, con­tra a von­tade dos pais. Isso faz dele uma das poten­ci­ais víti­mas do pro­lon­ga­mento do con­flito e aumenta expo­nen­ci­al­mente a difi­cul­dade da esco­lha de Lincoln.

Gra­ças a esta fer­ra­menta, muito bem uti­li­zada por Tony Kush­ner, sen­ti­mos como se fosse nossa a divi­são íntima do pre­si­dente enquanto tenta pesar os prós e os con­tras de cada opção, num jogo, polí­tico e emo­ci­o­nal, de equi­lí­brios no fio da nava­lha. E esta ten­são é man­tida ape­sar de saber­mos, das aulas de His­tó­ria, que ele optou por pro­mul­gar o fim da escravatura.

Tony Kush­ner vai ainda um passo mais além na explo­ra­ção do dilema que criou.

Mostra-​​nos as ter­rí­veis con­sequên­cias da esco­lha de Lin­coln numa cena pode­ro­sís­sima em que o pre­si­dente per­corre um campo de bata­lha lite­ral­mente atu­lhado de cadá­ve­res de sol­da­dos dos dois exér­ci­tos, víti­mas de uma bata­lha que ele pro­va­vel­mente pode­ria ter evi­tado se tivesse optado por outro caminho.

A vida é assim mesmo, feita de esco­lhas difí­ceis. Em Lin­coln Tony Kush­ner deixa bem claro que, ao fazer a sua opção, o pro­ta­go­nista garan­tiu um lugar na His­tó­ria mas, segu­ra­mente, per­deu a pos­si­bi­li­dade de vol­tar a ter uma noite de sono tranquilo.

Lincoln visita um local de batalha

Contagens decrescentes

O drama, como já referi em arti­gos ante­ri­o­res, nasce dos con­fli­tos e sur­pre­sas que sur­gem a um pro­ta­go­nista no seu cami­nho para uma deter­mi­nada meta de grande importância.

A força dra­má­tica de um filme como Lin­coln nasce do cho­que do pro­ta­go­nista, obce­cado com um obje­tivo tão cru­cial como a abo­li­ção da escra­va­tura, com todos os obs­tá­cu­los – exter­nos e inter­nos – que entra­vam o seu percurso.

Uma maneira de ampli­fi­car o drama é colo­car datas ou horá­rios – limi­tes cla­ros e ines­ca­pá­veis – para a pos­si­bi­li­dade do pro­ta­go­nista alcan­çar o seu obje­tivo. Não basta ele que­rer fazer algo; tem de o fazer antes de um deter­mi­nado prazo.

Tony Kush­ner usa esta téc­nica com mes­tria em Lin­coln.

Para come­çar é o pró­prio pro­ta­go­nista que dá iní­cio à con­ta­gem decres­cente, mar­cando uma data para a vota­ção da 13ª Emenda no Con­gresso. Uma data muito pró­xima, por­que ele sabe que o fim da guerra reti­rará urgên­cia ao tema e segu­ra­mente impe­dirá a apro­va­ção da Emenda.

A par­tir daí entra­mos numa cor­rida contra-​​relógio em que os ali­a­dos de Lin­coln se esfal­fam para obter (por meios nem sem­pre dig­ni­fi­can­tes) os votos neces­sá­rios para a vitó­ria da sua proposta.

Mas Kush­ner tem o cui­dado de ir sem­pre aumen­tando a pres­são do tempo.

Por exem­plo, dá um grande des­ta­que ao assalto final ao mais impor­tante porto con­fe­de­rado, que poderá sig­ni­fi­car o fim rápido da guerra; coloca um impor­tante ali­ado de Lin­coln a cobrar-​​lhe, em troca do apoio da sua fação, o iní­cio das con­ver­sa­ções de paz com os sulis­tas, que tam­bém poderá ante­ci­par o armis­tí­cio; cria todo um enredo secun­dá­rio com o envio de uma dele­ga­ção dos Con­fe­de­ra­dos que vem dis­cu­tir o fim da guerra, levando os adver­sá­rios de Lin­coln a pro­por o adi­a­mento da vota­ção; etc.

Cada situ­a­ção aperta mais o cerco ao pre­si­dente, torna mais urgente a sua ati­vi­dade; quase sen­ti­mos o ar a faltar-​​lhe.

A pas­sa­gem do tempo vai sendo cla­ra­mente indi­cada por legen­das: “Trinta dias para a vota­ção”, “Onze dias para a vota­ção”, “Qua­tro dias para a vota­ção”, “Dia da vota­ção”. É uma angus­ti­ante cor­rida con­tra o tempo, em que o pro­ta­go­nista está sem­pre a um passo de falhar a sua missão.

Em para­lelo Kush­ner desen­volve uma outra con­ta­gem decres­cente: a do número de con­gres­sis­tas que falta ali­ciar para con­se­guir os dois ter­ços neces­sá­rios para a apro­va­ção da Emenda. Esta con­ta­gem decres­cente tem depois um reflexo simé­trico na longa con­ta­bi­li­za­ção dos votos a favor e con­tra, a que vamos assis­tindo em diver­sos cenários.

Conclusão

Lin­coln é um forte can­di­dato aos Ósca­res deste ano, e não me sur­pre­en­de­ria que Tony Kush­ner levasse para casa a esta­tu­eta de Melhor Argu­mento Adap­tado. Além da mes­tria demons­trada no uso das fer­ra­men­tas que referi o seu guião é um belís­simo estudo de per­so­na­li­da­des e um dos melho­res exem­plos recen­tes da escrita de diá­lo­gos cre­dí­veis de época.

Se qui­ser estu­dar mais deta­lha­da­mente o guião de Lin­coln apro­veite por­que a Dre­amWorks está a disponibilizá-​​lo na net para consulta.

Pode bai­xar aqui o guião de Lin­coln, escrito por Tony Kush­ner, base­ado par­ci­al­mente no livro Team of Rivals: The Poli­ti­cal Genius of Abraham Lin­coln de Doris Kearns Goodwin.

Apro­veite e baixe tam­bém o guião de Django Unchai­ned, filme de Quen­tin Taran­tino que apre­senta uma pers­pe­tiva com­ple­men­tar sobre a escra­va­tura, e que poderá muito bem ser o ven­ce­dor do Oscar de Melhor Argu­mento Original.

Leia os dois com aten­ção e, no seu pró­ximo guião, não se esqueça de apro­vei­tar as fer­ra­men­tas dra­má­ti­cas que os dois auto­res tão bem apli­cam: camu­fla­gem de expo­si­ção, dile­mas e con­ta­gens decrescentes.

Notas de Rodapé

  1. Esta tem­po­rada de cinema está a revelar-​​se invul­gar­mente boa[]
  2. Em que este até está sen­tado numa posi­ção ele­vada seme­lhante à sua está­tua no Memo­rial de Lin­coln, em Washing­ton.[]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

14 comentários… add one

  • Tiago 11/02/2013, 12:43

    Na minha modesta opinião, é um filme pouco interessante, mesmo tendo aplicadas as técnicas aqui mencionadas, e o mais fraco de todos os nomeados ao Óscar de melhor filme este ano. Falta drama e acção, para além de estar cheio de subenredos mal explorados e personagens unidimensionais. Parece-me um filme mais adequado ao patriotismo americano que ao cinéfilo comum, à procura de uma boa história.

    • João Nunes 11/02/2013, 13:02

      Por acaso não concordo nada consigo.
      Como referi, não é o melhor filme a concurso, mas não deixa de ser um belo filme. E nem o acho particularmente “patriótico”, pois não foge às questões delicadas: a corrupção do sistema e a compra de votos, os compromissos que foram necessários para obter resultados, o racismo generalizado da sociedade, os resultados devastadores da guerra civil, etc.

      • Tiago 11/02/2013, 14:54

        São opiniões. A meu ver, o filme revela um óbvio apelo ao patriotismo americano, apresentando um dos seus maiores símbolos como um personagem quase imaculado: mais sábio, mais sensível, melhor orador, mais racional, mais inteligente que qualquer outro…

        É um filme que convenientemente passa por cima de algumas polémicas relacionadas com Lincoln, nomeadamente a infidelidade (acredita-se que teve filhos com várias das suas criadas negras e que até foi essa a principal razão que o aproximou da causa central do filme).

        Claro que tudo isso seria desculpável se a história fosse mais envolvente, se houvesse mais acção, se não fossem quase 160 minutos de pormenores técnicos e política polvilhadas com umas quantas cenas de Lincoln em família (que pouco interessam para o resultado final).

        Já para nem falar que, pelo menos a meu ver, «Django Unchained» consegue ser muito mais eficaz que «Lincoln» na sua mensagem racial.

        Também me faz uma certa confusão, confesso, que o filme se anuncie como uma biografia de Lincoln quando, na verdade, é um relato da aprovação da 13.ª emenda, um breve episódio na vida do líder americano (que, já agora, é interpretado na perfeição por Daniel Day-Lewis). Faço a mesma crítica a «Hitchcock» que, até pelo título, dá a entender que seja uma biografia do realizador quando, na verdade, se centra apenas na realização de «Psycho».

        Mas é como comecei por dizer: são opiniões.

      • João Nunes 11/02/2013, 19:32

        Para dizer a verdade acho que a opção de focar um filme num determinado período crucial da vida de uma personalidade pode fazer todo o sentido. Estou muito curioso quanto ao Hitchcock, que irei ver logo que possível.

  • Rafael Poggi 15/02/2013, 6:56

    joão, assim como você, eu simplesmente adorei o filme, por todos os seus aspectos: direção de arte, figurino (guarda-roupa), fotografia, direção e sobretudo pelo seu roteiro. Essa sua análise do roteiro de Lincoln é uma aula maravilhosa e agradeço por ter compartilhado conosco. Ao contrário do colega acima, eu não achei o filme em nada patriótico (como outros filmes hollywoodianos). Ao contrário, ele é uma aula de história (floreada, claro) nada enfadonha, que todos deveriam assistir.

    • João Nunes 16/02/2013, 11:12

      Li algumas coisas sobre o trabalho do guionista Tony Kushner para conseguir chegar a este magnífico resultado, e é impressionante. Só a lista de livros que ele leu, ao longo de vários anos, sobre Lincoln e o período da guerra Civil, é suficiente para fazer sonhar todos aqueles que, como tantas vezes acontece, temos apenas um ou dois meses para escrever um guião.

  • Antunes 16/02/2013, 0:56

    O seu artigo é brilhante, o filme já nem tanto. Mas é muito bem realizado e não parece ser o típico filme do Spi­el­berg. Já acompanho o seu blog há um bom tempo e gostaria de saber se tens algum livro publicado.

    • João Nunes 16/02/2013, 11:08

      Obrigado. Não tenho nenhum livro publicado, mas tenho planos ;)

  • Jorge Vaz Nande 17/02/2013, 13:46

    Belo artigo, João. Ando a escrever um longa para a minha produtora e iluminaste-me um caminho. Abraço!

    • João Nunes 17/02/2013, 13:58

      Boa! Quero direitos, depois ;) Abraço, amigo.

  • Dinis 20/02/2013, 16:13

    Concordo com o Tiago, parece me um filme sobre um ídolo americano dirigido a americanos, carga dramática um pouca fraca, com uma monotonia característica de um documentário histórico. O mesmo não se verifica em “Django Unchai­ned”. Tarantino conseguiu juntar de uma forma única drama, comédia e aventura abordando a temática da escravatura sem fugir à realidade histórica.

    Já agora, deixo a sugestão para que o João dê continuidade a este tipo de publicações sobre a análise de filmes da actualidade ;)

  • Fernanda 20/02/2013, 20:52

    Joao, o link para dowload de Licoln nao esta funcionando! :’0

    • João Nunes 21/02/2013, 14:51

      Isso acontece. Os estúdios disponibilizam os guiões, mas depois retiram-nos quando lhes apetece. De qualquer forma, experimente este link: http://screenplayexplorer.com/wp-content/scripts/lincoln.pdf

      • Fernanda 22/02/2013, 10:08

        Obrigada Joao, consegui baixar. Que alegria!! Vou assisti-lo com o roteiro na mao.Suas dicas foram incriveis. Django livre tb. É uma obra de arte!

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