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Perguntas & Respostas: como escrever uma cena que se passa no interior e exterior
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Gos­ta­ria de saber como des­cre­ver uma ação com um carro em movi­mento inter­ca­lando a visão de quem está den­tro do veí­culo com cenas exter­nas, ou com a visão de fora — Giovana

Gio­vana, o tipo de cena que des­creve, em que a acção decorre simul­ta­ne­a­mente em dois locais con­tí­guos, inte­rior e exte­rior, é nor­mal­mente des­crita recor­rendo a um tipo espe­cial de cabe­ça­lho em que são cobi­na­das as duas localizações.

Esse cabe­ça­lho pode ser usado no caso que refere, de um veí­culo no seu ambi­ente – um carro na estrada, um barco no mar, um avião no céu –  ou em outras situ­a­ções aná­lo­gas – uma casa e o seu jar­dim; uma cela de pri­são e o cor­re­dor da pri­são; o inte­rior da cabeça mecâ­nica de um robot gigante Jae­ger, e a cidade onde ele com­bate com um ter­rí­vel Kai­jim; etc.

As com­bi­na­ções pos­sí­veis são infi­ni­tas, mas a solu­ção terá sem­pre alguns aspec­tos em comum. Veja­mos quais são.

Esse cabe­ça­lho par­ti­cu­lar deve ser com­posto pelos seguin­tes elementos:

  • A indi­ca­ção espe­cial EXT./INT. ou INT./EXT. – indi­cando que a cena se passa simul­ta­ne­a­mente num local exte­rior e  interior;
  • A indi­ca­ção espe­cial LOCAL EXTERIOR/​LOCAL INTERIOR – indi­cando a loca­li­za­ção da cena exte­rior e a loca­li­za­ção da inte­rior con­tí­guas. Por exem­plo, RUA/​CARRO, ou CASA/​JARDIM, ou LANCHA/​RIO TEJO, etc
  • A indi­ca­ção nor­mal DIA ou NOITE – como em qual­quer outro cabeçalho.

Com­bi­nando os três ele­men­tos tere­mos um Cabe­ça­lho de cena que será assim:

EXT./INT. AUTOESTRADA/​PORSCHE 911 – NOITE

ou

INT./EXT. CASA DE PEDRO/​JARDIM – NOITE

Por uma ques­tão de coe­rên­cia, se escre­ve­re­mos EXT./INT. deve­re­mos indi­car pri­meiro o local exte­rior, e vice-​​versa.

A este cabe­ça­lho segue-​​se a des­cri­ção das situ­a­ções, acção e diá­lo­gos, sal­tando do local exte­rior para o inte­rior, con­forme as neces­si­da­des da narrativa.

Se for neces­sá­rio acres­cen­tar algum deta­lhe ou infor­ma­ção adi­ci­o­nal, podem ser usa­dos Cabe­ça­lhos Secun­dá­rios, como em qual­quer outra des­cri­ção de cena.

Veja­mos um exemplo:

EXT./INT. AUTOESTRADA/​PORSCHE 911 – NOITE

O Pors­che de Jorge entra na auto­es­trada já em grande velo­ci­dade. Ultra­passa um camião TIR e zigue­za­gueia entre vários car­ros que, com­pa­ra­dos com ele, pare­cem estar quase parados.

Pedro, no lugar do pas­sa­geiro, não con­se­gue tirar os olhos da estrada. Está simul­ta­ne­a­mente fas­ci­nado e aterrorizado.

Jorge, pelo con­trá­rio, é a ima­gem da des­con­trac­ção e con­fi­ança. Nem mesmo quando…

…um SUV fami­liar muda ines­pe­ra­da­mente de faixa e se atra­vessa à sua frente…

…a sua expres­são se altera. Limita-​​se a redu­zir a mudança e girar com segu­rança o volante, ultra­pas­sando o SUV pela direita.

PEDRO

Essa foi quase.

JORGE

Ainda não viste nada.

Pisa o ace­le­ra­dor. O Pors­che lança-​​se que nem um foguetão.

Como se pode ver, na forma de escre­ver esta cena a única coisa dife­rente é o cabe­ça­lho. Tudo o resto escreve-​​se nor­mal­mente, sem­pre com a pre­o­cu­pa­ção de que se entenda bem a acção que decorre.

Para faci­li­tar o enten­di­mento pode­mos mudar de pará­grafo quando sal­ta­mos do inte­rior para o exte­rior, ou vice-​​versa, mas isso não é estri­ta­mente necessário.

drive-imagem

Para ter­mi­nar, veja­mos outro exem­plo, neste caso reti­rado do iní­cio de uma cena real do guião do filme “Drive“, cuja lei­tura reco­mendo para enten­der melhor a diver­si­dade pos­sí­vel no uso deste tipo de cabeçalhos:

INT/​EXT. IMPALA/​ALLEYWAYS/​INDUSTRIAL AREA/​DOWNTOWN – NIGHT

The armed rob­bers watch in tense silence as Dri­ver wea­ves in and out of the indus­trial alleyways with his lights swit­ched off. It’s as if he’s trying to find his way out of the maze or pro­bing to see if there’s anyone out there.

POLICE SCANNER

1 Baker 11, hea­ded south on Boyle Avenue…No sign of suspects…Repeat, no sign of suspects…

Note que neste cabe­ça­lho o autor usa a forma INT/​EXT. só com um ponto final, que é tão acei­tá­vel como a que sugiro – INT./EXT.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

3 comentários… add one

  • Anrtunes 25/07/2013, 22:43

    Esclarecedor. Este é daqueles pequenos problemas que emperram a escrita. Aqui muito bem resolvido. E depois o diretor que faça a decupagem que achar melhor.

  • Daniel 04/08/2013, 16:53

    Mas poderíamos também, além de colarmos Ext./Int., no cabeçalho, a cada mudança de um para o outro, indicarmos com um sub-cabeçalho?
    Por exemplo: ESTRADA e CARRO?
    Ou isto é completamente desnecessário e até reprovável?

    • João Nunes 06/08/2013, 8:39

      Errado não é, mas pode tornar a cena escrita muito difícil de ler. Se as descrições de acção forem bem escritas será fácil perceber o que se passa num e noutro lugar. A minha recomendação seria usar esses cabeçalhos secundários com muita moderação e apenas quando fundamental.

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