Qual a aparência de uma página de guião

João Nunes —  10/01/2013 — 5 Comments

Uma página de guião é escrita segundo um for­mato muito par­ti­cu­lar, que por vezes bara­lha os lei­to­res menos habi­tu­a­dos. Há razões para isso, e já escrevi bas­tante sobre esse tema antes. Por exem­plo, aqui, aqui, aquiaqui.

A ques­tão que gos­ta­ria de abor­dar hoje, con­tudo, é outra.

Vamos ana­li­sar não o for­mato téc­nico de uma página de guião mas antes a sua apa­rên­cia – a sua “impres­são digi­tal”, se assim pode­mos dizer.

A impressão digital de uma página de guião

Um exer­cí­cio que gosto de fazer quando estou a ler um guião é semi­cer­rar os olhos, para me abs­trair das pala­vras e ver ape­nas a ocu­pa­ção das pági­nas: o ritmo, a cadên­cia, a den­si­dade, a man­cha da escrita no papel.

Para par­ti­lhar esse exer­cí­cio fiz uma expe­ri­ên­cia: copiei pági­nas de 21 guiões, tanto de cinema como de tele­vi­são, de esti­los, épo­cas e géne­ros diferentes.

O pro­cesso de sele­ção foi com­ple­ta­mente ale­a­tó­rio. Agar­rei numa pasta onde tinha sepa­rado alguns guiões e esco­lhi os pri­mei­ros 21. Tirei cap­tu­ras de ecrã das suas pági­nas nº 21 e combinei-​​as num único documento.

Para tor­nar ainda mais abs­trata a aná­lise inverti as cores, de forma a tor­nar o fundo negro com as letras a branco, e des­fo­quei as letras. O resul­tado é um con­junto de 21 man­chas que pode ver a seguir (Cli­que aqui ou na pró­pria ima­gem para ver o docu­mento em tama­nho real).

Infografismo-aparencia do guiao

Que con­clu­sões pode­mos tirar da aná­lise des­tas “man­chas” de texto? (Nota: algu­mas pági­nas têm o texto incli­nado ou man­chas de furos por­que foram mal digi­ta­li­za­das a par­tir de cópias impressas.):

  • A “impres­são digi­tal” de um guião é clara e dis­tin­tiva – as suas pági­nas não se con­fun­dem com pági­nas de roman­ces nem de peças de teatro.
  • São sig­ni­fi­ca­ti­va­mente pare­ci­das entre si.
  • A sua carac­te­rís­tica prin­ci­pal é a pre­do­mi­nân­cia do espaço vazio e a alter­nân­cia entre as linhas mais lon­gas (cabe­ça­lhos e des­cri­ções) e as linhas mais cur­tas (diálogos).
  • Há ape­nas duas excep­ções, com duas pági­nas com­ple­ta­mente cheias de texto de descrição.
  • Pelo con­trá­rio, não há nenhuma página cheia ape­nas com diálogo.
  • Os pará­gra­fos de des­cri­ção são mai­o­ri­ta­ri­a­mente cur­tos, com duas ou três linhas ape­nas – são raros os que têm mais de qua­tro linhas.
  • Os diá­lo­gos de cada per­so­na­gem têm um ritmo mais rico e vari­ado. Pou­cos têm mais do que qua­tro ou cinco linhas, a mai­o­ria fica-​​se pelas duas ou três, com bas­tante alternância.
  • Mais impor­tante ainda: são pou­cos os casos em que há mais do que qua­tro tro­cas de diá­logo sem haver um ou dois pará­gra­fos de des­cri­ção a inter­rom­per. Pro­va­vel­mente nenhuma des­tas cenas é com pes­soas sen­ta­das numa sala a conversar.
  • Pou­cas pági­nas têm indi­ca­ções de tran­si­ções (linhas cur­tas encos­ta­das ao lado direito) ou de pla­nos (linhas cur­tas encos­ta­das à esquerda). Como já referi antes, estas indi­ca­ções estão a sair de moda e devem ser usa­das com muita moderação.
  • A indi­ca­ção dos títu­los e outra metain­for­ma­ção no topo da página varia muito. Só os núme­ros de página estão pre­sen­tes em quase todas as pági­nas, no canto supe­rior direito.

Olhe agora para as pági­nas do seu guião, semi­cer­rando os olhos.

  • A “man­cha” que está a ver é seme­lhante à dos exem­plos na imagem?
  • Os pará­gra­fos de des­cri­ção são cur­tos e inci­si­vos ou estendem-​​se indefinidamente?
  • Os diá­lo­gos têm um ritmo visual inte­res­sante ou são pesa­dos e maçudos?
  • O espaço vazio pre­do­mina ou a página parece pesada e a abar­ro­tar de informação?

Se a “impres­são digi­tal” do seu guião não per­tence à mesma espé­cie dos exem­plos aqui reu­ni­dos, está na hora de mudar alguma coisa.

Não assuste logo os poten­ci­ais lei­to­res com a pri­meira mirada que derem às suas páginas.

(Pergunta-​​bónus ;) Alguém con­se­gue des­co­brir qual des­tas pági­nas é do guião (roteiro) do filme Cidade de Deus?)

João Nunes

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João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

5 responses to Qual a aparência de uma página de guião

  1. Res­pon­dendo a sua última per­gunta, não posso ima­gi­nar qual seja o roteiro de Cidade de Deus. Qual seria e por que ?

    • João Nunes 12/01/2013 at 12:51

      Tam­bém não sei qual é. Depois de des­fo­car a ima­gem perdi a ordem deles ;)
      Acho que o que isso quer dizer é que não importa o tipo de filme ou a lín­gua em que está escrito, que a impres­são digi­tal con­ti­nua a ser semelhante.

      • Inte­res­sante… À par­tida, diria que os diá­lo­gos em por­tu­guês
        (espe­ci­al­mente o por­tu­guês de Por­tu­gal) teriam ten­dên­cia para ocu­par
        mais linhas. Agora já não estou tão certo disso. :-/

        Quanto à com­pa­ra­ção: curi­o­sa­mente, a página 21 de um dos meus guiões
        é pra­ti­ca­mente a única de entre os guiões que escrevi que cons­ti­tui uma ano­ma­lia em rela­ção à amos­tra que o João for­ne­ceu: tem ape­nas uma linha de des­cri­ção, o resto são diá­lo­gos entre três per­so­na­gens, sendo que nenhum deles excede as três linhas.

      • João Nunes 12/01/2013 at 16:32

        A esco­lha da página 21 foi ale­a­tó­ria. Decidi fazer com 21 guiões por­que 3 colu­nas de 7 ima­gens era ade­quado para a ima­gem que eu que­ria. E como o nº 21 sur­giu assim, escolhi-​​o para a amos­tra. As duas pági­nas que sai­ram da “média” eram segui­das ou ante­ce­di­das por pági­nas “nor­mais”, mas decidi man­ter o cri­té­rio.
        Não é grave que num guião algu­mas pági­nas tenham um “impres­são digi­tal” dife­rente. Pode ser com­pli­cado se todas tive­rem.
        Mesmo assim, como escrevi hoje numa res­posta direta a um lei­tor, “É claro que se o seu guião for muito bom isso não inte­ressa para nada. Se os seus diá­lo­gos fize­rem avan­çar a estó­ria e pren­de­rem o espec­ta­dor, cri­a­rem con­flito, sur­presa, ten­são dra­má­tica per­ma­nen­tes — se os seus diá­lo­gos forem bri­lhan­tes os lei­to­res não vão estar nem aí para a “impres­são digi­tal” do guião. Se um guião é bom, é bom. O resto é fan­ta­sia.

  2. É por isso que Taran­tino escreve num “papel de pão” e é con­si­de­rado um dos melho­res da atu­a­li­dade. Sou fã desse cara, pela sua escrita ágil e voraz. E acre­dite não gosto de filme vio­lento. Mas dei­xar de admirá-​​lo por causa disso seria igno­rân­cia da minha parte.

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