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Tutorial: Como escrever um guião em Fountain - segunda parte

destaque fountain artigo 2

No artigo ante­rior desta série dedi­cada à lin­gua­gem Foun­tain vimos as dez regras bási­cas que nos per­mi­tem escre­ver a maior parte dos guiões neste formato.

No artigo de hoje vamos apro­fun­dar um pouco mais a sin­taxe desta lin­gua­gem, vendo os deta­lhes da apli­ca­ção des­tas regras bási­cas e indo um pouco mais além.

A página de título

A página de título é sem­pre a pri­meira página num guião. Num docu­mento Foun­tain ela não apa­rece como uma página à parte, mas sim como um con­junto de meta­data nas pri­mei­ras linhas do docu­mento. Os pro­gra­mas de con­ver­são usam esta meta­data para gerar a página de título.

A infor­ma­ção da página de título é opci­o­nal mas, a exis­tir, tem de estar num bloco exa­ta­mente no iní­cio do docu­mento. Este bloco terá várias linhas, para os vários ele­men­tos de meta­data que o cons­ti­tuem: título, autor, etc.

Os ele­men­tos de meta­data são indi­ca­dos no for­mato “Chave: Valor da chave”.

A pri­meira parte, a Chave, é o nome do ele­mento; a segunda, o Valor, é o seu con­teúdo, que apa­re­cerá no guião convertido.

As cha­ves podem incluir espa­ços (por exem­plo “Draft date”), mas têm de ter­mi­nar em dois pon­tos (:).

Os valo­res que que­re­mos atri­buir a cada chave vêm a seguir aos dois pontos.

As prin­ci­pais cha­ves reco­nhe­ci­das pelo for­mato Foun­tain são as seguin­tes (sem­pre em inglês):

  • Title – o valor que lhe atri­buir­mos, escrevendo-​​o a seguir aos dois pon­tos, será o título do guião (por exem­plo “O Pedido”);
  • Cre­dit – o valor será o cré­dito a atri­buir (por exem­plo “Guião de” ou “Argu­mento adap­tado por”);
  • Author (ou Authors) – o valor será o nome do autor ou auto­res (por exem­plo “João Nunes” ou “Izaías Almada & João Nunes”);
  • Source – o valor será o cré­dito do mate­rial ori­gi­nal (por exem­plo “Adap­tado do romance de Fer­reira de Castro”;
  • Draft date – o valor será a data da ver­são (por exem­plo “Abril 2000”);
  • Con­tact: o valor será o con­tato do gui­o­nista ou pro­du­tora (por exem­plo “omeuemail@​gmail.​com”).

Não é obri­ga­tó­rio colo­car todos estes ele­men­tos de meta­data, mas para gerar uma página de título com­pleta é reco­men­dá­vel que pelo menos o Title, Cre­dit, Author e Con­tact sejam indicados.

Pode­mos colo­car outros pares de meta­data no for­mato “chave:valor”, para nossa infor­ma­ção pes­soal, mas não serão reco­nhe­ci­dos na con­ver­são para o for­mato guião. Por exem­plo “Registo IGAC: 12/​2000”.

Os valo­res deuma deter­mi­nada chave podem ficar na mesma linha dessa chave ou ser dis­tri­buí­dos pelas linhas seguin­tes. Neste caso deve­rão entrar depois de três espa­ços ou uma tabe­la­ção, para fica­rem cor­re­ta­mente alinhados.

Pode­mos tam­bém usar aste­ris­cos e tra­ços infe­ri­o­res para subli­nhar ou des­ta­car ele­men­tos den­tro dos valores.

No fim dos ele­men­tos introduzem-​​se dois pará­gra­fos para que seja reco­nhe­cida uma que­bra de página na conversão.

Veja­mos então um exem­plo de uma página de título escrita em Fountain:

Title: **_​A SELVA_​**
Cre­dit: Guião ori­gi­nal de
Authors: Izaías Almada & João Nunes
Source: Adap­tado do romance de Fer­reira de Cas­tro
Draft Date: Junho de 2000
Con­tact:
    omeuemail@​gmail.​com
    Tel. (+351) 1234 56789
    Morada tal e tal
Registo IGAC: 12/​2000

Na con­ver­são para o for­mato de guião estes ele­men­tos dariam ori­gem a uma página título como a seguinte:

Imagem de folha de rosto de guião

Página de título de um guião

Os elementos essenciais da linguagem Fountain

Veja­mos agora mais deta­lha­da­mente como se devem uti­li­zar os dife­ren­tes ele­men­tos de escrita de guião, de forma a cobrir os casos menos evi­den­tes de cada um deles.

Cabeçalhos

Como já vimos em arti­gos ante­ri­o­res um Cabe­ça­lho tem nor­mal­mente três ele­men­tos: a indi­ca­ção de INTe­rior ou EXTe­rior; o LOCAL onde a cena se passa: e se é no período de DIA ou de NOITE.

Por exem­plo:

EXT. CASA DE CAMPOSALA – NOITE

Em Foun­tain um Cabe­ça­lho é qual­quer linha de texto que comece por um dos ele­men­tos indi­ca­dos a seguir:

  • INT
  • EXT
  • EST
  • INT./EXT
  • INT/​EXT
  • I/​E

Uma linha de Cabe­ça­lho deve ser pre­ce­dida por pelo menos uma linha em branco e sem­pre seguida por outra linha em branco. Não é obri­ga­tó­rio ser escrita em maiús­cu­las, mas isso é reco­men­dá­vel para ser mais facil­mente iden­ti­fi­cada como Cabeçalho.

Dica avan­çada: Cabe­ça­lhos Secundários

Pode “for­çar” os pro­gra­mas de con­ver­são a reco­nhe­cer um cabe­ça­lho que não comece pelos ele­men­tos refe­ri­dos come­çando a linha com um ponto final (.).

Isto é útil, por exem­plo, para os Cabe­ça­lhos Secun­dá­rios, que não come­çam com os ele­men­tos iden­ti­fi­ca­ti­vos (INT., EXT:, etc).

Veja este exemplo:

EXT. PALÁCIOJARDIM – DIA

Os con­vi­da­dos estão espa­lha­dos pelos bem cui­da­dos jar­dins do Palácio.

.JUNTO À PISCINA

Pedro e Inês pas­seiam de mãos dadas junto à imensa piscina.

Neste exem­plo, “EXT. MANSÃOJARDIMDIA” é reco­nhe­cido auto­ma­ti­ca­mente como um cabe­ça­lho, por­que começa com EXT.. Já o cabe­ça­lho secun­dá­rio “JUNTO À PISCINA” tem de ter um ponto final (.) antes para ser iden­ti­fi­cado como tal. (Nota: se não tivesse o ponto no iní­cio da linha esta seria iden­ti­fi­cado como um Per­so­na­gem, e a linha de texto seguinte como Diálogo).

Na con­ver­são para o for­mato de guião o ponto final desa­pa­rece. A cena apa­re­cerá assim for­ma­tada corretamente:

screenshot cena 1

Se a seguir a este ponto final ini­cial não vier um cara­ter alfa­nu­mé­rico mas sim outro ponto final a linha já não será reco­nhe­cida como cabe­ça­lho. Isto per­mite come­çar uma linha de Acção com três pon­tos (…) sem cor­rer o risco de ser mal inter­pre­tada. Veja­mos o exem­plo seguinte:

Alice cai a grande velo­ci­dade pelo túnel escuro até que de repente…

INT. CAVERNA DE ALGODÃO

…aterra no chão fofo de uma enorme caverna de algodão.

Depois de con­ver­tido, ficará assim:

cena 2

Dica avan­çada: Nume­rar Cabeçalhos

Os Cabe­ça­lhos podem ser nume­ra­dos (embora não auto­ma­ti­ca­mente). São con­si­de­ra­dos núme­ros de cena quais­quer cara­te­res alfa­nu­mé­ri­cos (incluindo tra­çospon­tos) colo­ca­dos a seguir a um cabe­ça­lho, entre sím­bo­los de car­di­nal (#). Por exem­plo, todas as linhas seguin­tes são reco­nhe­ci­das como Cabe­ça­lhos numerados:

INT. CASADIA #1#

EXT. RUANOITE #23A#

INT./EXT. – CAMPODIA #110-​​B#

I/​E – ESTRADACARRODIA #44.#

e apa­re­ce­riam assim depois de convertidos:

screenshot cabeçalhos numerados

Os Cabeçalhos de estilo europeu

Nos guiões euro­peus, incluindo mui­tos por­tu­gue­ses e bra­si­lei­ros, utiliza-​​se uma con­ven­ção ligei­ra­mente dife­rente para escre­ver os Cabe­ça­lhos. Nesta con­ven­ção a indi­ca­ção DIA ou NOITE segue ime­di­a­ta­mente a seguir ao INT. ou EXT.

Um cabe­ça­lho neste estilo ficará assim:

EXT. NOITERESTAURANTE

O Foun­tain reco­nhece per­fei­ta­mente este for­mato de Cabe­ça­lho, pois os ele­men­tos essen­ci­ais não mudam: começa com EXT. ou INT., é escrito em maiús­cu­las e tem linhas vazias antes e depois.

Ação

Con­forme já vimos em outros arti­gos a seguir a um Cabe­ça­lho vêm nor­mal­mente pará­gra­fos de Ação , nos quais se des­creve o que pode ser visto e ouvido no filme.

Em Foun­tain, qual­quer pará­grafo de texto nor­mal, que não seja reco­nhe­cido como outro ele­mento (Cabe­ça­lho, Per­so­na­gem, Diá­logo…) é clas­si­fi­cado como Ação ou Des­cri­ção de cena.

A sin­taxe Foun­tain res­peita as que­bras de linha que nós intro­du­zir­mos com pará­gra­fos. Se deci­dir­mos criar cinco pará­gra­fos entre duas linhas de acção, ou só um, é assim que vai apa­re­cer na for­ma­ta­ção final. Nor­mal­mente introduzem-​​se duas que­bras de linha entre cada pará­grafo de Ação. Por exem­plo, assim:

INT. RESTAURANTE – NOITE

Um res­tau­rante médio – não parece muito caro – com a sala meio cheia.

Jaime, de olhos bai­xos, come uma mousse de cho­co­late com colhe­ra­das minús­cu­las, como se qui­sesse retar­dar o mais pos­sí­vel o seu fim.

No entanto uma des­cri­ção escrita da seguinte forma tam­bém seria correta:

O homem encosta-​​se à bei­rada do pré­dio. Olha para baixo.
Alto.
Muito alto.

Res­pira fundo, fecha os olhos e dá um passo em frente.

Dica avan­çada: Tabe­la­ção da Ação

Nos pará­gra­fos de Ação as tabe­la­ções e espa­ços ini­ci­ais tam­bém são reco­nhe­ci­dos e man­ti­dos na for­ma­ta­ção, per­mi­tindo inden­tar um pará­grafo. As tabe­la­ções são con­ver­ti­das em qua­tro espa­ços. Dessa forma pode­mos escre­ver um pará­grafo de Ação como o seguinte exemplo:

screenshot cena 3

 

Personagem

Num guião a apre­sen­ta­ção dos diá­lo­gos dos per­so­na­gens é uma com­bi­na­ção de dois ele­men­tos: os nomes dos Per­so­na­gens, e os Diá­lo­gos em si.

Em Foun­tain é con­si­de­rada um nome de Per­so­na­gem, e for­ma­tada como tal, qual­quer linha escrita intei­ra­mente em maiús­cu­las, que tenha uma linha vazia antes e uma linha de texto a seguir. No exem­plo seguinte, JAIMEANABELA são reco­nhe­ci­dos como personagens:

INT. COZINHA DE ESCRITÓRIO – DIA

Jaime está agora em frente de uma mulher, ANABELA.

JAIME
Pen­sei muito, mas é isto que eu sinto: que­res ser a minha mulher?

Ana­bela pon­dera por um instante.

ANABELA
Não.

Este tre­cho apa­re­ce­ria assim no guião:

screenshot personagens

As exten­sões acres­cen­ta­das a seguir ao nome do per­so­na­gem, como (V.O.) ou (OFF) tam­bém têm de ser escri­tas em maiúsculas.

HOMEM #1 (O.S.)
Por favor! Peço a vossa atenção!

Os nomes de per­so­na­gens têm de ter pelo menos uma letra. “Nº22” é reco­nhe­cido como per­so­na­gem, mas “22” não.

Qual­quer linha de texto que venha ime­di­a­ta­mente a seguir a um Per­so­na­gem ou Parên­te­ses é reco­nhe­cida e for­ma­tada como Diá­logo.

JAIME
Que­res casar comigo?

Não fica satis­feito com o resul­tado. Tenta de novo.

JAIME
Que­res casar comigo?

É pos­sí­vel par­tir linhas den­tro de um Diá­logo, ou incluir inten­ci­o­nal­mente linhas vazias, embora isso não seja comum. Este pro­ce­di­mento é des­crito com mais deta­lhe na sec­ção dedi­cada às Que­bras de Linha, num artigo futuro.

JAIME
Dás-​​me o pra­zer…
não…
a honra…
dás-​​me a honra e o pra­zer de casar comigo?

Este monó­logo será apre­sen­tado assim no guião convertido:

screenshot diálogo partido

Dica avan­çada: Diá­logo duplo

Quando dois per­so­na­gens falam ao mesmo tempo usa-​​se o Diá­logo duplo. Em Foun­tain este é for­ma­tado colo­cando um acento circunflexo/​carat (^) iso­lado a seguir ao nome do segundo per­so­na­gem. Por exemplo:

Jaime e Ana­bela falam apres­sa­da­mente, sobrepondo-​​se um ao outro.

JAIME
Que­res casar comigo?

ANABELA (O.S.) ^
Que­res casar comigo?

Sor­riem, atra­pa­lha­dos mas satisfeitos.

Este exem­plo seria for­ma­tado assim:

screenshot cena 4

O acento cir­cun­flexo tem de ser o último cara­ter da linha de Personagem.

Parênteses

Parên­te­ses são linhas de texto, colo­ca­das – sur­presa – entre parên­te­ses, que dão indi­ca­ções de tempo, ação, expres­são ou ento­a­ção no con­texto de um Diá­logo. Por exemplo:

(pausa)

(iró­nico)

(fazendo adeus)

(sus­sur­rando)

Em Foun­tain os Parên­te­ses são qual­quer linha de texto que venha a seguir a uma linha de Per­so­na­gem ou Diá­logo e esteja entre parênteses.

JAIME
Que­res casar comigo?
(pausa)
Que­res casar comigo?
(pausa)
Não… São as palavras.

Depois de con­ver­tido para o guião ficará assim:

screenshot parênteses

Transição

Uma Tran­si­ção é uma linha de texto em que se define como pas­sa­mos de uma cena para outra. Por exemplo:

CORTA PARA:

DISSOLVE TO:

Para uma linha ser reco­nhe­cida e for­ma­tada como uma Tran­si­ção em Foun­tain tem de ser escrita em maiús­cu­las, pre­ce­dida e seguida por uma linha vazia, e ter­mi­nar em TO:como CUT TO: ou DISSOLVE TO:.

Como em por­tu­guês as tran­si­ções que usa­mos não ter­mi­nam em TO: tere­mos de usar uma alter­na­tiva, come­çando a linha de tran­si­ção com o sím­bolo de maior do que (>). Por exem­plo, assim:
>FADE IN:

INT. CASA DE BANHO – DIA

Um homem fala para a câmara. É JAIME, 28 anos, magro e mortiço.

No guião este bloco de texto apa­re­cerá assim:

screenshot transição

Conclusão

Neste segundo artigo dedi­cada à aná­lise da lin­gua­gem Foun­tain vimos com maior deta­lhe a escrita dos ele­men­tos essen­ci­ais de um guião.

No ter­ceiro artigo, a publi­car em breve, ire­mos ana­li­sar outros ele­men­tos e aspec­tos ainda mais espe­ci­a­li­za­dos da for­mat­ção de um guião, e a sua apli­ca­ção usando a lin­gua­gem Fountain.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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