Vinte dicas para chegar ao fim do guião

João Nunes —  21/01/2013 — 4 Comments

Encon­trei recen­te­mente no site No Film School um artigo que reco­mendo vivamente.

O autor par­ti­lha nele vinte dicas que o aju­da­ram a che­gar ao fim do seu guião Man­child, que em breve ele mesmo irá diri­gir[1].

As dicas são muito vari­a­das e de teor muito diverso. Umas são emi­nen­te­mente prá­ti­cas, outras téc­ni­cas, outras filo­só­fi­cas. Algu­mas terão uti­li­dade para todos os gui­o­nis­tas, outras atrai­rão uma pequena audi­ên­cia ape­nas. Mas duvido que alguém não tire de lá pelo menos uma suges­tão útil para o seu trabalho.

Curi­o­sa­mente algu­mas des­sas suges­tões podem ser encon­tra­das nou­tros arti­gos aqui do blo­gue. Por exem­plo, as que se refe­rem à rees­crita estão quase todas no meu ebook gra­tuito sobre o tema.

Tam­bém o memo­rando do David Mamet que ele refere na dica 18 é o tema de um dos meus arti­gos favo­ri­tos de sem­pre.

Não vou desen­vol­ver aqui todas as vinte suges­tões, mas deixo um tira-​​gosto com a que que me tocou mais dire­ta­mente e que sei que pode­rei usar com mais facilidade.

“Mas” e “por­tanto”; nunca “e então”.

Esta dica foi reti­rada de uma entre­vista em vídeo com os cri­a­do­res de South Park e é de uti­li­dade permanente.

Quando esta­mos a con­tar uma estó­ria deve­mos usar ape­nas as pala­vras “mas” e “por­tanto” para esta­be­le­cer liga­ções entre cenas, e nunca a expres­são “e então”.

As duas pri­mei­ras impli­cam uma rela­ção de causa/​efeito entre as cenas que se suce­dem; a última ape­nas uma rela­ção de sequên­cia. E o que nós que­re­mos é que todas as cenas de um guião este­jam for­te­mente inter­li­ga­das, como malhas numa cor­rente inquebrável.

Ou seja, numa cena acon­tece A “mas” ape­sar disso na cena seguinte acon­tece B; ou, numa cena acon­tece C “por­tanto” na cena seguinte acon­tece D.

Isto é muito dife­rente da forma como a minha sobri­nha conta estó­rias: acon­tece A, “e então” acon­tece B, “e então” acon­tece C, “e então” por aí adiante…

Só esta dica vale a lei­tura do artigo. Fica aqui o resumo das restantes:

  • Escre­ver à mão a pri­meira versão.
  • Usar o Pin­bo­ard para arquivo de favoritos.
  • Usar tam­pões de ouvi­dos ou aus­cul­ta­do­res quando se escreve em locais públicos.
  • Criar lis­tas de músi­cas ade­qua­das ao género do guião que se está a escrever.
  • Usar as ano­ta­ções do Kindle.
  • Usar o RSS para estar em cima do tema que esta­mos a explorar.
  • Entrar deva­gar e sem estresse em cada dia de escrita.
  • Apro­vei­tar o modo de vista para­lela dos pro­gra­mas de escrita para ter lado a lado o outline e o guião.
  • Fazer as esca­le­tas deta­lha­das com vários níveis e códi­gos de cor para os dife­ren­tes tipos de cenas.
  • Aumen­tar sem­pre o con­flito den­tro de cada cena.
  • Usar impres­sões em papel para cer­tas fases da revisão.
  • Escre­ver dife­ren­tes ver­sões do guião em locais diferentes.
  • Na rees­crita fazer pri­meiro as gran­des alterações.
  • Usar o iPad para lei­tura e revisões.
  • Usar o soft­ware Fre­e­dom para cor­tar o acesso à net durante a escrita.
  • Usar pro­gra­mas de ges­tão de jane­las para arran­jar o espaço de tra­ba­lho da melhor forma.
  • Deco­rar o já refe­rido memo­rando de David Mamet.
  • Na rees­crita fazer revi­sões espe­cí­fi­cas para cada per­so­na­gem, como sugiro no meu ebook gra­tuito sobre o tema.
  • Escre­ver o mais impor­tante na melhor hora do dia.

Pode ler o artigo ori­gi­nal (em inglês, infe­liz­mente) na No Film School.

Notas de Rodapé

  1. Numa pro­du­ção finan­ci­ada atra­vés do site Kicks­tar­ter[]

João Nunes

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João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

4 responses to Vinte dicas para chegar ao fim do guião

  1. Uma curi­o­si­dade, você é orga­ni­zado na hora da escrita, ou tem papel colado pela pare­des? Per­gunto isso por­que acho e ape­nas acho que a orga­ni­za­ção as vezes ajuda, as vezes atra­pa­lha. Então em vez de 20 dicas coloco 21.

    • João Nunes 03/02/2013 at 19:38

      Não tenho papel colado pelas pare­des — por­que não me dei­xam ;) Em plena liber­dade a ten­dên­cia seria essa, mas feliz­mente tenho alguém que me con­trola esses instintos.

  2. Não me con­se­gui con­ter.. “estó­ria”?, diz-​​se história

    • João Nunes 24/03/2013 at 20:50

      Porquê? Basta con­sul­tar alguns dici­o­ná­rios para ver que ambas as for­mas são acei­tá­veis.
      Por exem­plo, o da Porto Edi­tora, que dá a seguinte defi­ni­ção: “estó­ria — nome femi­nino — his­tó­ria de carác­ter fic­ci­o­nal ou popu­lar; conto, nar­ra­ção curta”. Ou o da Pri­be­ram, que define como: “estó­ria (inglês story, do latim his­to­ria, –ae, do grego his­to­ría, –as, exame, infor­ma­ção, pes­quisa, estudo, ciên­cia) — s. f. — Nar­ra­tiva de fic­ção, oral ou escrita. = CONTO, FÁBULA, HISTÓRIA, NOVELA”.
      É ver­dade que é uma pala­vra polé­mica, por ser um neo­lo­gismo rela­ti­va­mente recente (mesmo assim com mais de um século) deri­vado do inglês “story” e, por isso, alguns estu­di­o­sos acon­se­lham usar ape­nas a pala­vra “his­tó­ria”, em rela­ção à qual não há polé­mica.
      Mas a lín­gua é feita pelos seus uti­li­za­do­res e este uti­li­za­dor em par­ti­cu­lar gosta da dis­tin­ção entre “estó­ria”, nar­ra­tiva fic­ci­o­nal, e “his­tó­ria”, registo de even­tos reais.
      Acho mais grave, por exem­plo, o des­res­peito total das regras de gra­má­tica e sin­taxe na escrita de emails, sms’s, men­sa­gens nas rede soci­ais… e comen­tá­rios nos blogues ;)

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