Será possível prever o sucesso de um filme? Vinny Bruzzese diz que sim.

Um artigo do New York Times da semana passada lançou uma vaga de polémica para os lados de Hollywood. Um professor de estatística com o curioso nome de Vinny Bruzzese começou a oferecer um serviço alegadamente revolucionário: analisar o potencial comercial de um guião através da sua comparação estatística com uma base de dados de filmes anteriores.

Um exemplo retirado do artigo: nos filmes de terror os demónios podem escolher os seus alvos humanos, ou podem ser invocados por eles. Segundo o ex-professor de estatística convertido em analista de guiões, os primeiros garantem melhores resultados de bilheteira do que os segundos.

Com base neste "fato científico" os estúdios deverão pois mandar alterar todos os guiões que tenham demónios do segundo tipo e somar assim, automaticamente, mais uns milhões de dólares aos lucros dos seus filmes.

Há uns anos atrás o veterano guionista William Goldman escreveu uma frase famosa acerca da capacidade de prever o sucesso de um filme: "Ninguém sabe nada".

Vinny Bruzzese promete que, com o seu método de análise estatística, essa máxima deixou de ter validade: ele sabe.

vinny bruzzese web artigo

É claro que muitas vozes se ergueram de imediato para criticar esta proposta pseudocientífica. Os guionistas John August e Craig Mazin foram dos primeiros a manifestar-se no podcast que publicam regularmente. Também Scott Myers, guionista e blogueiro, deixou a sua opinião no seu site. Mas uma busca na net encontra facilmente vários outros artigos.

O próprio artigo cita já algumas vozes críticas. O guionista Ol Parker não tem papas na língua: “É o meu pior pesadelo. Isto é o fim da criatividade, nada mais que uma tentativa de copiar o que funcionou antes. Só pode resultar numa homogeneização cada vez mais nula, numa corrida para a mediocridade.

De forma geral todos os críticos vão ainda mis longe e consideram a promessa fraudulenta, nos limites da burla. Vinny Bruzzese estará apenas a aproveitar a necessidade humana primordial de procurar a segurança a todo o custo.

Os argumentos coincidem em muitos aspetos: por um lado, o erro básico de lógica que consiste em confundir “correlação” (B sucede a A) com “causalidade” (A causa B). O facto de que filmes com demónios invocados terem rendido menos na bilheteira não implica que essa seja a causa. Pode ser qualquer uma de inúmeras outras causas ou, mais provavelmente, uma combinação de muitas coisas.

Alguns críticos referem também a teoria dos "cisnes negros" de Nassim Nicholas Taleb, que se refere a todos os fenómenos imprevisíveis que têm um impacto relevante numa determinada área de atividade.

No caso do cinema, será o caso dos sucessos inesperados de bilheteira. Como poderia alguém, por mera análise estatística, prever antecipadamente que Tubarão iria inaugurar o período dos blockbusters se não havia dados de filmes de tubarões anteriores? E quando chegar o próximoTubarão, noutra inesperada e inexplorada categoria, que dados irá o senhor Vinny Bruzzese aplicar na sua análise?  

Finalmente, um terceiro nível de crítica, e talvez o mais importante: a escrita para cinema é, na sua mais pura essência, uma atividade artística e criativa. Como tal depende de uma rede de fatores interligados, de natureza subjetiva, individual, irrepetível, que não podem ser reduzidos a uma análise numérica simplista, por muito que esta venha embrulhada em papel milimétrico. Todas as tentativas de reduzir as atividades artísticas a fórmulas científicas são intrinsecamente ridículas; por definição não podemos usar um rádio AM para sintonizar uma emissão em FM.

Em última instância, e como em todas as boas vigarices, a oferta do senhor Vinny baseia-se na exploração das necessidades mais básicas do ser humano. Neste caso, como referi atrás, a necessidade de segurança.

Muitos executivos dos estúdios de Hollywood – que também são humanos – parecem estar dispostos a pagar umas dezenas de milhares de dólares por um relatório que supostamente lhes promete alguma segurança nas decisões difíceis que têm de tomar sobre os filmes que supervisionam. Ou que, pelo menos, os ajuda a defender o seu emprego no caso do falhanço do filme.

Quanto a este último aspeto, pelo menos, o doutor Vinny é transparente. No artigo é citada uma frase do seu site: Para quando surgir o inevitável argumento “Não tenho culpa de que o filme não tenha funcionado”. Deve ser a única coisa honesta que lá diz.

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Um comentário

  • João Ramos 14/05/2013   Deixe uma resposta a →

    Desconhecia este senhor e a sua teoria que considero um tanto ridicula, para não falar de uma extrema presunção. Afirmar que poderá prever o sucesso de um filme só pelo guião é pura treta, é natural que existam guiões melhores que outros mas existem demasiadas variáveis a considerar e um filme não é feito apenas pelo argumento. Quantos não foram os bons filmes que tiveram bons argumentos e o filme não teve sucesso? ou nem sequer prestou? E vice-versa filmes com guiões que tiveram argumentos bastantes medianos e tornaram-se grandes filmes devido à realização? Por exemplo um dos filmes que foi bastante aclamado aqui há bem pouco tempo o Avatar do James Cameron, o filme está deveras bem concebido mas o argumento é bastante fraco, a tipica estória da ''pocahontas'' transportada para o mundo sci-fi. Acho um pouco triste esta noticia pois revela que existe sempre alguem a querer se aproveitar para ganhar uns trocos e a condenar o trabalho do próximo baseado em falsas ''profecias''.

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