Como escrever uma cena segundo John August

Não há pozinho mágico que salve uma cena chata, inútil, redundante ou meramente informativa depois de sair dos vossos teclados. A vocês, escritores, compete garantir que todas as cenas são dramáticas. — David Mamet

Uma cena é como uma mini-estória, com os mesmos princípios dramáticos em funcionamento. David Mamet, num famoso memorando que já traduzi aqui, recorda-nos que “Drama é a missão do herói para ultrapassar aquelas coisas que o impedem de alcançar um objectivo específico e premente.”

Adverte-nos ainda que essa preocupação deve acontecer ao nível de cada momento individual do guião e defende que antes de escrevermos uma cena devemos responder a três questões:

  • Quem quer o quê?
  • O que acontecerá se não o conseguir?
  • Porquê neste momento?

Recomendo sempre a leitura integral desse memorando, que é um mini-curso de guião em meia hora.

O guionista americano John August, conhecido pelas suas colaborações com Tim Burton, entre as quais o excelente Big Fish, vai um passo mais à frente. No seu óptimo blogue sobre guionismo publicou um artigo sob o seu método para escrever uma cena, que passo a analisar.

Dez etapas para escrever a cena

É muito importante perceber que as dez etapas que John August recomenda são apenas indicativas. Cada guionista tem um processo mental próprio, desenvolvido ao longo do tempo, com variações deste sistema.

Ao fim de muita prática a maior parte dos guionistas deixa de pensar analiticamente nestas etapas (se alguma vez o fez) e integra-as naturalmente no seu processo de escrita. Mas para começar a escrever é importante adoptarmos um método, e este é tão bom quanto qualquer outro.

As dez etapas (mais uma) são, então, as seguintes:

  1. Pergunte: O que tem que acontecer nesta cena?
  2. Pergunte: Que mal aconteceria se esta cena fosse omitida?
  3. Pergunte: Quem tem que estar na cena?
  4. Pergunte: Onde é que esta cena pode decorrer?
  5. Pergunte: Qual é a coisa mais surpreendente que poderia ocorrer nesta cena?
  6. Pergunte: É uma cena longa ou curta?
  7. Imagina três formas diferentes de a começar.
  8. Visualize a cena na sua cabeça.
  9. Escreva um rascunho da cena.
  10. Escreva a cena completa.
  11. Repita 200 vezes (para ter um guião).

write a scene

Passo a passo

Vejamos então cada etapa mais detalhadamente.

Pergunte: O que tem que acontecer nesta cena?

Cada personagem entra na cena com objectivos definidos, que vai tentar alcançar. Somos nós, os autores, que decidimos quais são os objectivos dos personagens e se eles os vão alcançar ou não, em função do curso que queremos dar à estória. Isso tem de estar definido antes de começarmos a escrever a cena.

Pergunte: Que mal aconteceria se esta cena fosse omitida?

Se nada de mal acontecer ao retirarmos a cena, então o melhor é retirá-la mesmo. Pode até ser dramática ou divertida, mas não faz falta e, como tal, deve ser eliminada. Se não o fizermos nós, alguém – o produtor, o realizador ou o montador – certamente o farão. Nesse caso é melhor passar o que ela tem de bom para outras cenas que tenham lugar garantido na montagem final.

Pergunte: Quem tem que estar na cena?

O facto de termos muitos personagens não implica que os tenhamos de usar em todas as cenas. Parte da arte do guionista é definir quem entra em cada cena, e o que está a fazer lá. Se por imposição da lógica da estória, temos de ter vários personagens na cena, é bom encontrarmos formas de tornar a sua presença relevante e interessante.

Pergunte: Onde é que esta cena pode decorrer?

Nem sempre podemos escolher onde uma cena vai decorrer. Por vezes, por uma questão de lógica da estória, outras vezes, como acontece muito em televisão, por questão de limitações de produção. Mas quando podemos escolher, muitas vezes vamos pela solução mais óbvia ou natural. E esta nem sempre é a que mais valoriza a cena. Antes de escrever a cena devemos pensar em várias opções de localização que sejam adequadas mas possam acrescentar valor.

Pergunte: Qual é a coisa mais surpreendente que poderia ocorrer nesta cena?

Este é o passo mais original que John August sugere, mas pode conduzir a resultados muito interessantes. Consiste em esquecer um pouco os objectivos que definimos para a cena e fazermos um pequeno jogo: imaginar a coisa ou coisas mais surpreendentes que poderiam acontecer durante a cena. Estamos a falar aqui de eventos realmente inesperados – por exemplo, um carro irromper pela parede. Em 90% dos casos será apenas um jogo e uma forma de mantermos acesa a imaginação durante a fase da escrita. Em 9%, poderá conduzir a versões mais interessantes e provocadoras das cenas que tínhamos imaginado. E no 1% que sobre pode originar situações realmente originais e memoráveis.

Pergunte: É uma cena longa ou curta?

Nem todas as cenas têm a mesma importância numa estória. Essa alternância de momentos mais fortes ou mais calmos contribui para o ritmo da narrativa. Em consequência, nem todas as cenas devem ter a mesma duração. É pois importante decidir previamente que dimensão a nossa cena deverá ter, e escrevê-la dentro desses parâmetros.

Imagina três formas diferentes de a começar.

O conselho que se dá aos guionistas é começar a cena o mais tarde possível, e sair dela logo que o essencial da cena tenha acontecido. Se, por exemplo, a nossa cena acontece num encontro entre três amigos num bar, não precisamos de assistir à chegada de cada um deles, aos cumprimentos, à encomenda das bebidas, etc. Podemos cortar para o encontro já em curso, com os três sentados à mesa, a beber e falar, e terminar a cena logo que o conflito dramático tenha decorrido segundo as nossas necessidades. Mas John August recorda-nos que não nos devemos ficar por este começo “natural” da cena. Porque não começá-la com os três amigos na casa de banho, a urinar em conjunto; ou com os três a tentar reparar a máquina de café do bar; ou com os três a ser expulsos do bar pelos seguranças? O importante, uma vez mais, é questionarmos a solução que nos ocorre de imediato e procurarmos alternativas viáveis, mesmo que no fim regressemos à primeira opção – que muitas vezes é mesmo a melhor.

Visualize a cena na sua cabeça.

Antes de começarmos a escrever, devemos imaginar toda a cena. De olhos fechados, recostados na cadeira, vamos imaginar como a cena se vai desenrolar, como se estivéssemos a ver o filme na nossa imaginação: onde estamos; a que horas; quem está presente; o que acontece; quem fala; o que diz; que trocas de palavras ou de acções se sucedem. Nem sempre vamos conseguir visualizar tudo, e muitas coisas vão mudar quando passamos à escrita. Mas é importante fazermos este esforço, para dar realidade e consistência ao que vamos escrever.

Escreva um rascunho da cena.

Depois do exercício de visualização anterior devemos fazer um registo rápido do que imaginámos, antes de o esquecermos. É apenas um rascunho, sem descrições nem diálogos detalhados. Apenas notas, apontamentos, emoções. Deve ser uma etapa muito rápida, enquanto a cena ainda está vívida na nossa imaginação.

Escreva a cena completa.

Com base no rascunho anterior, passamos então a escrever a cena na sua versão completa. Não digo “versão final” porque é provável que, até ao fim do processo, ela ainda passe por outras rescritas. Vamos guiar-nos pelas notas que tomámos, desenvolvendo as situações, enriquecendo as descrições, completando as acções e criando os diálogos. Mas isto não quer dizer que o rascunho que fizemos esteja escrito na pedra. É apenas uma fundação que a qualquer momento pode evoluir ou mudar substancialmente.

Repita 200 vezes (para ter um guião).

A 11ª etapa é um toque de humor, para nos recordar que boa parte do trabalho do guionista assenta na disciplina, perseverança e capacidade de trabalho. Escrever um guião é trabalho duro; escrever um bom guião, é hercúleo. Mas o resultado do esforço podem ser cenas tão fantásticas como a que se segue (excerto de Big Fish).

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