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A escrita do guião segundo Akira Kurosawa
kurosawa destaque

O site Fla­vorwire publi­cou recen­te­mente um artigo com cita­ções do rea­li­za­dor japo­nês Akira Kuro­sawa sobre a arte cine­ma­to­grá­fica. Akira Kuro­sawa é um dos mais impor­tan­tes cine­as­tas de sem­pre, um mes­tre que dei­xou obras-​​primas como Rasho­mon, Os Sete Samu­rais, YojimboKage­musha, entre mui­tas outras.

Foi tam­bém autor de mui­tos dos guiões dos seus fil­mes, e dava par­ti­cu­lar impor­tân­cia à escrita do guião, como se pode apre­ciar nas cita­ções esco­lhi­das para o artigo. A quan­ti­dade e a riqueza das ideias nelas trans­mi­ti­das são extra­or­di­ná­rias. Qual­quer pes­soa que se inte­ressa por estes temas encon­trará aqui maté­ria para pro­funda e recom­pen­sa­dora reflexão.

Selec­ci­o­nei algu­mas cita­ções de Akira Kuro­sawa sobre gui­o­nismo em par­ti­cu­lar, que passo a traduzir.

Importância de um bom guião

Com um bom guião um bom rea­li­za­dor pode pro­du­zir uma obra-​​prima; com o mesmo guião um rea­li­za­dor medío­cre pode fazer um filme acei­tá­vel. Mas com um mau guião nem um bom rea­li­za­dor con­se­gue fazer um bom filme.”

Para a ver­da­deira expres­são cine­ma­to­grá­fica a câmara e o micro­fone têm de ser capa­zes de atra­ves­sar tanto o fogo como a água. É isso que faz um ver­da­deiro filme. O guião tem de ser algo que tenha o poder de fazer isso.”

Criação é memória

Para poder escre­ver guiões, temos pri­meiro que estu­dar os gran­des roman­ces e peças do mundo. Temos de enten­der o que as torna excep­ci­o­nais. De onde vem a emo­ção que sen­ti­mos ao lê-​​las? Que grau de pai­xão pre­ci­sou o autor de ter, que nível de meti­cu­lo­si­dade teve de atin­gir, para con­se­guir carac­te­ri­zar os per­so­na­gens e os even­tos como ele o fez? Temos de ler aten­ta­mente, para con­se­guir escru­ti­nar todas essas coi­sas. Temos tam­bém de ver gran­des fil­mes. Temos de ler gran­des argu­men­tos e estu­dar as teo­rias cine­ma­to­grá­fi­cas dos gran­des auto­res. Se o teu objec­tivo é seres um rea­li­za­dor de fil­mes, tens de come­çar por domi­nar a escrita de guiões.”

Já esqueci quem disse que cri­a­ção é memó­ria. As minhas pró­prias expe­ri­ên­cias e as várias coi­sas que li per­ma­ne­cem na minha memó­ria e são a base sobre a qual crio algo de novo. Nunca o con­se­gui­ria fazer a par­tir do nada. Por esse motivo, desde jovem que me habi­tuei a ter comigo um livro de notas quando estou a ler um livro. Aí registo as minhas reac­ções e o que me afecta em par­ti­cu­lar. Tenho pilhas e pilhas des­tes livri­nhos e, quando vou escre­ver um guião, são eles que eu leio. De alguma forma encon­tro sem­pre neles reve­la­ções. Até para sim­ples linhas de diá­logo já reti­rei ins­pi­ra­ção des­tes livros de notas. Por isso quer fazer uma reco­men­da­ção – não leiam livros dei­ta­dos na cama.“

A estrutura de um guião

Uma boa estru­tura para um guião é a de uma sin­fo­nia, com os seus três ou qua­tro movi­men­tos e os seus tem­pos con­tras­tan­tes. Ou pode­mos usar as peças de tea­tro Noh, com a sua estru­tura em três par­tes: jo (intro­du­ção), ha (des­trui­ção) e kya (pressa). Se nos dedi­car­mos inte­gral­mente ao Noh e tirar­mos algo de bom daí, isso irá emer­gir natu­ral­mente nos nos­sos fil­mes. O Noh é uma forma artís­tica ver­da­dei­ra­mente única que não existe em mais nenhuma parte do mundo. Acho que o Kabuki, que o imita, é uma flor esté­ril. Mas num guião, penso que a estru­tura sin­fó­nica é a mais fácil de ser enten­dida pelas pes­soas de hoje.”

Escrever em parceria

Come­cei a escre­ver os guiões em con­junto com outras duas pes­soas por volta de 1940. Até então escre­via sozi­nho e não tinha quais­quer difi­cul­da­des. Mas ao escre­ver sozi­nhos cor­re­mos o risco da nossa inter­pre­ta­ção de um outro ser humano sofrer de par­ci­a­li­dade. Se escre­ver­mos com outras duas pes­soas acerca do mesmo ser humano, tere­mos pelo menos três dife­ren­tes pon­tos de vista acerca dele, e pode­mos dis­cu­tir aque­les com que não con­cor­da­mos. Além disso, um rea­li­za­dor tem a ten­dên­cia natu­ral para ir ajei­tando o herói e o enredo segundo um padrão que lhe seja mais fácil de diri­gir. Ao escre­ver com outras duas pes­soas tam­bém evi­ta­mos esse perigo.”

Descrição versus explicação

Uma coisa a que deve­mos dar par­ti­cu­lar aten­ção é o facto de que os melho­res guiões têm pou­cos pas­sa­gens expli­ca­ti­vas. Acres­cen­tar expli­ca­ção às pas­sa­gens des­cri­ti­vas de um guião é a arma­di­lha mais peri­gosa em que pode­mos cair. É fácil expli­car o par­ti­cu­lar estado psi­co­ló­gico de um per­so­na­gem em deter­mi­nado momento, mas é muito difí­cil descrevê-​​lo atra­vés das nuan­ces deli­ca­das da acção e do diá­logo. Mas não é impos­sí­vel. Pode­mos aprendê-​​lo atra­vés do estudo das gran­des peças de tea­tro, e acre­dito que a lei­tura dos roman­ces poli­ci­ais negros (hard-​​boiled) tam­bém é muito instrutiva.”

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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