Mês das Perguntas: Como apresentar séries de televisão?

O que é uma bíblia de televisão? Já ouvi falar nisso mas ainda não entendi bem para o que serve. – Sílvia

Sílvia, a resposta à sua questão é particularmente útil neste momento, dado que a RTP abriu recentemente uma consulta para propostas de projetos de séries de televisão.

Para participar nessa consulta deveremos indicar, para cada projeto, os seguintes elementos:

  • Título – nome do programa
  • Local – Local onde se vai rea­li­zar o evento
  • Tipo de pro­du­ção – evento local, evento Pro­du­zido de raiz
  • Género – Repor­ta­gem, Fic­ção, Entre­te­ni­mento, Educativo
  • Obje­ti­vos espe­cí­fi­cos – Entre­ter, Emo­ci­o­nar, Edu­car, informar
  • Tipo de Emis­são – Direto / Gra­vado
  • Dura­ção –
  • Nº Pro­gra­mas –
  • Pla­ta­for­mas –

No caso dos pro­je­tos de ficção é requerido ainda que as propostas incluam uma segunda secção com:

  • Sinopse
  • Des­cri­ção dos personagens
  • Guião(ões)
  • Pro­posta de elenco

O que é uma bíblia

Uma “bíblia” de um programa de televisão é, muito simplesmente, um documento ou conjunto de documentos que apresenta os elementos acima referidos, e normalmente até mais alguns.

Uma Bíblia é, pois, uma espécie de guia para conhecer e entender a série, que explica com detalhe adicional o que nem sempre fica claro num episódio-piloto ou tratamento.

Normalmente a bíblia nunca mais é mexida depois de ter cumprido a sua missão de ajudar a vender a série. Mesmo assim pode ser importante para ajudar a recordar quais as intenções iniciais dos autores quando se lançaram ao projecto.

Em alguns casos a bíblia vai crescendo conforme a série é escrita, ganhando nova informação e actualizando-se sempre. Serve então como referência permanente para os autores da série esclarecerem dúvidas sobre a mesma.

Vamos agora ver com um pouco mais de detalhe o que é necessário indicar em cada um dos pontos que a consulta da RTP exige. Estes pontos já foram esclarecidos numa reunião que muitos produtores portugueses mantiveram com a direcção da RTP, precisamente para esclarecer as dúvidas que o anúncio inicial deixou no ar.

Depois destes elementos obrigatórios irei analisar mais alguns que são úteis ou interessantes para acrescentar, e que enriquecem qualquer bíblia.

Elementos obrigatórios

Os seguintes elementos têm de fazer parte da proposta a apresentar para o

Título – nome do programa

Este elemento é auto-explicativo. Todos as séries têm de ter um nome. Quanto mais eficaz esse nome for a passar o conceito da série, melhor.

Local – Local onde se vai realizar o evento

Penso que isto não se aplica a projectos de ficção.

Tipo de produção – evento local, evento produzido de raiz

O mesmo neste caso – não é aplicável à ficção.

Género – Reportagem, Ficção, Entre­te­ni­mento, Educativo

Como nos estamos a focar em projectos de Ficção, é isto mesmo que devemos indicar.

Objectivos espe­cí­fi­cos – Entre­ter, Emo­ci­o­nar, Educar, Informar

Esta baralha-me tanto como a qualquer outro cidadão. Espero que seja de resposta múltipla, porque uma boa série de ficção deve, no mínimo, Entreter e Emocionar.

Tipo de Emis­são – Direto / Gra­vado

Fácil. Uma série de televisão será sempre Gravada.

Dura­ção

As séries de televisão normalmente destinam-se a encaixar em espaços de meia hora ou de uma hora. Contando com os inúmeros intervalos para publicidade, os episódios terão na prática algo como 25 ou 50 minutos. Deve indicar o mais adequado à sua série.

Nº Pro­gra­mas

Aqui também depende do projecto que está a apresentar. Uma mini-série pode ter entre 2 e 6 episódios. Uma série, normalmente, começará com um mínimo de 13. A escolha é sua, conforme o que é mais adequado ao seu projecto.

Pla­ta­for­mas

Em princípio será apenas televisão. Em alguns casos será televisão e cinema. Imagino que possa haver projectos que combinem de alguma forma outras plataformas, como a net, ou conteúdos móveis, ou, quem sabe, fotonovelas. Você é o criador, escreva o que lhe convém.

Sinopse

Trata-sede um resumo geral da série, um olhar global sobre o início, meio e fim da estória, indicando os grandes momentos e movimentos que a vão marcar. Devemos deixar bem claros quais os personagens centrais e os conflitos em que estarão envolvidos.

Para esta sinopse eu não gastaria mais de uma página; há quem recomende ainda menos. Destina-se aos leitores mais preguiçosos – perdão, importantes – que não têm tempo para entrar nos detalhes mas querem entender rapidamente do que trata a série.

Deve ser escrita de forma linear, na 3ª pessoa do presente (Rui faz, Bela corre, Valdir atira…), com construções simples, economia de palavras e ideias claras. Mais adiante, nos guiões ou tratamentos dos episódios, teremos oportunidade de desenvolver melhor estas ideias gerais.

Antes da sinopse podemos incluir uma logline, uma espécie de resumo do conceito da série em apenas um parágrafo curto. Por exemplo, o logline de Os Sopranos poderia ser algo como: ”Um poderoso chefe da Máfia de New Jersey tenta esconder da família e dos subordinados as suas consultas psiquiátricas, enquanto vai lidando com os problemas normais da sua profissão e da sua condição de pai de família”.

Descrição dos personagens

Nesta secção apresentamos os personagens da série, começando pelos mais importantes, e seguindo para os restantes. Devemos defini-los segundo os seus traços físicos (nome, sexo, idade, aparência, etc…), sociais (classe social, profissão, estado civil, etc…) e psicológicos (atitudes, comportamentos, medos, sonhos, etc…).

Também aqui não é preciso esticarmo-nos demasiado nas descrições. Para os protagonistas, tudo o que seja mais de dois ou três parágrafos já é excessivo. Para os restantes personagens um parágrafo deve chegar.

Obviamente, não é preciso descrever o motorista de táxi que entra apenas num episódio e diz duas linhas. Mas se este motorista de táxi aparecer recorrentemente, e tiver importância no desenrolar da estória, deve merecer a nossa atenção.

Guião(ões)

Esta secção teve de ser esclarecida junto da RTP. Obviamente é impossível escrever os 13 episódios de uma série no prazo que foi dado para esta consulta pública.

O que resultou dos pedidos de esclarecimento foi que para efeitos desta consulta deverão ser apresentados os elementos normais de avaliação. Quantos mais completos formos, melhor.

O normal é incluir um episódio-piloto e as sinopses de mais alguns episódios.

Em alguns casos bastará apenas o tratamento mais desenvolvido dos episódios. Isso dependerá do tamanho da série e da confiança que o avaliador tenha na capacidade de quem apresenta o projecto.

Uma produtora com muito trabalho no cinto, ou um guionista de mérito reconhecido, provavelmente poderão safar-se apenas com tratamentos. Uma produtora nova ou um guionista desconhecido terão naturalmente de mostrar mais trabalho finalizado para conquistar a confiança da emissora.

Actualização: Uma informação mais recente confirma que será sempre necessário apresentar pelo menos um guião, além de sinopses detalhadas dos restantes. Recomendo um contacto directo com o departamento de conteúdos da RTP para esclarecimentos mais específicos.

Pro­posta de elenco

Este item está claramente voltado para as produtoras. Se estiver a apresentar o projecto em nome individual, indique apenas quem imagina que poderia fazer bem os principais papéis da série.

Elementos adicionais

Estes elementos não são exigidos pelo regulamento da consulta da RTP, mas podem ajudar a tornar a sua bíblia mais completa e interessante.

Sinopses de episódios adicionais

Se apresentamos a bíblia apenas com um episódio-piloto, é muito útil acrescentar pequenas sinopses de meia página descrevendo sucintamente outros episódios. Quantos mais conseguirmos incluir, melhor (desde, obviamente, que a quantidade não prejudique a qualidade).

Cenários

A maior parte das séries tem alguns cenários que aparecem com regularidade. Pense-se na casa do Tony Soprano, no laboratório do CSI, ou no escritório dos advogados do Liberdade XXI.

O número de cenários recorrentes depende do tipo de série. No caso das telenovelas, quase todos os cenários são fixos. Numa mini-série o número de cenários fixos pode ser menor, com outros cenários variáveis e cenas exteriores a aparecerem com mais frequência.

Em ambos os casos, é normal dedicar uma secção à descrição dos principais cenários recorrentes da série. Aplicam-se aí as mesma considerações já referidas: devemos ser claros, sintéticos e não gastar mais de dois ou três parágrafos (ou menos) para cada cenário.

Pesquisa

Podemos também incluir uma secção com informação interessante que recolhemos na pesquisa que fizemos para o desenvolvimento da série.

Pode servir, por exemplo, para incluir informações interessantes sobre o universo da nossa estória (os bombeiros, a máfia galega, os dançarinos de salão profissionais…) ou o período em que ela se passa (anos 80, idade média, o futuro pós-apocalíptico…).

O objectivo não é tornar o leitor num catedrático sobre o tema, mas apenas demonstrar como este é interessante e rico, confirmando o seu potencial para despertar a atenção dos espectadores.

Cronologia geral

Em determinados tipos de estórias de enredo mais complexo pode ser útil incluir uma linha de tempo onde indicamos claramente as datas e a sequência dos eventos narrados na estória.

Nuvem de personagens

Se a série tem muitos personagens, pode ser também interessante incluir algum tipo de diagrama que mostre as relações familiares, profissionais, de amizade, romance ou antagonismo que eles mantém entre si.

Currículos e contactos

Finalmente, o projecto deve incluir os currículos empresariais e/ou individuais dos proponentes do projecto e, evidentemente, os contactos adequados para que a emissora possa obter informações adicionais (ou passar o cheque).

Outros elementos

A sua imaginação é o limite para o que se pode acrescentar a uma bíblia, além dos elementos obrigatórios ou recomendáveis que referi anteriormente.

Por exemplo, já incluí em algumas bíblias :

  • entrevistas simuladas com os principais personagens;
  • secções do tipo Perguntas Frequentes;
  • ilustrações e fotografias relevantes;
  • e até CD’s com as músicas que inspiraram a estória.

No entanto, não caia na tentação de acrescentar isto tudo, e ainda mais outras excentricidades, em todos os projectos. O nosso objectivo é fazer a estória ganhar vida aos olhos de quem a vai avaliar. Não é sufocá-la por excesso de informação.

Qual é a sua pergunta?

Deixe aqui a sua pergunta para o Mês das Perguntas. Se for interessante, útil para outros leitores e nunca tiver sido respondida neste site, tentarei fazê-lo agora.






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