Mês das Perguntas: Quanta descrição deve ter um guião?

A descrição exaustiva do ambiente da cena torna o guião mais rico ou mais pobre? — Dinis

Dinis, o povo é sábio e costuma dizer que “tudo o que é demais não presta”. Isso aplica-se como uma luva às descrições.

A escrita de guião tem de ser muito sintética e económica. Há várias razões para isso.

Na escrita de um romance a leitura de uma descrição exaustiva e completa de um espaço pode ser um prazer em si mesma. As palavras são a matéria-prima do escritor, e, antes mesmo de alimentarem a nossa imaginação, têm um valor próprio e intrínseco.

Num filme, pelo contrário, o espectador vai ver os ambientes em toda a sua riqueza ou miséria, estampados numa tela de 20 metros. Não precisamos de os descrever com minúcia no guião, apenas temos de dar os indícios suficientes para serem visualizados.

Haverá uma equipa de profissionais especializados que, a partir das nossas descrições sucintas, se encarregarão de encontrar ou criar os espaços mais adequados. É para eles que estamos a escrever e, acredite, não gostam que nos alonguemos demasiado em detalhes desnecessários.

Além disso, há a questão do tamanho do guião. Como já referi muitas vezes, em média uma página de guião corresponde a um minuto de filme final. Mas para conseguirmos manter essa média não nos podemos perder em descrições intermináveis, nem de espaços nem de pessoas.

É claro que quanto mais os ambientes forem alheios à nossa experiência quotidiana, mais cuidado temos de colocar na sua descrição. Por exemplo, provavelmente teremos de nos alongar mais a descrever o interior de uma nau viking do que o de um café de bairro. Se fôssemos vikings, contudo, seria o contrário.

Vejamos então alguns exemplos retirados de filmes candidatos aos Óscares deste ano.

A primeira linha de descrição de Before Midnight, guião de Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy:

Jesse e Hank, 14 anos, caminham dentro de um aeroporto na Grécia.

Uma descrição no início de 12 Anos Escravo, guião de John Ridley:

Entramos numa situação animada. Um jantar festivo está a decorrer numa mansão de alguma grandiosidade. OITO CASAIS participam na festa, todos BRANCOS e BASTANTE JOVENS, na casa dos vinte e poucos anos. Homens e mulheres vestem roupas de bom estilo. Devemos sentir que na sua maior parte são pessoas de posses.

As mobílias foram arredadas para as paredes da sala de estar. No momento os casais estão envolvidos numa dança.

A primeira descrição de Philomena, guião de Steve Coogan e Jeff Pope:

PHILOMENA está sentado num banco corrido de uma igreja quase vazia – há apenas outros dois CRENTES salpicados por aqui e ali; nenhuma missa está a decorrer. Ela limita-se a olhar para uma estátua da Virgem com o Menino.

Como pode ver, as descrições são muito curtas e económicas. Todos sabemos como é um aeroporto, na Grécia ou em qualquer outro país europeu. Todos sabemos a sensação de estar numa igreja quase vazia. E conseguimos com facilidade imaginar uma mansão de alguma grandiosidade na América do século XIX. Aqui o autor deu o detalhe adicional de que as mobílias foram arredadas para as paredes da sala de estar, porque isso é importante para a acção que está a decorrer.

O segredo, portanto, é fazer as palavras contar. Quanto mais específicos formos, quanto mais coloridas e ricas as nossas descrições, mais podemos contar com a imaginação do leitor e menos teremos de escrever.

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