Pedro Varela: É assim que eu escrevo

É desajustado dizer que o Pedro Varela é uma promessa da nova geração de talentos portugueses; desde há bastante tempo que ele já se afirmou como um dos seus valores mais seguros. A série da RTP Os Filhos do Rock, que ele criou, escreveu alguns episódios e realizou é apenas a confirmação mais recente dessa evidência. Como tive o prazer de trabalhar com ele nesta série, foi praticamente inevitável desafia-lo para uma entrevista do blogue. O resultado é o que se segue, para vosso deleite e minha satisfação.

“Os Filhos do Rock” é uma das séries sensação desta temporada em Portugal. Podes falar-me um pouco de como surgiu a ideia?

Sei que era um desejo antigo do Hugo Andrade(director de programas da RTP), um apaixonado por música, e que algures numa reunião com o Leonel Vieira, produtor da série, decidiram avançar com o projecto . Decisão que é de louvar, sobretudo pela coragem de embarcar em algo tão ambicioso a tantos niveis numa das piores alturas para o fazer. Mas hoje não tenho duvidas que é nessas alturas que se aceitam os grandes desafios, esquecem-se os factores financeiros e outros, porque precisamos desesperadamente que alguma coisa mude. E quer queiram quer não, Os Filhos do Rock, são um género de “prova do algodão” para a ficção em Portugal.

Tu escreveste os primeiros episódios da série, mas depois entrou em cena uma equipa de argumentistas. Como foi esse processo?

É verdade, mas antes de chegar a esse ponto passei pelo deserto, o tal vazio fértil que nos faz vaguear entre o nada e o tudo, mas com alguns cigarros, livros, musicas e filmes lá comecei a tentar dar corpo e alma à série para depois aí sim com cerca de meia dúzia de guiões já escritos passar o testemunho a outros guionistas. Era importante para mim entregar algo o mais consistente possível a quem viesse a escrever para a série, a opinião deles sobre o projecto ia ser determinante para o resultado final. Tenho a certeza que a entrega e inspiração para o que se escreve em colaboração nasce no momento em que te apaixonas, muito ou pouco, por aquilo que já é a raiz da obra. Sou obsessivo nisso, exijo demasiado de mim e dos outros, não deve ser nada fácil para quem está do outro lado. Começámos por partilhar ideias e opiniões sobre essa base, que na verdade eram sete episódios, e daí para a frente e cada um no seu estilo tentar seguir e atingir alguns pontos que tinha traçado, mas nada era rígido ou imutável. Com uma ou duas reuniões em conjunto, tomámos notas e traçámos objectivos que eram basicamente saber que estávamos no ponto A e queríamos chegar ao ponto C. O ponto B, esse não me pertencia, esse era o caminho que cada um ia propor. E ao final de contas trabalhei com os melhores, desde o João Nunes, um dos mais experientes e filmados guionistas do nosso mercado com quem já tinha tido o prazer de trabalhar noutros projectos, e que por acaso até és tu, fiel destinatário destas palavras. O Tiago R. Santos, o mais jovem veterano da praça também com vários projectos filmados e com uma visão e estilo que me agrada bastante. O João Tordo, que de vez em quando lá descansa a caneta dos seus romances e escreve para cinema e televisão. O Vicente Alves do Ó, que além de escrever realiza e por fim o Nuno Baltazar, realizador e que está agora a começar a escrever. Esta equipa acrescentou ao projecto uma série de nuances e pontos de vista que seriam impensáveis atingir se escrevesse sozinho.

É complicado manter a coerência de um trabalho escrito a tantas mãos?

É claro que se perde coerência mas isso é muito saudável, viva a incoerência, a vida é altamente incoerente até ao último capítulo onde tudo subitamente parece fazer sentido, ou não.

Quais foram as ferramentas que usaste para manter toda a gente coordenada?

O Lado B, ou seja os últimos treze episódios da série, foi o bloco onde eu não escrevi de raiz e apenas fiz revisão, quem coordenava era o Tiago R. Santos. Era com ele e com o Nuno Noivo, coordenador do projecto, que eu reunia e em completo freestyle/brainstorm íamos criando os arcos, twists e destino das nossas personagens. Era engraçado, havia umas pequenas guerras, lembro-me de uma que podemos chamar de “Manuel do Rock”. O Tiago estava a propor uma personagem e eu como autor combatia essa ideia, achava mesmo que não ia funcionar, que não fazia sentido. A coisa mesmo assim lá andou e quando o realizador, ou seja eu, escolheu o actor e filmou, foi de um 8 para um 80, o Tiago tinha razão.

(Nota do entrevistador: esta pergunta era uma deixa para o Pedro falar do uso que a sua equipa deu ao Dropbox em todo o processo, mas como ele não mordeu o isco, passo eu a explicar. A solução que o team dos “Filhos do Rock” encontrou para manter todos os guionistas em sintonia foi o recurso a algumas pastas partilhadas na nuvem, através do Dropbox. Nessas pastas estavam permanentemente à nossa disposição uma série de documentos, como a bíblia da série, toda a pesquisa feita, as sinopses do episódios e as versões mais recentes dos guiões já escritos. Dessa forma cada guionista podia aceder a toda a informação relevante, sempre atualizada, onde quer que estivesse a escrever. Foi, seguramente, uma ferramenta que facilitou muito o trabalho de coordenação de todos os autores.)

Pedro Varela dirigindo uma cena de "Os Filhos do Rock"

Pedro Varela dirigindo uma cena de “Os Filhos do Rock”

Além de autor da série, foste também o realizador. Fala-me da dinâmica entre essas duas vertentes do teu trabalho em Os Filhos do Rock.

É uma sorte, poderes escrever e filmar o teu próprio material. Mas também traz grandes perigos, quando filmas o que escreves ficas menos flexível, é difícil largar o que visualizaste há tanto tempo. Fazia esse exercício todos os dias, olhar para as cenas de outros pontos de vista, fisicamente até. Mas quando se filma com baixo orçamento esse é o melhor exercício e o mais constante, por isso acabava por fazer isso por outras razões. Mas adorei filmar material de outros guionistas na série, gosto desse improviso de descobrir a marcação e a posição de câmara na hora. Temos diálogos incríveis no Lado B, material que nunca foi ensaiado ou discutido a não ser nos cinco minutos antes de filmar, aí entra o acrescento de toda a gente e principalmente dos actores que são o principal alicerce de qualquer projecto. Prefiro não filmar a ter que filmar com actores fracos.

Como é o teu processo de escrita normal? És de tratamentos, escaletas, etc. ou passas de imediato ao guião? Desenvolves biografias de personagens, etc?

Organizo tudo na cabeça, gosto de escrever cronologicamente e é muito raro tomar notas. Quando o faço nunca servem para nada, porque quando lá chego mais à frente, tudo mudou. Gosto de não saber o que se vai passar, escrevo num modo muito parecido ao modo de leitura, quero ser surpreendido e às vezes fico chocado com as decisões que tomo.

Quanto tempo costumas levar a escrever um guião de um episódio de televisão, e a que ritmo?

Ser for o primeiro ou primeiros episódios posso levar algum tempo, mas quando a coisa arranca sou demasiado rápido, vivo entre estes dois modos. Gosto de usar a pressão de um deadline e escrever mais de vinte páginas por dia. Mas também gosto muito do cerimonial que antecede um novo projecto, ando por ali sem saber o que fazer, acordo tarde, leio, vejo uns filmes, saio para beber uns copos.

Por quantas versões passas, em média, até estares minimamente satisfeito?

Não mais que uma ou duas. Como faço revisão todos os dias, a minha primeira versão já me satisfaz, é uma forma de recuperar o tom, antes de iniciar uma sessão de escrita leio tudo outra vez em modo revisão.

Em que fases dás a ler a alguém aquilo que escreves? É a amigos, colegas, familiares — ou logo para o produtor?

A Bia, (minha mulher) lê desde as primeiras cenas. Depois tenho mais um ou dois amigos que acompanham os meus processos de escrita. Eu gosto de ter com quem debater as pequenas e as grandes dúvidas ou questões. Preciso tanto de falar como pensar o que escrevo.

Como lidas com as notas e comentários de terceiros, produtor, realizador, leitores?

Mal. Mas encaixo, processo, e quando são boas sigo-as.

Qual é a tua abordagem às reescritas, que processo usas?

As reescritas trazem quase sempre um período de tempo largo entre si, meses ou mesmo anos. Dou por mim a pensar, mas fui eu que escrevi isto? Para o bom e para o mau.

Onde é que costumas escrever? E quais são os teus horários/ritmos normais de escrita?

Quando é para arrancar, e passado o período de gestação, gosto de me isolar. Já fui para montes no Alentejo, hotéis, viajei para fora do país, mas é no escritório em casa que depois a coisa corre a bom ritmo até ao fim. Se estou fora escrevo desde a hora que acordo, que pode ser antes do almoço. Mas em casa os horários de escrita enlouquecem e faço madrugadas adentro. No caso dos Filhos do Rock o ritmo e tipo de produção obrigava a grandes ajustes e cedências no que se podia ou não filmar. Acabei por escrever algumas cenas na rodagem mesmo, na hora de almoço ou jantar, ou em frente ao monitor enquanto filmava.

Que apetrechos usas para escrever: papel e caneta? Computador? Software? Quais e porquê?

Uso computador e o Final Draft, na verdade nunca experimentei outro. O papel e o lápis estão do lado para escrevinhar umas coisas. Hoje em dia já vou usando o iPhone para notas escritas e até de voz.

Quais seriam as condições ideais para poderes escrever o grande guião da tua vida?

Não faço ideia. Sei que cada vez que me sento para escrever tiro mais prazer disso, trago mais bagagem, cometo menos erros. Envelhecer será sem duvida uma dessas condições…

Obrigado, Pedro, e boa sorte para Os Filhos do Rock. Espero que inspire muitas mais séries de qualidade na nossa televisão, que tanta carência tem delas.

Pedro Varela estreou-se como actor no Teatro Experimental de Cascais aos dezasseis anos. Fez telenovela, séries e cinema, mas foi o teatro que o levou para a escrita e para a direcção. Em Lisboa, adaptou e encenou “Trainspotting” de Irvine Welsh, experiência que voltou a repetir anos mais tarde em Los Angeles com “Ecstasy”, do mesmo autor. Viveu no Brasil e Estados Unidos, onde começou a escrever para cinema e a filmar. Ganha prémios como realizador de publicidade mas é na ficção, seja na escrita ou realização, que se sente feliz. Para sobreviver precisa de bons guiões, actores e de takes com mais de trinta segundos.

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