João Leitão

João Leitão: é assim que eu escrevo

João Leitão é um jovem argumentista e realizador português que lançou recentemente a sua primeira longa-metragem, a comédia *Capitão Falcão.*

Fui ver o *Capitão Falcão recentemente, aqui em Angola, e adorei a experiência. O filme conseguiu arrancar-me (e ao resto da audiência) uma boa dúzia de gargalhadas, que é exactamente o que se espera de uma comédia. Infelizmente nem sempre é isso que acontece. Por isso resolvi contactar o João Leitão e fazer-lhe algumas perguntas sobre o seu processo de trabalho, em geral e neste filme em particular. Depois de lerem as respostas de certeza que vão querer ser amigos do João – é um tipo “bestial”, como se dizia nos anos sessenta do Capitão Falcão.*

João Leitão

João Nunes: Olá João, obrigado por teres aceitado esta entrevista. Como tem sido o feedback do público em relação ao filme? Está a aderir à proposta?

João Leitão: O feedback é o de um filme de culto. Isto para dizer que quem o vê se transforma naqueles fãs que citam a personagem diariamente. Dito isto, gostava de ter tido mais público para assegurar a sequela. De momento isso vai depender mais das vendas televisivas e do DVD/Bluray que da bilheteira propriamente dita.

É pena que a sequela não esteja já assegurada. Na tua opinião, porque é que o público português adere tão pouco ao cinema nacional, mesmo quando as propostas não são “elitistas”?

Tudo depende do ponto de vista. Tivemos mais adesão que o “Sangue do Meu Sangue” e o “Tabu”, que são a meu ver filmes ainda melhores que o “Capitão Falcão”. Acho que o problema tem mesmo a ver com a comédia nacional. O que vende cá precisa de ter influência de teatro revista e não de banda desenhada. Desde que fiz “Um Mundo Catita” que as pessoas me dizem regularmente que comédia inteligente não vende em Portugal. Eu é que insisto em remar contra a maré feito estúpido.

Apesar de ter achado o Capitão Falcão muito bem dirigido (a 1ª cena no Banco Nacional Português, por exemplo, é genial) quero concentrar-me aqui no teu lado de guionista. O filme é co-assinado por ti e pela Núria Leon Bernardo. Podes falar-me um pouco de como surgiu a ideia e de como funcionou a vossa relação?

Em 2009 escrevi sozinho um episódio piloto para uma série televisiva do Capitão Falcão que acabei por filmar em 2011. Quando depois dei por mim a escrever a série inteira (8 episódios) fiquei um bocado entediado comigo mesmo logo no 3º episódio. Foi nessa altura que convidei a Nuria para co-escrever o resto da série porque senti mesmo que precisava de uma argumentista que viesse para o projecto com olhos frescos. Após escrevermos a série inteira, o projecto transformou-se numa longa-metragem e recomeçamos tudo do zero.

A Nuria não só é uma excelente argumentista, mas também tem uma vantagem enorme em relação a mim, que é ser uma pessoa menos stressada. Eu quando fico preso numa página, sou capaz de passar semanas a remoer o mesmo problema. Ela salta para a página seguinte sem quebrar o ritmo de trabalho.

Temos duas maneiras muito diferentes de trabalhar que a meu ver se complementam bem.

Como é o teu processo de escrita normal? És de tratamentos, escaletas, etc. ou passas de imediato ao guião? Desenvolves biografias de personagens, etc?

A escaleta para mim é o mais importante. Se escrever um guião em 3 meses, de certeza que passei 2 só a conversar e a trabalhar na escaleta. Só quando tenho o filme bem estruturado, com as cenas numeradas e num formato de 4 ou 5 páginas que consiga colar à parede, é que abro um ficheiro no Final Draft.

Gosto que a improvisação na fase de escrita esteja no diálogo, nas descrições de cena e nas transições. Sempre que tentei escrever sem saber toda a viagem, acabei por desistir a meio do guião.

Em relação às biografias das personagens, tenho uma opinião um bocado contrária à maioria das pessoas. Acho que quase sempre estragam o argumento.

O problema das biografias é que corres o risco de ter informação escrita que para ti está clara mas que nunca vai chegar aos ouvidos do público. Se não fores um argumentista experiente corres o risco de escrever uma cena que para ti está bem justificada só porque conheces a motivação da personagem a partir da sua biografia.

O público nunca vai ler as biografias, por isso nenhuma motivação deve depender de algo que não está na tela. Além disso, os actores podem inclusive ter ideias próprias em relação às personagens que até podem ser melhores que as tuas.

Dito isto, sou completamente a favor de trabalho de pesquisa e de debates longos sobre as personagens. Acho que é por isso que gosto tanto de ter parceiros de escrita.

Quanto tempo demoraste a escrever o Capitão Falcão, e a que ritmo?

Não tenho bem a certeza, porque o processo de escrita do filme misturou-se com o processo de escrita da série. Mas provavelmente 8 meses na série e 3 meses no filme.
Como estava ao mesmo tempo à procura de financiamento para ambas as coisas nunca tive um prazo de entrega urgente, o que fez com que o ritmo fosse mais calmo que o normal.

Por quantas versões passaste, até estares satisfeito?

Fiquei satisfeito com o primeiro rascunho. Como tenho o hábito de dedicar muito tempo à escaleta, geralmente o primeiro rascunho é muito próximo do final. Penso que ficamos depois pelo 3º ou 4º rascunho, mas as alterações foram acima de tudo correcções ortográficas, deixas novas e um ou outro problema de produção que tenha surgido devido a restrições de orçamento.

Trabalhas bem em parceria? Como é que dividiste as tarefas com a Núria? Quais as principais dificuldades que sentiram.

Sempre trabalhei bem em parceria. Gosto de arrancar um projecto sozinho, mas depois prefiro escrevê-lo com outra pessoa porque a maior parte do trabalho para mim consiste em conversar.

Com a Nuria não senti que tivesse dividido tarefas. Ambos escrevemos e ambos ajudamos a escrever. Neste caso ela sabia que o projecto era muito pessoal e que eu já carregava bagagem por ter escrito e realizado o episódio piloto da série. Acho que ela tentou sempre ajudar-me, sem tentar forçar alterações à minha visão.

Digo isto sem pretenciosismos, porque meses antes eu estive na mesma situação que ela, a ajudar o Gonçalo Waddington a escrever o primeiro rascunho de um outro argumento que era também uma ideia original dele. Quando escrevi com ele a minha preocupação também era apenas que a sua visão ficasse no papel.

Quanto à maior dificuldade, foi definitivamente desistir dos argumentos da série e recomeçar do zero a trabalhar no filme.

Mas escreviam juntos, na mesma sala? Nesse caso, quem é que ficava no computador, a teclar? E o outro, fazia o quê?

Sim, sempre na mesma sala e alternando no teclado do portátil. Nunca escrevi à distância na minha vida. As nossas conversas nesta fase é que definem todo o projecto daqui para a frente, até mesmo em termos de realização e direcção de arte.

Em que fases deste a ler a alguém de fora o guião do Capitão Falcão? Foi a amigos, familiares, colaboradores – ou logo para o produtor?

Não me lembro bem, mas sei que ia mostrando o argumento ao meu co-produtor Manuel Barbosa. E penso até que mostrei algumas cenas inacabadas ao Gonçalo Waddington e ao David Chan Cordeiro.

Não foi uma questão de receber feedback, mas mais uma questão de respeito. Esta malta esteve anos à espera que o projecto arrancasse. O mínimo que podia fazer era mantê-los a par do trabalho.

Como lidas com as notas e comentários de terceiros? Mudaste muita coisa no guião?

Acho que lido bem. Ou mal, dependendo do ponto de vista. Gosto de as receber mas nunca mudo nada, excepto se for um erro óbvio.

Peço sempre a opinião a alguns amigos mas a minha preocupação é sempre a mesma: se perceberam o filme.

Não tento agradar a toda a gente por causa da velha máxima “Um camelo é um cavalo desenhado por comité.”

Muito especialmente, como foi a relação do guionista João Leitão com o realizador João Leitão? Fácil ou esquizofrénica?

Muito fácil. A relação com o produtor João Leitão é que foi mais tramada.

Qual é a tua abordagem às reescritas? Fizeste muitas? Usaste algum processo especial?

Não fiz nenhuma reescrita. Os 2 ou 3 rascunhos adicionais foram mais estéticos que outra coisa. Felizmente sinto-me sempre bem protegido com a escaleta.

O Capitão Falcão é um filme português, logo com orçamento muito abaixo do que seria ideal. Tiveste algumas preocupações com esse aspecto durante o processo de escrita? Quais?

Sou da opinião que nunca se deve ter isso em conta quando se escreve um primeiro rascunho. Escrever um filme já é um acto louco, não precisas de stress adicional.
Se depois ao orçamentar o filme chegares à conclusão que vais ter de cortar uma cena ou transformar um exterior num interior… então lidas com isso no próximo rascunho.
E isso vai quase sempre acontecer, especialmente se for uma produção independente.

Uma das coisas que mais gostei no filme foi a diversidade de técnicas de humor utilizadas, desde o conceitual ao físico e visual, passando, obviamente, pelos diálogos. Quais os teus conselhos para os guionistas que queiram escrever comédias?

O único conselho prático que tenho é que trabalhem em parceria com alguém que vos faça rir. O efeito “ping pong” na escrita de comédia é a única garantia que tenho de que estou de facto a escrever algo com piada. Acho que nunca ia ter a certeza de nada se estivesse sozinho com o Final Draft.

E não tenham medo de fazer figuras parvas e de ler o argumento em voz alta ou até tentar contracenar com o vosso parceiro (ou parceira) de escrita.

Passando ao lado mais processual: onde é que costumas escrever? E quais são os teus horários/ritmos normais de escrita?

Gosto de variar ao máximo o local. Já escrevi em escritórios, apartamentos, quintais, jardins, bibliotecas, casas de amigos, cozinhas, cabanas no meio do monte, enfim… qualquer sítio desde que não tenha a obrigação de estar sempre na mesma sala a fazer sempre o mesmo horário.

Em relação a horários, gosto mais de escrever de tarde e usar o jantar para conversar sobre as páginas do dia seguinte. Dito isto, tenho reparado que sou mais produtivo entre as 5 e as 9 da manhã.

Que apetrechos usas para escrever: papel e caneta? Computador? Software? Quais e porquê?

Papel e caneta para a escaleta, auxiliado por uma parede branca, post-its e um quadro pequeno onde possa escrever. Gosto que a primeira fase seja mais física e visual. Preciso de olhar para uma parede e sentir que tenho uma timeline do filme antes de abrir um projecto no Final Draft.

Em várias fases do processo também utilizo o Word, mas a minha dependência no Final Draft é absoluta. É um software barato que qualquer argumentista pode comprar e que faz toda a diferença quando depois tens de fazer um orçamento ou um plano de rodagem.

Cenas enumeradas, lista de personagens, lista de décores, análise de percentagens de deixas que cada actor tem, lista de figuração especial, etc e tal. Se trabalhares bem com o Final Draft estás a poupar imenso trabalho à equipa de produção e a alguns chefes de sector.

Quais seriam as condições ideais para poderes escrever o grande guião da tua vida?

Tempo, dinheiro e a alegria de não ser também o produtor. Geralmente só tenho uma ou duas destas condições. Espero um dia ter as três.

Termino com uma pergunta que me persegue desde que vi o filme. No trailer havia uma frase que achei fantástica — “”Somos portugueses; não precisamos de planos”* — mas ela ficou de fora da versão de cinema. Todos sabemos como o cinema português é carente de grandes tiradas, daquelas que se instalam no vocabulário corrente, e essa era uma digna sucessora do *”Ó Evaristo, tens cá disto?”. Diz lá, porque é que foi excluída do edit final?

És a primeira pessoa a reparar nisso. Aliás, há muita gente que jura a pés juntos que a deixa está no filme. E, dependendo do ponto de vista, é possível que tenham razão. É um mistério que prefiro deixar no ar, mas posso adiantar que a deixa nunca foi cortada em nenhuma fase da edição do “Capitão Falcão”.

Há lições a tirar daí?

Faz qualquer coisa só para ti. Mesmo que seja uma coisa tão pequena como uma deixa solta ou um objecto de decoração, deixa sempre uma lembrança. Certifica-te que não estraga a cena onde está, mas faz com que seja algo pessoal que mais ninguém vá perceber.

Isto porque depois de estrear, o filme deixa de ser teu. E é bem capaz que essa pequena “coisa” seja a única certeza que tens de que aquilo em tempos foi uma criação tua.

João, muito obrigado. Espero que haja uma sequela do Capitão Falcão ou, pelo menos, que o teu próximo projecto chegue mais depressa. Portugal precisa de rir.

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3 comentários

  • Olá, João Nunes!
    Leia o conto Com poucas palavras, no respectivo site. Avalie e entenda o miolo da história, pois acredito que resultará num bom curta-metragem.

    Saudações,

    Eduardo Damasio

  • Vicente 13/07/2015   Deixe uma resposta a →

    Os meus parabéns ao Sr. João Leitão, que com este filme ajuda a contribuir para a lacuna que existe no ramo do cinema popular português. É com este tipo de filmes (simples, descontraídos MAS muito bem realizados, ao contrário da maioria das “comédias” que persistem em aparecer todos os anos) que conseguiremos atrair o público português para o cinema mais erudito que continuamos (e bem) a fazer.

  • A entrevista está bastante interessante, no entanto o Capitão Falcão foi um filme muito fraquinho, mesmo tendo em conta o contexto do panorama cinematográfico português…Faltava ritmo e equilíbrio.

    Já agora, convido-o a visitar o meu espaço também.
    http://www.cinemaschallenge.blogspot.com

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