Escrever um guião a partir do zero é um desafio para qualquer pessoa. Quando pensamos que vai ser necessário encontrar uma ideia original; transformá-la numa storyline e numa escaleta; desenvolvê-la em 90 a 120 páginas; e reescrever essas páginas até ficarem no ponto – tudo isto a partir de uma página em branco – parece sempre uma tarefa impossível.

Mas como seria se tivéssemos uma equipa de seis pessoas permanentemente disponível para nos ajudar? O que mudaria se pudéssemos contar com o nosso staff de escrita pessoal? Com certeza seria mais fácil e retiraria muitas das nossas dúvidas e hesitações.

A realidade é que essa equipa existe e está sempre à nossa disposição. Deixe-me apresentá-la.

A sua equipa de escrita pessoal

Pense assim: você está agora em meados de Março e quer ter um guião escrito até ao fim de Setembro. É uma tarefa complicada, mas não é impossível. Na realidade até poderia escrevê-lo em trinta dias. Mas você trabalha, tem pouco tempo livre, e definiu que precisava de um pouco mais de tempo – seis meses. Ótimo! Para o conseguir vai contar com a ajuda preciosa e a capacidade de trabalho combinada de seis pessoas.

O seu primeiro colaborador é o Você de Abril.

A tarefa que lhe compete é muito simples. Durante todos os dias do mês de Abril, Você vai dedicar uma hora para escrever uma lista de dez ideias de estórias. Uma hora por dia. Não é pedir demais a este seu primeiro colaborador. O Você de Abril não terá qualquer dificuldade em terminar uma tarefa tão simples. Como tal, no fim do mês, irá entregar-lhe um documento com 300 – sim, trezentas – ideias.

A maior parte destas ideias será má – provavelmente até muito má – mas isso é perfeitamente normal. Felizmente tem 300 diferentes por onde escolher e entre elas haverá com certeza um número razoável de opções viáveis.

Dedique um dia a estudá-las e vai ver que pelo menos uma dessas ideias estará mesmo a pedir para ser escrita. É a ideia do seu filme. Agradeça sinceramente ao Você de Abril e passe o testemunho ao colaborador seguinte.

O Você de Maio vai receber uma dádiva preciosa: uma ideia fresca e original com que trabalhar. Uma ideia tão relevante que é impossível não sentir entusiasmo por poder desenvolvê-la. E vai ter 31 dias para o fazer.

Nos primeiros dias, Você vai transformar essa ideia numa storyline bem afinada, com princípio, meio e fim. Para esse efeito vai definir quem é o protagonista da estória; qual o desafio dramático que ele enfrenta; e o resultado que terá no fim.

Mantendo essa storyline sempre em vista, Você vai passar o resto do mês de Maio – uma hora por dia apenas, recordo – a desenvolver uma escaleta com 40 momentos bem definidos.

No fim do mês, o Você de Maio vai bater-lhe à porta com um sorriso de satisfação e passar-lhe para as mãos essa escaleta. Dê-lhe um abraço, agradeça-lhe efusivamente (pode até levá-lo a tomar uma cerveja) e ligue imediatamente para os colaboradores seguintes.

A equipa do guião

O trio que lhe vai aparecer de seguida é vagamente familiar: como já deve suspeitar, são o Você de Junho, o Você de Julho e o Você de Agosto. Os três vão trabalhar em equipa para escrever a estória que lhes vai confiar.

E como será fácil esse trabalho – já têm uma escaleta detalhada para os conduzir! Basta-lhes escrever uma página por dia – não mais do que uma hora de trabalho – para ter um guião pronto em 90 dias.

Além disso, os três colaboradores do Verão sabem que estão a trabalhar apenas no primeiro esboço do guião. A responsabilidade é por isso muito baixa. Têm apenas que colocar no papel as ideias que já estavam na escaleta, transformando-as em cenas, acções e diálogos.

Claro que vão querer fazer o melhor possível – escrever as melhores cenas, inventar as melhores acções, compor os melhores diálogos – mas sabem que o trabalho não termina com eles. Depois de terminarem alguém vai ter a responsabilidade de limpar todos os excessos e corrigir todos os disparates que possam escrever. Por isso a liberdade é total e a escrita um verdadeiro prazer.

No fim de Agosto o indo do Verão vai visitá-lo de novo e entregar-lhe um first draft completo. Vai olhar para eles com alguma inveja – afinal de contas, estão morenos, descansados e felizes – mas não se esqueça de lhes agradecer. Fizeram muito bem a sua parte do trabalho.

O último colaborador da equipa

Resista à tentação de encerrar o processo aí. Ainda tem mais um colaborador na sua equipa, e ele está ansioso pela sua vez.

Não admira – o Você de Setembro tem a parte mais prazerosa do trabalho de escrita: a reescrita. Vai receber 90 páginas terminadas, cheias de imaginação, verve e energia, e transformá-las numa máquina perfeita e bem oleada, pronta a conquistar todos os leitores e espectadores.

E nem precisa de trabalhar muito para o conseguir. Uma hora por dia – duas, se estiver mesmo muito entusiasmado – chegam para reescrever todo o guião, e mais de uma vez se for preciso. O difícil será parar. Quando, no fim do mês, o Você de Setembro lhe devolver o guião completo, é ele quem lhe vai agradecer. É sempre um privilégio poder escrever a palavra “FIM”.

Nessa altura, convoque a sua equipa de escrita, convide mais alguns familiares e amigos, e faça uma festa à moda antiga. Conseguiu! Tem um guião original para apresentar ao mundo. Abra o champanhe e brinde – Vocês merecem.

A estória continua

Na realidade o seu trabalho não termina aí. Ainda vai ter de se esforçar muito para transformar esse guião num filme. Terá de divulgar e promover o seu guião, até um produtor se apaixonar por ele. E terá também de começar a escrever o guião seguinte.

Felizmente você sabe que pode contar com o seu team: os Você de Outubro, de Novembro, de Dezembro e do resto da sua vida.

Como é bom trabalhar em equipa.

(Este artigo foi inspirado num artigo do blogue Wait But Why, que recomendo vivamente)

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3 comentários

  • Rafael Santos 16/03/2016   Deixe uma resposta a →

    Muito bom. Belo artigo, João. Sintetiza lindamente o processo desde a página zero até à última, e a luta — amiúde entre o prazer absoluto e a frustração momentânea — para se conseguir chegar ao FIM. O grande colaborador em tudo isto é sem dúvida o tempo, como o gerimos, e como nos devemos disciplinar; pessoalmente trabalho com todos os meus “colaboradores” — mesmo que um ao outro seja mais preguiçoso que os outros. Mas não me posso queixar: até hoje só me têm ajudado.
    Obrigado pelo texto, e bem-haja, João.

  • Andre Pais 13/04/2016   Deixe uma resposta a →

    Delicioso artigo! Motivador, inspirador e realista! Parabéns!

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