Festival Guiões Iuli Gerbase

É assim que eu escrevo: Iuli Gerbase, vencedora do Festival Guiões 2015

A edição 2016 do Festival Guiões já está em curso. Aproximam-se os últimos dias para poder concorrer com o preço de inscrição mais baixo, e foram anunciados mais prémios para os vencedores. Nada melhor, pois, do que ouvir a vencedora da edição do Festival Guiões 2015, a jovem autora brasileira Iuli Gerbase.

Nascida em Porto Alegre (Brasil) em 1990, Iuli Gerbase é mestranda em Escrita Criativa na PUCRS e formou-se em Produção Audiovisual pela mesma universidade. Escreveu e dirigiu cinco curtas metragens, que variam entre os géneros drama, infantil e ficção científica. O seu roteiro de longa metragem, Mergulho, venceu o Festival Guiões 2015. Passo-lhe a palavra.

Festival Guiões Iuli Gerbase

Festival Guiões Iuli Gerbase

Imagino que o teu 1º lugar no Festival Guiões tenha sido uma grande satisfação. O que é que fizeste quando recebeste a notícia?
Viajei até Lisboa para participar do Guiões, então fui na cerimónia de premiação. Estava nervosa, e fiquei muito feliz ao ouvir meu nome como vencedora do primeiro lugar. Fiquei tão eufórica que fiz um agradecimento bastante atrapalhado no palco, mas a plateia riu.

O que é que te levou a enviar um roteiro ao Festival?
Um amigo roteirista me mostrou o site do Guiões. Achei legal a ideia de um festival somente voltado para roteiros e enviei.

Já tinhas o guião escrito ou escreveste-o de propósito para concorrer?
Eu já tinha o roteiro escrito. Estava no terceiro tratamento quando o enviei.

Como é que surgiu a ideia desta estória? Há quanto tempo?
Não lembro exatamente como a ideia surgiu. Queria fazer um filme sobre uma mulher hesitante com seu casamento e abordar algumas dificuldades dos relacionamentos contemporâneos. A primeira versão foi escrita em 2013.

Como é o teu processo de escrita? És de tratamentos, escaletas, etc. ou passas de imediato à escrita?
Para narrativas longas, antes de escrever qualquer coisa, gosto de elaborar a ideia na minha cabeça por algum tempo. Se começo a escrever com a ideia ainda muito crua, não sinto segurança para ir em frente. Em seguida, anoto ideias soltas, seja sobre os personagens, possíveis cenas ou diálogos. Quando me sinto pronta, com uma noção do começo, meio e fim, faço uma escaleta, listando as sequências. Depois de analisar a escaleta e reescrevê-la, escrevo aos poucos a primeira versão do roteiro. Odeio escrever argumentos. Só os escrevo quando os editais de produção pedem, mas um texto de cinco a dez páginas (o que é muitas vezes pedido) que resume o roteiro nunca parece natural para mim. Acho as escaletas melhores de visualizar e remontar.

Quanto tempo costumas levar a escrever um guião de cinema, e a que ritmo? Em concreto, este guião agora premiado quanto tempo demorou?
O Mergulho está agora em seu quarto tratamento. Entre o primeiro e o quarto, passaram-se dois anos, mas não me dediquei exclusivamente a ele. Escrevi curtas, séries de TV e trabalhei como assistente de direção. Entre um tratamento e outro, gosto de esquecer o roteiro por alguns meses, para conseguir lê-lo com a cabeça fresca e com vontade de melhorá-lo. Se escrevo mais de quatro horas por dia, começo a sentir que a escrita começa a perder a qualidade. Então costumo escrever entre duas a quatro horas por dia, mas não todos os dias.

Quais as principais dificuldades que sentes durante a escrita?
A reescrita, para mim, é sempre mais burocrática e entediante que escrever a primeira versão, mas sei que é uma etapa essencial.

Tens alguma dica útil para combater o bloqueio de escritor? Ou isso é coisa que não te aflige?
Tenho dias mais criativos que outros, mas bloqueio nunca foi um problema para mim. Consigo escrever com prazos apertados ou sem nenhuma obrigação.

Em que fases dás a ler a alguém aquilo que escreves? E em quem é que confias para isso?
Gosto de entregar já a primeira versão para alguns leitores. Sempre entrego para as minhas irmãs. Elas não são roteiristas, então contribuem com uma análise mais intuitiva. Também tem intimidade para serem sinceras e dizerem se acharam ruim. Pergunto se acharam alguma parte entediante ou repetitiva e peço suas opiniões sobre o todo. Acho que uma vantagem de entregar para leitores que não são escritores é que eles não analisam o roteiro com alguns vícios aos quais ficamos habituados depois de ler manuais de roteiro. Mas também entrego para amigos que trabalham com cinema e tem o gosto similar ao meu. Eles me fornecem críticas mais pontuais e técnicas e sempre levantam questões relevantes que fazem eu repensar as cenas.

Como lidas com as notas e comentários desses leitores?
Sinto que críticas muito destruidoras não são úteis porque desmotivam o escritor a continuar a trabalhar na obra, mas geralmente as pessoas tem a sensibilidade de não falar que o roteiro simplesmente não presta. Acho os comentários muito úteis para refletir se o meu objetivo inicial foi alcançado ao escrever. É bom conhecer o perfil do escritor que fez os comentários para conseguir analisar se a sua dica não é apenas uma indicação do que ele faria se fosse o escritor da obra, seguindo o estilo dele. Acho que, em média, sigo 50% das recomendações dos leitores.

iuli aquario

Qual é a tua abordagem às reescritas; que processo usas?
Antes de reescrever, escrevo a mão uma lista com o resumo de cada cena e coloco sinais ao lado de cada uma. Por exemplo: um asterisco para quando o casal briga, uma bolinha para quando as coisas parecem estar melhorando, uma estrela para os momentos mais climáticos. Assim consigo visualizar o equilíbrio do roteiro e cuidar para que não haja muita repetição de ideias, sentimentos ou ações. Em seguida, faço cortes e remanejamentos das cenas. Por fim, reescrevo uma a uma, também revisando cada diálogo.

Tens alguma espécie de ritual para te colocar em modo de escrita?
Escrevo melhor de manhã, com a cabeça fresca, mas não tenho nenhum ritual. Apenas preciso estar em silêncio em uma cadeira confortável.

Onde é que costumas escrever? E quais são os teus horários/ritmos normais de escrita?
Costumo escrever em mesas ou na minha poltrona. Não é uma regra, mas gosto de escrever das 8h até a hora do almoço.

Como é que escreves? Se é no computador, que software usas?
Começo fazendo anotações em caderninhos ou no celular, mas escrevo o roteiro no computador, usando o programa Celtx. Existem programas mais complexos, mas sinto que não preciso de muito mais do que o Celtx me fornece.

Quais seriam as condições ideais para poderes escrever o grande guião da tua vida?
Acho que a condição ideal está mais relacionada ao meu estado de humor que a fatores externos. Quando estou muito empolgada com um projeto, não é necessário estar em determinado lugar ou com muito tempo livre para fazê-lo avançar. Dito isso, gosto de escrever quando está nublado ou chovendo porque fico com vontade de ficar em casa. Passar horas no computador em um dia de sol em que há a possibilidade de ir pra praia pode ser um pouco agoniante. Também acho muito difícil escrever durante um período em que eu esteja trabalhando como assistente de direção, porque fico muito imersa na obra do outro autor, e sets de filmagem podem ser muito cansativos. Escrever à noite, depois de ter filmado por dez horas, é impossível para mim. Já recusei alguns trabalhos para conseguir me dedicar aos meus roteiros.

Este ano vai haver um novo Festival Guiões, em que eu serei jurado. Quais são as tuas dicas para os leitores que queiram concorrer a esta edição?
Fico um pouco acanhada para dar conselhos a outros roteiristas. Como a inscrição acaba em um mês, acredito que tentar iniciar um roteiro do zero é uma missão suicida. É possível, mas provavelmente o roteiro não ficará bom. Para quem já tem um roteiro pronto, acho que vale a pena fazer uma releitura procurando falhas como diálogos desnecessários, cenas que apenas repetem a ideia de outra cena, clichês e ações previsíveis.

Obrigado, Iuli. Espero que o Mergulho encontre rapidamente um produtor interessado em passá-lo para o telão. Tenho muita vontade de conhecer os personagens em que tu investiste tanto do teu tempo.

Se gostou desta entrevista com a Iuli, e tem um guião guardado em alguma gaveta, porque é que não considera a possibilidade de concorrer ao Festival Guiões 2016? Os prémios são cada vez melhores e a divulgação da sua obra não tem preço.

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