Na quarta parte desta série sobre o uso do Scrivener para escrita de guiões vamos analisar em mais detalhe os seus dois modos de planificação – o quadro virtual e o outline.

Introdução

Até aqui vimos apenas os aspectos mais funcionais do uso do Scrivener. Agora vamos diretos ao que interessa: aplicar essas funcionalidades à escrita de um guião.

Num artigo anterior, que já referi neste curso, escrevi sobre os dois tipos fundamentais de autores: os que gostam de ter a escrita planeada à partida, e os que preferem escrever ao sabor da inspiração. Eu inscrevo-me na primeira categoria, por isso passo muito tempo nos processos que vou descrever neste capítulo. Mas mesmo para quem tenha uma abordagem mais espontânea estas funções de planeamento do Scrivener serão extremamente úteis nas fases de reescrita e aperfeiçoamento do guião.

Recordo que para acompanhar este curso pode baixar o modelo de projeto do Scrivener que apresentei no capítulo anterior:

GuioesJN

Os três modos de escrita

No segundo capítulo do curso vimos que é possível trabalhar no nosso guião de três modos diferentes: no modo de escrita; no modo de quadro virtual; e no modo de outline, ou escaleta. Podemos alternar entre eles através dos atalhos Cmd+1, Cmd+2 e Cmd+3, ou usando os ícones na Barra de Ferramentas.

Os três ícones de modo

Os três ícones de modo

É importante perceber que a unidade base de informação no Scrivener são os textos (a que o programa chama scrivenings, escritos).

Um texto é um documento que pode ter apenas uma palavra, uma frase, uma cena ou capítulo, ou até um manuscrito inteiro. Além disso, cada texto pode ter associada uma grande diversidade de atributos: sinopses, títulos, etiquetas, status, cores, etc.

Textos no Binder

Textos no Binder

Os modos de visualização são apenas lupas que nos permitem ver toda essa informação (os textos e os seus atributos) sob diferentes perspectivas; umas mais úteis para certos efeitos, outras melhores para outros.

Neste capítulo vamos focar-nos nas melhores aplicações do quadro e da escaleta, deixando o modo de escrita para o próximo capítulo.

O modo de quadro virtual

O quadro virtual do Scrivener é uma uma implementação informática dos tradicionais quadros de cortiça onde prendemos cartões manuscritos. Estes quadros são um recurso bastante utilizado por muitos guionistas na fase de planificação dos guiões.

O quadro virtual do Scrivener

O quadro virtual do Scrivener

O falecido guru de guião Blake Snyder dedica um capítulo inteiro ao quadro no seu livro Save the Cat, onde defende que ele é talvez a peça de equipamento mais vital que um guionista tem ao seu dispor – ao nível do papel, caneta e computador portátil. (…) Os quadros podem ser de todos os tipos e tamanhos: ardósias esborratadas de giz, quadros de cortiça com cartões e alfinetes para manter os eventos no lugar, e até páginas de blocos de notas coladas com fita adesiva nas paredes de um hotel durante as filmagens – numa tentativa de reescrever o guião no momento".

O Scrivener tem a melhor implementação do quadro entre todos os programas de escrita que conheço. Depois de ter tentado vários opções, incluindo online, esta é a única que uso constantemente.

Para efeitos deste artigo, e em homenagem a Blake Snyder, vamos criar um quadro com cartões da beat sheet – a versão de estrutura de guião que ele recomendava nos seus livros.

Criar um cartão

Vamos começar por abrir o projecto do Scrivener que criámos no artigo anterior. Se ainda não estamos no modo de quadro, vamos entrar com o atalho Cmd+2 e selecionar a pasta onde queremos o novo cartão. Para o criar o novo cartão podemos usar vários métodos: o menu Project/New Text; o atalho Cmd+N; ou o botão esquerdo do rato, como ilustrado.

Criando um novo cartão

Criando um novo cartão

O novo cartão vem sem título. Vamos dar-lhe um tirado da metodologia de Snyder, “Imagem inicial”. Basta clicar na palavra Untitled e escrever.

Cartão com título

Cartão com título

Temos assim o nosso primeiro cartão. Como já referi, não tem de corresponder obrigatoriamente a uma cena, ao contrário do que acontece, por exemplo, no Final Draft. Uma das vantagens do Scrivener é que cada cartão pode conter tanta informação quanto quisermos. Pode ser uma cena completa, uma parte de uma cena, ou uma sequência com várias cenas. E não somos obrigados a decidir logo: a qualquer momento podemos dividir cartões, combiná-los, agrupá-los, etc.

Escrever uma sinopse

A etapa seguinte é escrever uma sinopse do conteúdo do cartão. A sinopse – que não é obrigatória- é um bloco de texto (do tamanho que quisermos) em que podemos resumir o que acontece na cena ou cenas abrangidas pelo cartão.

Vamos preencher o nosso cartão com uma descrição (retirada do Save The Cat).

Cartão com sinopse

Cartão com sinopse

É importante perceber que o texto da sinopse não é o texto do guião. Se mudarmos para o modo de escrita veremos que o manuscrito continua vazio. A sinopse é apenas meta-informação que fica associada ao cartão e pode ser lida de várias formas; por exemplo, no Inspector.

Manuscrito vazio

O guião continua vazio

Editar a sinopse no Inspetor

Da mesma forma que podemos ler a sinopse no Inspector, também a podemos aí editar.

Editando a sinopse no Inspector

Editando a sinopse no Inspector

Vamos aproveitar para fazer uma coisa que nos será útil a seguir: carregando no menu Label podemos escolher entre várias etiquetas. Neste caso vamos seleccionar Cena mas, com a opção Edit…, também poderíamos criar e escolher qualquer outra etiqueta que fosse mais conveniente.

Atribuindo uma etiqueta

Atribuindo uma etiqueta

Note-se que cada etiqueta tem uma cor (editável) que aparece num canto do cartão. Isto é muito útil para nos ajudar a identificar cartões com características semelhantes. Por exemplo, podemos criar etiquetas diferentes para Enredo Principal e Enredo Secundário, distinguindo-os com facilidade através das cores.

Criando uma etiqueta

Criando uma etiqueta

O cartão com a nova etiqueta

O cartão com a nova etiqueta

Manipular os cartões

Vamos agora ver algumas operações que se podem fazer com os cartões. Para esse efeito preenchi mais alguns com outros passos do 1º Ato da beat sheet de Blake Snyder.

Para duplicar um cartão, temos as opções do costume: na ilustração usámos o menu Documents/Duplicate/With Subdocuments and Unique Title….

Menu Duplicar

Menu Duplicar

O cartão duplicado

O cartão duplicado

Os cartões duplicados trazem o mesmo nome do original, com a palavra copy para distinguir. Podemos mudar o seu nome – neste exemplo, para Catalizador.

Criamos outro cartão (a Viragem para o Segundo), ficando assim com os seis beats que, segundo Snyder, compõem o primeiro ato. Mas estão fora de ordem; a Viragem deveria ser o último cartão.

Nada mais simples: basta clicar no cartão que queremos mover e, sem largar, arrastá-lo para a sua nova posição.

Arrastar um cartão para nova posição

Arrastar um cartão para nova posição

Ficamos assim com um conjunto de seis cartões que podemos continuar a editar a nosso bel-prazer: escrevendo sinopses, atribuindo etiquetas e cores, etc. Podemos também mudá-los de lugar e reorganizar como veremos adiante.

Seis cartões fazem um primeiro ato?

Seis cartões fazem um primeiro ato?

Opções de visualização do quadro.

Como já percebemos, o quadro virtual do Scrivener é muito flexível, mas algumas opções aumentam ainda mais a sua utilidade. Podemos, por exemplo, mudar várias características de visualização dos cartões, usando um pequeno menu no canto inferior direito do editor, no que chamei de Barra de Informações.

Mudar as opções de visualização dos cartões

Mudar as opções de visualização dos cartões

Aí podemos, por exemplo, reduzir o tamanho dos cartões (card size), mudar o seu formato para vertical (Ratio 6×5) e escolher um tipo de letra mais pequeno (Use small font). Uma nota em relação a esta última opção – o formato do texto dos cartões não é editável; não podemos escolher individualmente negritos ou itálicos, nem mudar a sua cor. É pura informação.

Na Barra de Informações há mais dois pequenos ícones que nos permitem escolher entre a visualização em grelha (grid), que temos estado a usar até agora, ou a visualização livre (freeform), que vamos testar de seguida.

Mudar do modo grelha (grid) para o modo livre (freeform)

Mudar do modo grelha (grid) para o modo livre (freeform)

No modo grelha os cartões são arrumados automaticamente no espaço disponível, com margens iguais entre si. Escolhendo o modo de visualização livre podemos arrastar e organizar os cartões para onde quisermos, e até sobrepô-los.

Os cartões re-arranjados no modo livre

Os cartões re-arranjados no modo livre

Repare-se que, ao contrário do modo grelha, no modo livre a mudança de posição dos cartões não altera a sua ordem real. Por exemplo, troquei a ordem dos cartões Apresentação do Tema e Preparação mas no Binder (coluna da esquerda) eles continuam na ordem em que estavam antes.

Se quisermos que a ordem real dos cartões passe a ser a que entretanto definimos, basta carregar no botão Commit Order (em baixo). Vai surgir uma janela pedindo-nos algumas opções – ordenar de cima para baixo ou da esquerda para a direita, por exemplo.

Escolher as opções de ordenação

Escolher as opções de ordenação

Depois basta confirmar (botão OK) e essas alterações serão reflectidas na ordem real do manuscrito, visível no Binder

A nova ordem

A nova ordem

Preferências do modo de quadro virtual

O Scrivener tem um assustador Painel de Preferências (menu Scrivener/Preferences), com centenas de opções. Como dizia o Homem-Aranha, com grande poder vem grande responsabilidade.

A seu tempo será bom explorar as diferentes opções de preferências mas, para já, vamos testar apenas algumas que se aplicam ao quadro virtual (corkboard). Comece por seleccionar o campo Corkboard no painel de preferências. Surgem duas dezenas de opções.

Duas dezenas de Preferências

Duas dezenas de Preferências

Vamos, por exemplo, escolher padrões de fundo para ambos os modos de visualização; alterar o estilo dos cartões; e mudar a fonte dos títulos e sinopses para esse eterno favorito da internet – a Comic Sans ;-) Vejamos o resultado.

As Preferências já aplicadas

As Preferências já aplicadas

Note-se que estas alterações não mudam em nada o texto do guião. Na realidade, depois da criação e manipulação de todos estes cartões, o manuscrito ainda está completamente vazio. O único indício de que algo mudou é que, selecionando Guião, vemos algumas linhas divisórias a separar os limites dos seis cartões.

O guião continua vazio

O guião continua vazio

O modo de quadro virtual tem muitas mais possibilidades e truques para explorar, mas estão fora do âmbito deste curso de iniciação. Está na hora de conhecermos o outro modo de visualização útil para a planificação: o modo de outline, ou escaleta.

O modo de outline ou escaleta

Começamos por seleccionar o ícone de visualização em modo outline na Barra de Ferramentas. O editor muda para uma nova forma de apresentação que, à falta de melhor, podemos comparar com uma folha de cálculo do Excel, dividida em linhas e colunas.

O Editor no modo outline, ou escaleta

O Editor no modo outline, ou escaleta

De cima para baixo vemos sucessivas linhas de texto. Cada linha corresponde a um dos cartões que criámos antes, na sequência em que os ordenámos.

Por sua vez, da esquerda para a direita, vemos colunas com diversos tipos de informação. A primeira coluna, por defeito, inclui o título e a sinopse do cartão. As restantes colunas podem mostrar as etiquetas, o status, ou outras informações à nossa escolha.

A grande vantagem do modo de escaleta é que, por um lado, é muito fácil reordenar a estória; por outro, é muito rápido e alterar a “meta-informação” das restantes colunas.

Vamos começar por restabelecer a ordem correcta do beat sheet. Nada podia ser mais simples: basta clicar no ícone da cena que queremos mudar e, sem largar, arrastá-la para a nova posição.

Reordenando a escaleta

Reordenando a escaleta

Com a linha na nova posição na escaleta, vamos agora alterar algumas informações. Podemos, por exemplo, escrever mais sinopses; mudar a etiqueta de todas as cenas; e alterar o seu status para 1ª Versão. Vejamos o resultado dessas manipulações.

Várias opções alteradas na escaleta

Várias opções alteradas na escaleta

Podemos também criar novas linhas (que correspondem a novos cartões), para o que bastará o atalho Cmd+N ou, tendo uma linha seleccionada, fazer Enter (tecla parágrafo).

Criando novas linhas na escaleta

Criando novas linhas na escaleta

Finalmente, podemos agrupar algumas linhas dentro de outras, criando uma ordem hierárquica. Para isso basta arrastar as linhas que queremos mudar – linhas filhas – para cima da linha mãe.

Reordenando a escaleta em diferentes níveis

Reordenando a escaleta em diferentes níveis

As linhas filhas ficarão num alinhamento um pouco mais à direita que as restantes. Por sua vez, a linha mãe ficará com um pequeno triângulo do lado esquerdo, que nos permitirá visualizar ou esconder as suas filhas.

A escaleta com cenas em diferentes níveis hierárquicos

A escaleta com cenas em diferentes níveis hierárquicos

Para terminar, é importante perceber que todas estas manipulações tiveram as suas contrapartidas no quadro virtual. Se mudarmos para este modo de visualização veremos que a linha mãe é agora representada por uma pequena pilha de cartões.

O mesmo aconteceu no Binder, onde podemos ver que o texto Apresentação do Tema tem dois sub-textos entro de si.

As alterações refletidas no quadro e no Binder

As alterações refletidas no quadro e no Binder

Conclusão

Combinando os dois modos de planificação que o Scrivener oferece – quadro e escaleta – torna-se extraordinariamente fácil organizar, testar e alterar as melhores soluções para os nossos guiões. Compor novas cenas, mudá-las de lugar, agrupá-las e reorganizá-las – tudo se faz num ápice.

No próximo capítulo veremos como se passa da planificação para – finalmente – a escrita.

Pergunta aos leitores

Há alguma questão particular que gostasse de ver esclarecida sobre os modos de planificação do Scrivener? Deixe a sua dúvida nos comentários abaixo e tentarei responder-lhe num dos próximos artigos.

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