parênteses

Perguntas & Respostas: como usar os parênteses

Por vezes sinto necessidade de fazer uma nota sobre um personagem durante o diálogo de outro personagem. Posso usar um parênteses para isso? – Paulo

A resposta rápida é “não”. Os Parênteses só devem ser usados para dar indicações relacionadas com o personagem que está a falar.

Mas vamos explorar um pouco mais o assunto, explicando o que são e como devem ser usados os parênteses.

O que são os parênteses

Os Parênteses (em inglês, Parentheticals) são uma convenção especial do formato de escrita dos guiões, herdeira das Didascálias da escrita de teatro. Na prática aparecem assim no guião:

PAULO

(gritando)

Escrever ou não escrever um parênteses, eis a questão.

Como é óbvio, o Parênteses neste exemplo é a palavra gritando, escrita – aí está – entre parênteses.

Mas enquanto as Didascálias do texto dramático serviam para dar todo o tipo de indicações cénicas, tais como direções de ação, de cenografia ou de interpretação, os Parênteses destinam-se apenas a ajudar os atores a interpretar corretamente a intenção do guionista nos diálogos.

Como tal servem essencialmente para marcar pausas num texto, para dar pequenas indicações de interpretação ou sentido que não sejam óbvias, ou para descrever ações curtas e importantes que acompanhem o diálogo.

Note-se que, tal como os realizadores não gostam que os guionistas dêem indicações de câmara ou de direção de cena, muitos atores também são renitentes a ser dirigidos a partir do papel. Alguns chegam ao ponto de rasurar no guião todos as instâncias de Parênteses, para não serem influenciados na sua interpretação dos textos (e subtextos).

Como tal, a primeira recomendação no uso dos Parênteses é a moderação.

Além de poderem aborrecer os atores e irritar os realizadores (ou vice-versa), os Parênteses usados de forma indiscriminada tornam penosa a leitura de um guião.

Pior ainda, se não acrescentarem nada às cenas, marcam definitivamente o guionista como um amador.

Como usar os parênteses

Vejamos então algumas regras básicas para o uso dos Parênteses, seguidas de pequenos exemplos.

  • Os Parênteses são sempre escritos dentro dos blocos de Diálogo, logo a seguir ao nome do Personagem ou entre as linhas de Diálogo.

JOÃO

(entusiástico)

Vocês sabiam que só são conhecidos 47 números perfeitos e que são todos pares?

(pausa)

O que foi, não sabem o que são números perfeitos?

  • Os Parênteses nunca devem ser a última linha de um bloco de Diálogo. Se for o caso, deveremos convertê-los numa linha de Ação, colocada a seguir ao bloco de Diálogo.

JOÃO

Este exemplo de uso de Parênteses está profundamente errado. Não deveria ser a última linha deste bloco de Diálogo.

(pausa)

JOSÉ

Já este caso está correto. Em vez de um Parênteses no fim do Diálogo, colocamos um linha de Ação a seguir.

José faz uma pausa antes de prosseguir.

  • Os Parênteses devem dar indicações curtas e sintéticas, com o mínimo de palavras possíveis.

JOÃO

Este uso de Parênteses está errado.

(faz uma pausa longa, seguida de uma hesitação, à qual se somam uma vacilação e um titubeio)

Já este...

(pausa)

...está correto.

  • Os Parênteses só devem ser usado para esclarecer algo que não fica óbvio com a leitura direta do diálogo.

JOÃO

(irónico)

Adoro adoro adoro o circo, de forma geral, e os palhaços em particular.

  • Se os Parênteses indicarem ações, estas devem ser relevantes e descritas de forma sintética. Se forem mais complexas, devem ser convertidas em linhas de Ação.

JOÃO

Vamos lá voltar aos números perfeitos.

(liga a calculadora)

Comecemos pela sua definição.

Sobe para cima de uma cadeira e daí para cima da secretária.

  • Os Parênteses são escritos numa linha isolada, sempre em letra minúscula, incluíndo a primeira letra, e não levam ponto final ou outra pontuação.

JOÃO

Este uso do Parênteses...

(PAUSA.)... está completamente errado. Já este

(comovido)

...está perfeito.

  • Os Parênteses nunca devem ser usados para descrever sons, cenários, direcções de câmara ou efeitos especiais.

JOÃO

Todos estes Parênteses estão tão errados que me dão vontade de chorar.

(ouve-se um UIVO à distância)

O meu dia está estragado ao ver os Parênteses tão mal usados.

(começa a chover)

Estou a contemplar matar o autor.

(O autor foge)

  • Os Parênteses podem ser usados para dar indicações especiais quanto a língua ou sotaque.

JOÃO

(em inglês)

São bem úteis, os Parênteses.

(com sotaque italiano)

E poupam muito trabalho ao guionista.

  • E, finalmente, regressando à pergunta inicial, os Parênteses aplicam-se apenas a quem está a falar, e nunca a terceiros. Se quisermos descrever uma reação de um outro personagem, devemos fazê-lo numa linha de Ação intercalada entre os blocos de Diálogo.

JOÃO

(entusiástico)

Vocês sabiam que só são conhecidos 47 números perfeitos e que são todos pares?

José revira os olhos e os outros ouvintes bocejam.

JOÃO

(superior)

O que foi, não sabem o que são números perfeitos?

Conclusão

Os Parênteses são um importante recurso ao dispor dos guionistas para tornar mais claras as suas intenções e objetivos nos Diálogos. Mas, como tantas outras coisas na escrita do guião, devem ser usados com moderação e economia. Menos é, quase sempre, mais.

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2 comentários

  • Thiago Sales 16/07/2016   Deixe uma resposta a →

    Eu acho complicado introduzir um personagem. Sempre tenho a impressão que descrever o personagem logo após apresentá-lo na descrição da cena quebra um pouco o ritmo. Poderias usar parênteses para descrever o personagem logo após colocar o nome dele? EX: MARIA (20 anos, alta, atraente, porém, mal vestida para a ocasião) entra.

    • Olá Thiago, os Parênteses a que me refiro no artigo são muito específicos, e usados apenas dentro dos blocos dos diálogos.
      A utilização de parênteses da forma que sugere é possível, mas não é muito comum. É frequente vermos a idade acrescentada a seguir ao nome de um personagem, mas mais do que isso não.
      Em minha opinião, escrever tanta informação entre parênteses até quebra mais a fluidez da descrição do que se for numa frase normal, com vírgulas. Eu preferiria escrever o seu exemplo como:
      MARIA (20 anos), alta, atraente, porém, mal vestida para a ocasião, entra.
      Mas se gostar mais da forma que sugere, não há regra nenhuma que o proíba.

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