Como escrever uma cena em que a voz do personagem começa na cena anterior e acaba na cena seguinte? – Sandra

Presumo que a voz que refere mantenha uma sequência discursiva de uma cena para a outra. Recordo que há mudança de cena quando a acção muda de forma significativa no espaço ou no tempo.

Há uma enorme variedade de situações em que isto pode acontecer. Por exemplo:

  • um personagem em movimento passa de um espaço para outro enquanto vai mantendo um discurso contínuo;
  • um personagem faz o mesmo discurso em vários locais diferentes, de forma a haver uma continuidade da fala;

  • uma voz off contínua une diversas cena díspares;

  • um diálogo de uma cena começa, em off, na cena anterior.

A imaginação dos autores é o único limite para o tipo de aplicações desta técnica, e não há nenhuma regra específica para indicar o seu uso.

Como em tantas outras situações, a nossa única preocupação deve ser que a situação fique bem clara e compreensível no guião, usando as técnicas de escrita normais.

Exemplos

Vejamos um exemplo, retirado do guião do filme Jumper (a tradução é minha, e aparei um pouco as cenas):

INT. CASA DE COX – DESPENSA – DIA

Está escuro. Cox liga a luz – e VÊ David mesmo à sua frente!

DAVID

Linda família, Cox. Achas que vão sentir a tua falta?

Cox vira-se para fugir, mas David mergulha sobre ele, SALTANDO os dois dali.

EXT. ILHA HOWLAND – DIA

David e Cox aparecem numa praia. Cox deixa-se cair de joelhos, tentando sacar uma arma. David SALTA atrás dele e BATE-LHE com um bastão telescópico.

DAVID

Tira a tua camisa. E as calças também.

COX

Desculpa?

DAVID

Quero ver o teu dispositivo de localização. Com certeza estás a usar um.

(...)

Esta situação é extrema. David usa o seu poder de SALTAR para arrastar Cox de uma dispensa para uma ilha no outro lado do mundo, mas continua a conversa de uma situação para a outra. Como se vê, não há nenhuma indicação especial; apenas as convenções normais de escrita.

Outro exemplo ainda, desta vez retirado do excelente guião de The Martian (uma vez mais, tradução minha):

INT. FOGUETÃO – DIA

Conforme vamos ouvindo o CONTROLADOR começar a contagem decrescente...

CONTROLADOR (VIA COMUNICAÇÕES)

10... 9... 8...

Focamos um dos membros da tripulação do ARES 5.

RICK MARTINEZ. Sorri enquanto sente aquela familiar descarga de adrenalina. Cá vamos de novo...

INT. CASA – DIA

Avançamos pelo corredor de uma casa pitoresca. Nas PAREDES: discos vintage e cartazes...

O disco LAST DANCE de Donna Summer... C’est Chic... Uma camiseta curta emoldurada que parece algo que Gloria Gaynor poderá ter usado...

CONTROLADOR (VIA COMUNICAÇÕES)

7... 6...

E misturado com toda essa parafernália cheia de brilhos:

A Medalha da NASA para Serviços Distintos... A Medalha de Honra do Congresso...

MELISSA LEWIS está colada à televisão. Não desvia o olhar quando o seu marido lhe entrega uma chávena de chá.

Naquele momento está com a tripulação. O marido não se ressente com isso. Faz-lhe um afago amoroso e retira-se.

CONTROLADOR (VIA COMUNICAÇÕES)

5... 4...

INT. NASA – SALA DE CONTROLO DA MISSÃO

PLANO ABERTO DA SALA enquanto a equipa olha ansiosamente na nossa direccção, em antecipação.

CONTROLADOR (VIA COMUNICAÇÕES)

3... 2... 1...

Lançamento.

A multidão irrompe em aclamação. Abraçam-se uns aos outros.

Flutuamos para descobrir...

EXT. ESPAÇO

A Terra. Azul e bela.

O nosso lar.

FADE OUT.

FIM

Neste caso, é a voz off (VIA COMUNICAÇÕES) do controlador, que faz uma contagem decrescente, unindo as diversas cenas: dentro do foguetão; em casa de Melissa; e na sala de controlo da missão.

Uma vez mais, não há nenhuma técnica de escrita especial; apenas os Cabeçalhos e Descrições normais, bem explicativos, que deixam perfeitamente claro o que está a acontecer.

Uma excepção: o Pre-lap

Há contudo uma técnica de escrita específica para certas situações, a que se chama PRE-LAP. Pode ser usada quando queremos que um Diálogo de uma cena comece a ser ouvido ainda na cena anterior.

Nesse caso a norma (anglófona) é escrever (PRE-LAP) a seguir ao nome do personagem que fala.

Vejamos um exemplo retirado do guião The Nines:

(...)

A sua identidade confirmada, desliga o telefone. Olha de novo para a entrada da casa.

GARY (PRE-LAP)

A casa está assombrada. Há um zeitgeist, ou coisa assim.

EXT. VARANDA SUPERIOR – DIA

Margaret trouxe café e pastéis.

MARGARET

Diz-se Poltergeist, e não. Talvez fossem ratos. L.A. está infestada de ratos. Vivem nas palmeiras.

(...)

Este exemplo deixa clara a utilização do PRE-LAP. O comentário de Gary à casa assombrada é o início do diálogo com Margaret, que preenche a cena seguinte, mas é apresentado ainda na cena anterior.

No entanto, recomendo muita moderação no uso desta técnica, por várias razões:

  • este tipo de truques são frequentes no cinema, mas são normalmente decididas na fase de montagem do filme. São uma forma de criar mais fluidez na transição de umas cenas para as outras. Inclusive, podem nem ser com diálogos. É muito frequente começarmos a ouvir numa cena um som que pertence a uma cena seguinte (como neste genial exemplo que já analisei antes). Tem de haver uma razão muito forte para o descrever já no guião, caso contrário são apenas um virtuosismo de guionista, que pode criar confusão.

  • mais importante ainda, o PRE-LAP não tem tradução (que eu conheça) para a língua portuguesa, e é completamente invulgar usá-lo na forma escrita. Corremos sérios riscos de ser mal-entendido (ou simplesmente não entendido) por quem esteja a ler o guião.

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2 comentários

  • E aí, João, beleza?
    Eu não conhecia esse lance do pre-lap. Quando precisei usar algo parecido em um roteiro, simplesmente deixei o nome do personagem e uma indicação de V.O. ao lado, com a continuação do diálogo na cena seguinte. Na sua visão, isso vale ou eu estava fazendo besteira?
    Abraço!

    • Estava perfeito; eu com certeza usaria essa solução também. Como explico no artigo, o PRE-LAP é muito pouco usado, precisamente por ser pouco conhecido.

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