Festival A Quatro Mãos em directo

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2.º DIA

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19:25 – A CEM PÁGINAS DO FIM – Pedro Varela

Guionista e realizador de publicidade, televisão e cinema, Pedro Varella partilha connosco o seu processo criativo.


17:45 – DIVERSOS AUTORES, UMA DRAMATURGIA – Paulo Morelli

O guionista e produtor Paulo Morelli explica e desenvolve os conceitos básicos e universais da dramaturgia.  


Uma palestra muito técnica, em que o Paulo faz uma resenha dos mecanismos básicos da dramaturgia a partir do pensamento teórico de autores e gurus de escrita como Robert McKee e John Truby.

16:15 – À CONVERSA COM – Tiago R. Santos
O guionista Tiago R. Santos, autor de muitos dos grandes sucessos de bilheteria nacionais, fala com Paulo Trancoso sobre o seu processo de escrita.


14:00 – ESCREVER CINEMA DE GUERRILHA – Sérgio Graciano
O realizador Sérgio Graciano fala sobre a produção de filmes de low e no-budget.


“É porreiro as pessoas quererem ver os nossos filmes.”

“Os atores em Portugal querem filmar.”

“Uma das regras base do cinema de guerrilha é contar uma boa estória.”

“Convém ter dois ou três cenários, porque o dinheiro não chega para mais.”

“Temos que ter quatro ou cinco atores bons, que não precisem de muitos ensaios, porque não há dinheiro para ensaios. 

“O segredo é ter uma boa estória e um ambiente controlado.”

“Num filme de guerrilha normalmente não se pode filmar muitos dias seguidos, porque os atores estão a trabalhar noutras coisas ao mesmo tempo, em teatro, em TV. O segredo é conhecer bem os atores.”

“Os atores têm de ser muito disciplinados, mas os técnicos também têm de ser muito disciplinados.”

13:00 – ESCOLA DE SÉRIES – Sonia Rodrigues

A escritora e roteirista Sonia Rodrigues fala sobre a iniciativa Escola de Séries.


“A Escola de Séries surgiu como uma resposta à dificuldade do Brasil em lidar com o formato séries

“É muito improvável que uma emissora compre um projeto original de um roteirista iniciante.”
“Na televisão americana há sete passos antes de chegar a ser show runners.”

O essencial da palestra foi a apresentação do projeto Escola de Séries, que se destina a formar uma nova geração de roteiristas mais familiarizados com as características específicas do formato séries, desde as noções básicas da escrita dramática às questões mais avançadas de produção

12:15 – À CONVERSA COM Marco Martins e Bruno Nogueira 

O guionista/realizador Marco Martins conversa com o ator, humorista e guionista Bruno Nogueira sobre o processo de escrita, com moderação de Patrícia Vasconcelos. 



# 11:15 – CONVERGÊNCIA CRIATIVA – Jô Bilac

O dramaturgo e guionista Jô Bilac fala sobre o desafio da diversidade e da representatividade.


“Venho de uma comunidade indígena onde não se falava português. Comecei a escrever para aprender o português.”

“Desde cedo entendi o meu trabalho como uma oportunidade de intervir na sociedade.”

“O meu trabalho reflete muito as minhas origens e eu acredito que deve ser assim com todos os autores.“

“Faz-se teatro em qualquer lugar; o cinema e a televisão são mais elitistas, uma cerca mais fechada.”

“Tentei aprender sobre a escrita me aproximando dos atores.”

“O grande lance não é o enredo, mas o personagem e a sua ligação com a audiência.”

“Escrever vai para além da forma; há o conteúdo sempre com a forma atrelada.”

“Hoje em dia eu não consigo escrever uma linha com que não me identifique ou que não me represente.”

“Eu preciso me sentir reconhecido e representado no que faço.”

“É muito impressionante que no meio artístico e nas audiências da experiência artística os participantes sejam todos brancos. Os negros pobres não vão ao teatro.”

“Está na altura de escrever novos tempos.”

“A cidadania é o principal lugar da televisão.”

“Para mim a arte, a escrita, sempre teve a ver com o que me move no meu país. A educação está no centro disso.”

“A arte tem a ver com transcender; ver a coisa por trás da coisa.”

“Como escritor me preocupo muito com o sub-texto, com o que está por trás das palavras. (…) Infelizmente a maior parte da população não entende o sub-texto.”

“Cada vez mais entendemos que a arte é uma trincheira.”

10:10 – PENSAR LOCAL, CRIAR UNIVERSAL – Pedro Marta Santos

O jornalista e guionista Pedro Marta Santos, autor de Amália, entre muitas outras obras, fala sobre a universalidade da criação.


“Muitos êxitos globais partiram de estórias locais e específicas.”

“Será que só existe talento exportável a partir de Badajoz.”

“Na minha opinião o cinema português age como um adolescente medroso, tem medo de muitas coisas.”

“Todos os guiões são relatos de um processo de transformação senão não são normalmente bons guiões.”

A palestra foi baseada em exemplos de filmes que tiveram sucesso internacional, mas provenientes de cinematografias fora das grandes máquinas de Hollywood ou da Ásia. 

  • “Habla con ella”
  • “El secreto de sus ojos”
  • “A vida dos outros”
  • “Cachet”

O Pedro tentou encontrar elementos comuns que possam ser transpostos para o caso português.

Cada um destes filmes pega em elementos da cultura local e da personalidade do autor mas modula-os com aspectos da dramaturgia universal, que os tornam eminentemente relevantes para qualquer espectador em qualquer parte do mundo.

“Permitam-me um conselho: não tenham medo das fórmulas. (…) Os grandes génios do cinema conheciam e usavam as regras.”

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1.º DIA

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19:00 – SÉRIES BRASILEIRAS E SUAS CARACTERÍSTICAS – Fernando Bonassi

O escritor e cineasta Fernando Bonassi, roteirista de filmes como Estação Carandiru e Cazuza: O Tempo Não Para, fala sobre a televisão brasileira.

“Narrar com imagens é muito mais difícil do que narrar com palavras.”

“A coisa mais importante no Brasil depois do fim da ditadura é a entrada da periferia na paisagem cultural.”

“Hoje conhecemos a favela por causa de Cidade de Deus; a polícia graças à Tropa de Elite; as prisões devido à Estação Carandiru.”

“Cento e dois milhões de pessoas passam pela rede Globo por dia.”

“Como é que se produzem séries num país de novela, quando um episódio de série custa dez de novela?”

“Eu leio um livro por semana e vejo um filme por dia desde os vinte anos. Isso cria repertório. Graças a isso eu sei como se ama, como se odeia, como se mata ou não se mata.”

“O que é a Casa dos Roteiristas (da Globo)? É uma casa. Onde se escrevem roteiros. Mas o interessante é que trabalhamos todos juntos.”

“Uma coisa maravilhosa que a Casa do Roteirista tem é os trainees. Eles estão a ser formados, acompanham todo o trabalho desde o início, todas as fases.”

“O que é legal na Casa dos Roteiristas é que tudo é intensamente debatido.”

“A escaleta já foi muito discutida, está tudo definido. Se você não for capaz de escrever o roteiro em duas semanas eu demito você.”

“Eu que venho de uma família operária nunca acertei tanto como em ter escolhido ser roteirista. Tem muita oportunidade.”

18:00 – PRODUÇÃO INDEPENDENTE DE SÉRIES DE TELEVISÃO – Adilson Xavier
O ex-publicitário e produtor audiovisual Adilson Xavier, CEO da Zola Filmes, fala sobre produção de séries. 

“Vida de produtor independente é um inferno. O mais interessante dos infernos.”

“Vivemos um momento de ouro da televisão.”

“Como qualquer corrida ao ouro está valendo tudo: cotovelada, empurrão.”

“Produtor independente vive pela lei dos 4 p’s: pequeno, pobre, perto do perigo.”

“Produtor precisa ter alma de roteirista.”

“Na dúvida aposta no personagem.”

“Cada vez que você muda de lugar numa filmagem você vai deixando um monte de dinheiro pelo caminho.”

“Uma produção é uma aventura.”

“Uma série de TV não é uma novela encolhida; é uma longa-metragem bem fatiada. O cinema é a nossa referência.”

“A televisão no Brasil é herdeira da rádio. Por isso é muito falada; tem muito diálogo, mais do que o necessário.”

“Brasil e Portugal são parceiros naturais. Só não estão ainda praticando essa parceria.”

“Tem um jeito brasileiro de fazer seriado com um padrão de qualidade superior ao da novela.”

“O tamanho de uma televisão é o tamanho da coragem dos seus donos.”

“Às vezes um produto bom de venda internacional pode não ter interesse para os brasileiros. Esse é um tema que temos de entender ainda.”

17:30 – Coffee break com a Dra. Madalena Zenha – Direitos de Autor

16:20 – ADAPTAR UM LIVRO PARA GUIÃO – Rui Vilhena

O guionista luso-brasileiro Rui Vilhena vai falar sobre a sua experiência de adaptação do romance Equador de Miguel Sousa Tavares. 

“A primeira coisa foi dissecar todo o livro. Terminámos com uma bíblia super-grossa.”

“Um conselho que dou para vocês: quando forem contratados para adaptar um livro garantam que o autor não vai estar envolvido no processo.”

“Uma adaptação não deve ser um clone da obra.”

“O primeiro desafio foi encontrar as tramas novas que não entravam no livro.”

“Eu funciono muito por referências. Se me encomendarem uma estória Disney eu vou fechar-me uma semana para ver todos os filmes da Disney, o que funciona.”

“Uma estória começa sempre como um bolinho de merda. Depois vamos acrescentando mais camadas de merda. Quando os personagens pensam que estão a limpar descobrem um cocó ainda maior por baixo.”

“O mais difícil foi criar os sub-plots porque têm de fazer sentido.”

“Quando dissecámos o livro fizemos uma lista dos defeitos de cada personagem. Isso deu muito jeito.”

“Em Lisboa tinha um bordel. Bordel é sempre bom. É colorido, tem bebida, sacanagem e fofoca.”

“Eu aprendi a importância de escolher os cenários na minha primeira novela. Tinha um personagem que eu disse à produção que só precisava de ter uma sala. Esse personagem transou muito, mas só na sala. No sofá, na mesa, no tapete, mas só na sala, porque não foi feito um quarto para ele. Eu aprendi com isso.”

“Uma cena tem que ter uma função dramática. Se não tem o que é que está ali a fazer?”

“Eu sou neurótico, obcecado com ganchos. Um episódio tem de terminar num gancho.”

“Quem trabalha comigo sabe que é lei: tem de ler as grelhas completas, tem de ler o guião final e tem de ver o episódio gravado. Não pode ler só as suas cenas da grelha, as que vai escrever. Se não ler e ver tudo, vai ser apanhado mais cedo ou mais tarde. Eu vou apanhá-lo.”

“Às vezes você tem que fazer a escolha de Sofia: o que é que tira e o que é que fica?”

15:25  – ESCREVER COMÉDIA -Adriana Falcão 

A parte da manhã foi no Centro Cultural de Cascais. Agora à tarde mudámos para a Casa das Histórias.

A roteirista brasileira Adriana Falcão, autora da série de humor A Grande Família e co-autora do excelente filme dramático O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, vai falar sobre uma das suas especialidades, a escrita de comédia. 


“Vou falar um pouco sobre o meu pouco apego às regras.”

“O começo é sempre doloroso.”

“Em geral parto de um ponto de vista.”

“Uma coisa que me tem ajudado muito a escrever comédia é fingir que não sei o que sei – eu não sei o que é uma cadeira – e reconstruir o processo mental do que é uma cadeira.”

“Em comédia a gente inventa muito.”

“A comédia depende muito da surpresa. E de defender o meu personagem. “

“Quando a situação é engraçada a piada vem. Nem precisa pensar muito.”

Uma palestra muito engraçada, mas também muito íntima e humana, que terminou com várias estórias pessoais sobre a sua relação com a mãe, que já inspirou várias obras suas. Todas as estórias eram muito trágicas, mas também muito engraçadas. Talvez essa seja a lição principal da palestra: a comédia é apenas uma tragédia vista sob um ponto de vista diferente.

13:20 – O PROCESSO DE ESCRITA – Jim Sheridan 

O cineasta irlandês Jim Sheridan, autor entre outras obras do fantástico filme O meu pé esquerdo, vai falar sobre o seu processo criativo.


“A minha pequena viagem como cineasta é como a de um padre, que tenta dizer coisas profundas, mas se sente como uma prostituta.”

“A ideia é fundamental e o mais importante.”

“Vivo obcecado com quem é a audiência e como falar-lhe.”

“Um filme é como um primeiro encontro; queremos impressionar mas não podemos deixar-nos guiar pela cabeça, tem de ser emocional.”

“Eu escrevi as primeiras 30 páginas (de O meu pé esquerdo), o Shane contradisse-me nas 60 seguintes e eu contradisse-o nas últimas 30. Nada fazia sentido.”

“Não tem de fazer sentido; tem de ter energia, tem de ser emocional, tem de fluir como um rio.”

“Para fazer um filme temos de ter nenhuma paciência e toda a paciência. É uma contradição. (…) Os filmes são sobre movimento.”

“Os efeitos especiais (CGI) mudaram o mundo. Já não precisamos de acreditar nas imagens que vemos.”

“A televisão está a matar a estrutura em três atos, as estórias fechadas.”

“Quando me dizem que é a idade de ouro da TV eu digo que é a idade de ouro da televisão americana. Será que os outros também podem ter uma oportunidade?”

“Eu escrevo para eu filmar, e às vezes o guião fica difícil de entender.”

(Nota: as citações de Jim Sheridan acima foram traduzidas em direto da palestra em inglês. As minhas desculpas por qualquer imprecisão.)

10:00 – IDEIAS E CRIATIVIDADE – Valentin Fernández-Tubau

Com meia hora de atraso começa agora a conferência do guionista, script Doctors e professor espanhol Valentin Fernández-Tubau. O seu site e newsletter são referências inevitáveis no mercado latino-americano.

10:05 – Paulo Trancoso, presidente da Academia, faz a introdução do festival.


10:10 – Valentin começa a sua apresentação sobre criatividade e geração de ideias.


Depois de apresentar definições de criatividade – combinação inesperada de ideias díspares, estímulos externos + imaginação -, destaca algumas actividades que a facilitam:

  • A importância de pesquisar e recolher informações para aumentar as possibilidades de combinações originais;
  • A vantagem de reservar tempo para entrar no estado de fluxo, onde o tempo se esquece;
  • A necessidade dos autores exercitarem a criatividade, com exercícios e práticas específicas, como o brainstorming e os mapas mentais;
  • Dar tempo de incubação às ideias – muitas surgem em situações com atividades automáticas, como correr ou conduzir; outras em estados de semi-consciência, como antes de dormir; outras em reação a estímulos;
  • Registar e guardar as ideias quando finalmente surgem. 

Necessidade de aplicar o pensamento analítico para afinar as ideias geradas pelo pensamento criativo. 

Evitar os julgamentos e o pensamento crítico durante a fase criativa. São os inimigos da criatividade. 

Algumas dicas para fazer brainstormings eficientes: evitar a crítica; registar todas as ideias; combinar e transformar ideias; procurar ideias loucas; quer-se quantidade e não qualidade. 

11:50 – Coffee Break

12:15 – Retoma da palestra de Valentin Fernández-Tubau. 

Na segunda fase do brainstorming, distinta no tempo, analisam-se, criticam-se e selecionam-se as ideias mais adequadas. 

Algumas ideias sobre os mind maps, mapas mentais, como forma eficaz de fazer brainstorming com nós mesmos.

Avaliação das ideias. Depois de gerar ideias devemos avaliá-los e seleccioná-las. Critérios:

  1. Que nos motive como autores – a experiência emocional;
  2. Que aguente 100 páginas;
  3. Adequada ao meio audiovisual;
  4. Força emocional;
  5. Capaz de tocar o público;
  6. Originalidade;
  7. Universalidade – veracidade das emoções.

Pirâmide de Maslow como base das motivações dos protagonistas.

Fontes das ideias:

  • Média – notícias;
  • Biografias;
  • Clássicos da literatura, peças de teatro, romances;
  • E se…? (what if?)
  • Exploração dos nossos medos.

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Está a começar em Cascais o festival de escrita para cinema e televisão A Quatro Mãos, organizado pela Academia Portuguesa de Cinema. Tentarei ir dando aqui em directo alguma informação sobre os diversos eventos a que for assistindo. 

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