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Como aprender qualquer coisa (incluindo guionismo) em 20 horas – 1ª parte

Em 2008, o jornalista e autor Malcolm Gladwell divulgou, no seu livro best seller do New York Times Outliers / Fora de Série uma pesquisa desenvolvida pelo Dr. K. Anders Ericsson, da Florida State University, sobre o tempo que os melhores desportistas, músicos, jogadores de xadrez, etc. precisam dedicar à prática para atingir os níveis de topo nessas atividades.

A regra das 10.000 horas entrou assim na cultura popular contemporânea.

Ora esta regra não tem nada de errado em si mesma. O bom senso diz que quanto mais alguém pratica uma habilidade melhor se tornará nela.

Mas isso não quer dizer que nós, os cidadãos comuns, precisemos desse nível de investimento e dedicação para aprender as bases de uma nova capacidade. A perspectiva de 10.000 horas de prática (mais ou menos cinco anos a tempo inteiro) não deve sobretudo dissuadir-nos de aprender novas competências.

Na realidade, o empreendedor e autor Josh Kaufman defende até, num famoso Ted Talk, que bastam 20 horas de prática deliberada para adquirir um novo talento.

A teoria das 20 horas

A tese de Kaufman é que a regra das 10.000 horas tem sido mal interpretada na maior parte das vezes em que é citada. Ela aplicar-se-á apenas aos praticantes de elite de áreas altamente especializadas e competitivas que, efetivamente, necessitam de milhares e milhares de horas de prática para atingirem a mestria nesses domínios

Infelizmente, de “são precisas 10.000 para ser um atleta de elite mundial” passou-se para o extremo oposto de “são precisas 10.000 horas para aprender seja o que for“, o que é manifestamente absurdo.

Na realidade, segundo o autor, para aprender as bases necessárias para tirar satisfação de uma nova capacidade, seja ela uma segunda língua, um instrumento, um jogo ou uma linguagem de programação, bastarão 20 horas de prática deliberada, desde que sejam aplicadas segundo uma determinada metodologia.

É, sobretudo, uma questão da intencionalidade da prática versus a sua duração. Obviamente, mais horas de prática de qualidade conduzirão sempre a melhores resultados, mas as 20 horas seriam o ponto de partida mínimo para conseguir resultados satisfatórios.

Seria bom podermos aprender tudo tomando apenas um comprimido, como o protagonista Eddie Morra no filme Limitless, mas enquanto isso não acontece vamos explorar um pouco esta metodologia.

A metodologia de Kaufman

Kaufman desenvolveu posteriormente esta tese no livro The First 20 Hours, em que explica como aplicou a sua metodologia específica para aprender uma série de novas competências, como yoga, cavaquinho, go, programação de computadores e wind surf, dedicando apenas 20 horas de prática deliberada a cada uma delas.

Vale a pena, pois, ter uma ideia de como funciona esta metodologia. Para isso deveremos focar-nos em quatro pontos específicos:

  • Desconstrução da competência
  • Capacidade de autocorrecção
  • Remoção de barreiras
  • Prática deliberada

No entanto, antes de avançar, quero deixar uma coisa bem clara: estas vinte horas de prática, por muito metódica e deliberada que seja, não nos vão tornar executantes de elite: não vamos juntar-nos ao clube de oratória em italiano; não vamos participar nos próximos Jogos Olímpicos; não vamos dar um concerto no Coliseu; e, seguramente, não vamos ganhar o Oscar de Melhor Argumento Original.

Mas se o nosso objectivo for mais modesto – conseguir fazer perguntas simples e entender as respostas em italiano; conseguir participar num passeio de canoagem; tocar algumas canções para os amigos; ou escrever uma curta-metragem competente – então as 20 horas deverão ser suficientes, desde que corretamente aplicadas.

Primeiro ponto: Desconstruir a competência

Cada competência é, na realidade, uma combinação de uma série de sub-competências e habilidades mais simples. Mas nem todas contribuem da mesma forma para o sucesso na prática dessa competência. Algumas são muito mais importantes e fundamentais do que outras.

Na realidade, segundo o também conhecido Princípio de Pareto, 80% dos resultados de uma actividade surgem normalmente de apenas 20% das acções desenvolvidas.

Por exemplo, podemos tocar dezenas e dezenas de canções, incluindo muitos dos maiores êxitos das últimas décadas, aprendendo apenas quatro acordes, como a banda Axis of Awesome demonstrou de forma muito divertida num conhecido vídeo.

Assim, em vez de praticar indiscriminadamente a nossa nova competência, o caminho certo será:

  • analisar os primeiros princípios da actividade que queremos aprender;
  • seleccionar os mais importantes e que contribuem para dar resultados mais rapidamente;
  • definir a ordem ideal para os aprender;
  • e passar à prática deliberada focando-nos apenas neles.

“Sobre cada coisa particular, pergunta: o que é ela em si mesma, e na sua própria construção.” — Marco Aurélio

Um exemplo: para ganhar as competências básicas em auto-defesa, não é preciso passar dez anos a praticar karate. Será muito mais efectivo aprender a meia dúzia de movimentos e técnicas de eficácia mais comprovada, e focar todo o nosso esforço na sua prática e repetição intensa.

A vantagem desta abordagem é que o esforço que aplicarmos no domínio destes princípios básicos converte-se numa base que, mais tarde, facilita a aprendizagem de técnicas mais avançadas, e a progressão para níveis superiores de competência.

Segundo ponto: Desenvolver a capacidade de autocorrecção

Temos muitas vezes a tendência de querer dominar completamente toda a teoria, lendo livros, estudando, e consultando todos os sites e vídeos de treinamento, antes de passar à prática. Isso funciona quase sempre como uma forma de procrastinação, para nos manter longe das dificuldades reais do aprendizado.

No entanto, muitos estudos demonstram que se evolui muito mais depressa se praticarmos muito, corrigindo os erros inevitáveis, do que praticando menos, ainda que com mais perfeição.

Encontramos um bom exemplo no livro Art & Fear. Um professor de cerâmica dividiu os seus alunos em dois grupos. Informou um dos grupos de que, no fim do curso, seriam avaliados em função da quantidade de peças desenvolvidas, independentemente da sua qualidade. O outro grupo foi informado de que deveria produzir apenas uma peça, mas o mais perfeita possível.

Quando chegou a altura das classificações, o professor observou um fato curioso: as melhores peças estavam todas no grupo que ia ser avaliado pela quantidade, e não pela qualidade. O mero facto de terem que fazer, fazer, fazer conduziu esses alunos a melhores resultados do que os outros que se focaram apenas numa única peça perfeita e não tiveram oportunidade de aprender com os seus erros.

O segredo está, então, em estudar o suficiente para saber os critérios que nos permitem detectar os erros e introduzir as correcções necessárias na execução seguinte. Esse ciclo de avaliação e correcção é que conduz ao desenvolvimento acelerado na aquisição de uma nova competência.

Sir Alex Ferguson, o lendário treinador do Manchester United, recorda que, ao fim da tarde, quando todos os outros jogadores iam para casa, Cristiano Ronaldo ficava sozinho no campo a treinar os seus famosos livres-míssil. Para evoluir nesse aspecto Cristiano não precisou de estudar física e aerodinâmica: apenas teve de aprender as bases de como marcar um livre e corrigir os erros; e depois praticou horas sem fim até se tornar o melhor do mundo.

Terceiro ponto: Remover barreiras

Há vários tipos de barreiras que nos impedem de desenvolver uma prática consistente e deliberada para aprender uma nova competência.

Algumas são emocionais e psicológicas, do género “nunca vou conseguir aprender isto” ou “as pessoas vão rir por eu querer aprender a surfar aos quarenta“.

O autor Seth Godin identificou as cinco razões principais porque desistimos de um projecto:

  1. Acaba o tempo disponível… e desistimos.
  2. Acaba o dinheiro disponível… e desistimos.
  3. Assustamo-nos com as dificuldades… e desistimos.
  4. Não nos aplicamos a sério… e desistimos.
  5. Perdemos o interesse… e desistimos.

Destes cinco tipos de razões, só a segunda – a falta de meios – pode, eventualmente, estar fora do nosso alcance. Se não tivermos dinheiro para comprar uma viola, ou acesso regular a esse instrumento, será impossível conseguir aprender a tocar.

Todas as outras questões (até o tempo, se aceitarmos a tese das 20 horas) dependem apenas de nós mesmos.

Vale a pena dar um destaque especial à terceira causa de desistência, aquilo a que o mesmo Seth Godin se refere, noutro livro, como “the Dip”, sobre o qual eu também já escrevi aqui no blogue.

Depois da fase inicial de namoro e paixão, vem sempre, inevitavelmente, uma fase de dificuldades, em que nos questionamos sobre a nossa capacidade para concluir o projecto. É essencial termos consciência de que existe – sempre! – esse buraco no nosso caminho, para conseguirmos ultrapassá-lo e levar o projecto a bom porto.

As cinco fase de um projecto

Há ainda outros tipos de barreiras, físicas e materiais, que estão perfeitamente dentro do nosso controlo. Tudo aquilo que torne mais difícil ou nos distraia da prática deve ser identificado e contornado.

Por exemplo, para nos colocarmos em boa forma física, é melhor escolher um ginásio razoável que esteja no nosso caminho, do que um ginásio excelente que nos obrigue a uma deslocação de meia hora.

Mais importante ainda, é necessário eliminar tudo o que nos possa distrair durante os períodos de prática:

  • escolher um horário adequado e um lugar isolado e tranquilo;
  • desligar a televisão;
  • colocar o smartphone no modo avião;
  • fugir do Facebook e WhatsApp;
  • e explicar às pessoas com quem partilhamos a nossa vida a importância deste período, de forma a que não nos interrompam.

Quarto ponto: 20 horas de prática deliberada.

Nada do que foi dito antes será suficiente se não culminar nas vinte horas de prática deliberada.

pratica deliberada

Entende-se por prática deliberada o tipo especial de prática determinada pelo foco, intencionalidade, e sistematização.

Foco – estamos concentrados, no momento, focados exclusivamente no que estamos a fazer, sem dispersar a nossa atenção.

Intencionalidade – em cada acção, em cada repetição, sabemos exatamente o que pretendemos alcançar e melhorar.

Sistematização – seguimos um determinado plano pré-estabelecido, com objetivos claros e critérios de avaliação definidos antecipadamente.

Em vez de repetir um determinado movimento ou sub-competência de forma indiscriminada e sem atenção, é através da prática deliberada que aplicamos a nossa capacidade de avaliar os erros e introduzir pequenos ajustes e correções.

O feedback (retorno) é a componente essencial deste ciclo de aperfeiçoamento.

Em circunstâncias ideais virá de um professor, mentor, ou praticante mais avançado. Mas é indispensável que nós próprios sejamos capazes de introduzir esse retorno e correcção quando praticarmos sozinhos.

A prática intencional é, pois, a questão chave de toda esta metodologia. Traduz-se em:

  • praticar uma determinada habilidade básica;
  • avaliar o seu resultado;
  • perceber o que nos afastou do resultado ideal;
  • definir as correcções ou novas estratégias que poderão aproximar-nos desse resultado ideal;
  • e voltar a praticar introduzindo esses novos ajustes.

ciclo de feedback

Além disso, é melhor praticar todos os dias por menos tempo, mas com foco e intencionalidade, do que por mais tempo, mas com menos regularidade. Quarenta minutos todos os dias é normalmente melhor do que 4 horas uma vez por semana.

Finalmente, temos também que nos forçar a fazer coisas que estão um pouco além do nosso limiar de conforto, mas não demasiado. Estudos feitos em ambiente escolar mostraram que o ideal é induzir situações de prática em que acertamos 80% das vezes, e erramos as 20% restantes. Uma percentagem de acerto mais alta do que isso torna a prática aborrecida; uma maior percentagem de erro torna-a desmotivante.

Dentro desta lógica, os erros deixam de ser algo de que ter vergonha, mas sim uma componente essencial do processo, com a qual aprendemos e evoluímos.

Uma boa técnica para conseguir aplicar tudo isto é o método Pomodoro.

“Pomodoro” é a palavra italiana para “tomate”. O nome do método inspira-se em alguns relógios de cozinha tradicionais, que têm o formato desse fruto.

pomodoro

O método Pomodoro consiste em usar um cronómetro para delimitar períodos fixos de 20/30 minutos de prática intencional, separados por um pequeno intervalo para descanso.

Alguns estudos recentes mostraram que os estudantes universitários, em média, estão apenas focados no estudo durante meia dúzia de minutos antes de sofrerem algum tipo de interrupção ou distracção. O sucesso do método Pomodoro reside precisamente na sua capacidade de ajudar a prolongar o foco para períodos mais extensos, conduzindo a melhores resultados finais.

Note-se que dois períodos de 20 minutos diários são o suficiente para, num mês apenas, se completar as 20 horas de prática alegadamente necessárias para adquirir uma nova competência.

Importância do descanso

Aos quatro pontos antes referidos, Josh Kaufman acrescenta, no seu livro, um quinto: a importância de dormir bem e descansar entre as sessões de prática.

Está comprovado que é durante o sono que o cérebro e o sistema nervoso sofrem as transformações necessárias para consolidar as novas rotinas. Há mudanças químicas na própria estrutura cerebral que são necessárias para que um determinado movimento ou conceito sejam adoptados natural e automaticamente. Essas mudanças ocorrem essencialmente durante o sono.

Uma possibilidade que já vi também recomendada é dividir os períodos de prática intencional em duas partes: uma sessão nas últimas horas antes de dormir; a outra pouco depois de acordar. Com isso aproveitar-se-ia da melhor forma possível a consolidação dos aprendizados durante o período de descanso.

Conclusão

Está assim definida e explicada, em traços gerais, a metodologia necessária para aprender as bases de uma nova competência em apenas 20 horas.

Mas poderá ser isto aplicado, por exemplo, à escrita de um guião? É isto que tentarei avaliar na segunda parte deste artigo, que será publicada na próxima semana.

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