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Como aprender qualquer coisa (incluindo guionismo) em 20 horas – 2ª parte

A primeira parte deste artigo abordou uma metodologia que, alegadamente, possibilita aprender as bases de qualquer nova atividade em apenas 20 horas, seguindo quatro passos:

  1. Desconstrução da competência
  2. Capacidade de auto-correcção
  3. Remoção de barreiras
  4. Prática deliberada

É óbvio que com apenas 20 horas nunca seremos estrelas nessa nova competência, mas esse número parece ser o limiar para conseguirmos tirar alguma satisfação da nova competência que estamos a adquirir. Por exemplo, é possível aprender a nadar em 20 horas, mas se o nosso objetivo for sermos o novo Michael Phelps, precisaremos com certeza de mais algum tempo (e braços descomunalmente longos…).

Fiquei a pensar se esse número também valeria para uma actividade como o guionismo, e resolvi desenvolver um programa específico nesse sentido. Não o posso testar pessoalmente (já tenho alguns milhares de horas de escrita a mais) mas parece-me possível que alguém sem experiência de guionismo, seguindo estas etapas que sugiro, consiga chegar a um objetivo simples: escrever uma curta-metragem básica.

Como é natural, há alguns pré-requisitos indispensáveis: saber ler e escrever; ter imaginação; ter gosto e algum jeito para contar estórias; e ter acesso a um computador. Mas imagino que alguém a quem este desafio possa interessar deve ter a maior parte destas características.

Vejamos então como aplicar os quatro passos da metodologia referida à aprendizagem do guionismo.

1ª etapa: desconstruir o guionismo

Em termos muito simples, um guião é um documento que descreve, de uma forma clara e compreensível, uma estória destinada a ser produzida num meio audiovisual, usando algumas convenções de formato aceites na indústria da tv e cinema.

Para conseguir escrever um guião, um autor tem de ter noções de:

  • Dramaturgia – o que caracteriza uma boa estória; como se constroem personagens interessantes e ricos; o que é necessário para criar drama e interesse.
  • Estrutura narrativa – como organizar uma estória com princípio, meio e fim; criar uma sequência narrativa, com as cenas encadeadas com causa e consequência; manipular o espaço e o tempo da ficção.

  • Escrita – como escrever as descrições de locais e ações; como apresentar e caracterizar os personagens; como criar diálogos que soem naturais e contribuam para a narrativa.

  • Formato – quais as convenções usadas para apresentar as cenas e sequências no formato correto aceite pela indústria audiovisual; como usar um software especializado neste tipo de escrita.

Mais adiante apresentarei um programa de 20 horas destinado a abordar na prática cada uma destas sub-competências.

2ª etapa: desenvolver capacidades de auto-correcção

É importante que o autor consiga avaliar o que é bom e menos bom na sua escrita. Para isso tem de se familiarizar com o que se faz de melhor nesta atividade, e ter algumas noções de teoria dramática.

O ideal será ler um ou dois livros técnicos de guionismo, e explorar alguns sites dedicados ao tema. Naturalmente, posso sugerir o meu próprio livro e o curso de guionismo que disponibilizo gratuitamente neste site, mas há muitas outras opções disponíveis, algumas das quais apresento na minha página de recursos.

Também é importante ler guiões, porque são obras com uma apresentação e estilo muito diferente de outras formas de escrita. Se possível, será também interessante comparar esses guiões com os filmes correspondentes.

É possível encontrar muitos guiões online. Por exemplo, pode começar com os dez guiões candidatos aos Óscares de 2018, mas se preferir guiões em língua portuguesa, encontra no site Roteiro de Cinema uma grande quantidade deles.

Finalmente, será importante começar a aplicar estas novas capacidades críticas na análise dos filmes e outras peças audiovisuais que for vendo, procurando analisar o que funciona e o que está menos bem, o que respeita as “regras” e o que as quebra ou contorna.

3ª etapa: remover as barreiras

As 20 horas que vai dedicar a este projeto devem ser aproveitadas integralmente. Para isso deverá afastar todas as barreiras e distrações que o possam afastar dessa prática.

Para isso, sugiro que escolha uma hora e local para a sua prática diária, que deverá respeitar religiosamente. Também será fundamental informar as pessoas que o rodeiam da importância que este projeto tem para si, de forma a que o ajudem, motivem e não distraiam. Finalmente, deve desligar televisão, telemóvel e internet, e focar-se exclusivamente na prática da escrita durante os períodos a ela destinados.

4ª etapa: a prática deliberada do guionismo

A minha sugestão é que dedique 20 horas à escrita – uma hora por dia -, distribuídas ao longo de quatro semanas. Poderia haver outras abordagens, naturalmente, mas acredito que a sequência de exercícios que descrevo a seguir pode ajudá-lo a atingir o objetivo que definimos: escrever uma curta-metragem simples.

1ª semana: transcrição de cenas.

Durante esta semana vai apenas transcrever cenas de guiões já produzidos.

Comece por ler esses guiões e escolher algumas cenas de que tenha gostado particularmente. Depois irá copiar essas cenas, palavra por palavra, para um documento de um programa de escrita de guião.

Se quiser fazer este exercício com guiões em língua portuguesa, sugiro-lhe cinco obras para começar – um guião por dia – mas pode encontrar muitos mais no site Roteiro de Cinema:

Com esta prática de cópia de cenas irá familiarizar-se com o programa de escrita que tiver escolhido; perceber as convenções do formato do guião; entender como autores profissionais abordam as descrições de ações, lugares, personagens, etc; e começar a sentir os elementos comuns da escrita de um guião.

2ª semana: reescrita das cenas

Regresse às cenas que copiou na primeira semana, e analise-as à lupa. Tente perceber as suas dinâmicas internas – quem quer o quê, porque razão, que obstáculos encontra, como se resolvem (ou não) – e pense em soluções alternativas.

Volte a escrever essas mesmas cenas, mas modifique-as. Imagine como elas seriam se os personagens tivessem ações diferentes, usassem outras palavras, reagissem de formas alternativas. Explore diferentes caminhos e resultados para cada cena, trabalhando-as até conseguir cenas alternativas que o satisfaçam.

Com estes exercícios irá aprofundar as aprendizagens anteriores, e acrescentar a análise de personagens, conflitos e dinâmicas relacionais dentro de uma cena.

3ª semana: crie sequências originais

Nesta terceira semana vamos levar os exercícios da semanas anteriores a outro patamar. Agora que conhece melhor os personagens que encontrou nestas cenas, imagine como eles se comportariam em situações novas e inesperadas.

Invente um contexto original, objetivos e conflitos diferentes, e explore as formas como estes personagens enfrentariam essas situações, mantendo-os coerentes com as suas personalidades.

Faça-o em sequências de duas ou três cenas encadeadas, mudando de cenário e avançando (ou recuando) no tempo, mas preocupando-se com a forma como as cenas são causa e consequência umas das outras.

Com este exercício irá consolidar o que aprendeu nas semanas anteriores, mas começará a explorar noções mais avançadas de narrativa e estrutura dramática.

4ª semana – escreva uma curta-metragem simples

Crie um personagem interessante, coloque-o perante um problema/dilema importante, e explore os cenários e conflitos que daí nascem, organizando-os numa pequena narrativa audiovisual de duas ou três páginas.

No primeiro dia pode fazer algum brainstorming para procurar ideias e personagens interessantes.

No segundo dia pode escrever uma pequena sinopse da estória, tocando nos pontos essenciais: quem quer o quê, por que motivo, e que dificuldades vai encontrar para o conseguir. Mantenha tudo simples fresco e surpreendente.

Nos restantes dias, escreva o guião, tentando aplicar da melhor forma possível o que aprendeu na escrita das cenas.

Conclusão

Completando este pequeno programa um autor deverá ter nas mãos uma primeira curta-metragem e poderá considerar-se um guionista.

A sua primeira obra terá, com certeza, muitos problemas e limitações (possivelmente não será uma obra-prima) mas o mais importante é que o autor terá aprendido – em 20 horas – as bases essenciais do guionismo, que lhe permitirão abalançar-se a projetos cada vez mais ambiciosos: escrever outras curtas-metragens, sempre melhores; e, porque não, escrever um guião de uma longa-metragem ou um episódio-piloto de uma série de televisão.

A partir daqui, a continuação da prática da escrita, complementada pelo estudo da teoria dramática, pela leitura de guiões, e pela visualização crítica de filmes e episódios televisivos, irão gradualmente levando o novo guionista a níveis cada vez mais elevados de domínio desta competência.

Termino com um pedido: se este artigo o entusiasmar e levar a praticar o processo acima descrito, por favor partilhe os resultados nos comentários abaixo.

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