Afinal, quão verdadeiras são as estórias verdadeiras?

Um dos sites mais estimulantes da net, o Information is Beautiful, virou recentemente a sua atenção para os filmes baseados em estórias verdadeiras, um dos filões mais explorados na indústria cinematográfica americana e mundial. Nesta época em que tanto se fala de #fakenews e de verdades à medida, é um tema interessantíssimo.

Através de gráficos que representam com cores diferentes a veracidade de cada cena de um filme, indo de Desconhecido a Verdadeiro, o artigo chega a uma avaliação final da percentagem de verdade que cada filme contém.

Análise de alguns filmes verdadeiros

Análise de alguns filmes verdadeiros

Por exemplo, Selma é avaliado com um meritório 100%: tudo o que contém corresponde à verdade ou não é possível de avaliar. Já O Jogo da Imitação fica-se por um duvidoso 41,4%: mais de metade do que conta não aconteceu exactamente assim na realidade. O Atirador Americano situa-se mais ou menos a meio, com 56,9%.
O mais interessante, no entanto, é que é possível clicar em cada filme e ver uma linha de tempo, com a sinopse de cada cena e a sua avaliação individual.

Só por si, e mesmo esquecendo a questão da verdade factual, é uma forma muito interessante de estudar a estrutura de alguns filmes importantes dentro deste sub-género cinematográfico.

A lista inclui, entre outros, Lion, A Queda de Wall Street, 12 Anos Escravo e O Discurso do Rei. Já dá para perder umas horas, especialmente para quem planeie vir a escrever um guião sobre uma estória real.

Qual a importância da verdade nas estórias verdadeiras?

Uma estória nunca pode representar a verdade completa, da mesma forma que um mapa nunca é o território.
Mesmo que todas as cenas sejam 100% verdadeiras, como no acima mencionado Selma, os autores tiveram de fazer escolhas, e essa seleção corresponde a um ponto de vista. Jorge Luís Borges referiu algures que é possível escrever biografias distintas da mesma pessoa, só pela escolha dos momentos a incluir em cada uma delas.

Obviamente que, se queremos usar o selo de Estória Verdadeira, devemos ter uma grande preocupação em não nos desviarmos dela desnecessariamente. Mas o simples facto de termos de reduzir para duas horas eventos que, em muitos casos, decorreram ao longo de anos, implica mudanças, por vezes drásticas, para que a estória funcione bem.

Por exemplo, por questões de economia dramática é muitas vezes necessário combinar numa única cena situações que ocorreram em momentos e locais diferentes. Eu tive de fazer isso com frequência nos meus próprios guiões de O Cônsul de Bordéus e Assalto ao Santa Maria, ambos inspirados em factos verídicos da história portuguesa.

O mesmo se passa com os personagens. É normal, por exemplo, que a recolha de provas numa investigação policial real seja feita por muitas pessoas diferentes. Mas isto dificilmente funcionará num filme, pois aí estamos habituados a acompanhar um único protagonista. Daí que seja frequente escolher um dos personagens da estória real e atribuir-lhe situações, descobertas, diálogos e até características físicas de outros intervenientes na vida real.

Finalmente, é muitas vezes preciso criar cenas ou personagens completamente novos, com 0% de relação com a realidade, mas que servem de ponte entre situações distintas, ou explicam factos importantes mas complicados. Já falei sobre isso num artigo anterior, em que analisei a adaptação de temas complexos, usando como exemplo o referido A Queda de Wall Street.

Conclusão

Um filme é primeiro que tudo uma obra dramática de ficção, mesmo quando é inspirado em factos reais. Não se deve pedir-lhe a mesma veracidade que a uma reportagem jornalística ou a um livro de investigação.

O público entende perfeitamente isto, e não espera outra coisa do Cinema, desde que reconheça que a intenção dos autores é honesta, motivada por fins artísticos, e sem objetivo de manipulação.

Veja aqui o artigo completo de Information is Beautiful =>

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