Ferramentas do Guionista: In Medias Res

O que é

In medias res é uma expressão latina que significa no meio das coisas. Em dramaturgia, utiliza-se para designar a opção estrutural de começar uma estória num momento de acção mais excitante ou surpreendente, de forma a agarrar o interesse dos leitores/espectadores logo desde o início.

É uma ferramenta usada em todas as formas narrativas, desde poemas épicos como a Ilíada, de Homero, e romances como O Jogador, de Dostoyevski, até, mais recentemente, filmes, séries de televisão e até jogos de consola.

Encontramos um exemplo perfeito no primeiro episódio da série televisiva Breaking Bad, que começa com o protagonista, Walter White, em cuecas brancas e envergando uma máscara de gás, a conduzir uma carrinha cheia de pessoas inanimadas por uma picada no deserto, até se despistar e atolar o veículo. Desafio alguém a parar de ver esse episódio, depois de um arranque tão brutal e inesperado.

Como usar

Há diversas formas de usar o in medias res no início de um guião. Vejamos as mais importantes:

1) Começar com o final de uma estória anterior

É o arranque à James Bond, em que uma sequência de acção explosiva inicial é, na realidade, o clímax de uma outra estória anterior, que podemos apenas imaginar.

Apesar desta sequência inicial ser independente da estória que se vai seguir no filme, pode (e deve) servir para introduzir alguns elementos que serão relevantes na continuação da narrativa.

É o caso da sequência inicial de Os Salteadores da Arca Perdida em que, além de vermos o protagonista Indiana Jones em acção, conhecemos um dos seus principais antagonistas, o arqueólogo rival Belloq, e até descobrimos a sua repulsa por cobras, elementos que serão explorados nos 100 minutos que se seguem.

2) Começar com a acção principal já a decorrer

É o arranque a quente, em que apanhamos o comboio narrativo já em movimento, quase a sair da estação. Nesta forma de usar o in medias res a estória já está em curso e a cena em que embarcamos deixa uma série de interrogações que irão depois sendo esclarecidas pouco a pouco.

Por exemplo, no começo de Um Lugar Silencioso encontramos a família protagonista a percorrer, de pés descalços e em absoluto silêncio, um pequeno supermercado abandonado.

Percebemos que esses personagens já não estão no nosso mundo normal e que alguma coisa terá acontecido para os obrigar aquele comportamento incomum. Mas só mais tarde iremos perceber o que os conduziu ali e porque razão o silêncio é tão crucial para a sua sobrevivência.

Esta sequência inicial mostra também que um começo in medias res não precisa ser agitado e aparatoso para ser eficaz. O ambiente de tensão que vai permear Um Lugar Silencioso é estabelecido magistralmente logo nesses primeiros minutos, sem palavras e com grande economia de acções.

3) Começar com uma acção relacionada

Neste arranque em paralelo a sequência de acção inicial não é centrada no protagonista mas sim noutro personagem importante. Deve, contudo, introduzir elementos relevantes para a acção principal que iremos depois acompanhar.

É o caso de Matrix, que começa com uma espectacular sequência de luta, recheada de efeitos especiais nunca vistos, protagonizada pela personagem complementar Trinity; ou de Batman: O Cavaleiro das Trevas, que arranca com um assalto conduzido pelo inesquecível antagonista, o Joker.

4) Começar e voltar atrás

O arranque em falso é, hoje em dia, a forma mais frequente de usar o in medias res. Nesta opção começamos a estória com uma sequência de acção de grande impacto, ou uma revelação surpreendente, e depois, através de um flash back (analepse), regressamos a um momento anterior da narrativa. A partir desse reinício seguimos a estória de forma mais linear até chegar de novo à sequência que vimos inicialmente.

Michael Clayton é um excelente exemplo. Na cena de abertura o protagonista, interpretado por George Clooney, estaciona o carro numa estrada rural e sai para ver uma cena idílica, sendo então surpreendido pela explosão de uma bomba no seu veículo. Um flash back transporta-nos para alguns dias antes, começando então a sequência de eventos que conduz novamente ao momento da explosão, e daí segue para o clímax do filme.

Nestes casos, a sequência escolhida para iniciar o filme é, muitas vezes, um ponto crucial da estória: o inciting incident, no caso de Homem de Ferro; uma viragem de acto, como em A Ressaca ou o referido Michael Clayton; o midle point, como em Goodfellas/Tudo Bons Rapazes; o clímax físico, como em Fight Club, ou emocional, como em Pulp Fiction; ou até o dénouement, como nos clássicos Sunset Boulevard ou Lawrence da Arábia.

5) Começar com o fim à vista

O arranque em desespero é uma variação do formato anterior, em que a sequência escolhida mostra o protagonista num momento de desespero: à beira da morte, ou numa situação de fuga impossível.

Um belo exemplo é o início de Kill Bill Vol.1, com o aparente assassinato da Noiva às mãos de Bill. Essa mesma cena regressa mais tarde em todo o seu esplendor, se não me engano já no Vol.2.

6) Começo com vários regressos ao início

O arranque em vaivém é uma outra variação do falso arranque, em que a cena inicial do filme é revisitada mais do que uma vez ao longo da estória.

Um exemplo clássico é o filme Forrest Gump. No começo encontramos o protagonista com a famosa caixa de chocolates, numa paragem de autocarros. A sua vida vai sendo narrada pelo próprio a diversas pessoas que esperam o autocarro com ele, em sucessivos flash backs, e a estória regressa várias vezes à situação inicial.

Nesta estrutura, é também possível que em cada retorno se acrescente alguma informação, ajudando a descodificar melhor o que estamos a ver.

Cuidados a ter

O in medias res é uma ferramenta poderosa que pode ser usada com grande impacto, especialmente em filmes que normalmente teriam um arranque mais lento e demorado se a estória fosse contada de uma forma exclusivamente linear.

Devemos ter, no entanto, algumas precauções, das quais destaco as seguintes:

  • Não é correcto usar um começo in medias res apenas para acrescentar algum interesse a uma estória que de outra forma seria aborrecida ou pouco surpreendente. Esta ferramenta estrutural melhora algumas estórias, mas não as salva se forem um desastre.
  • A cena escolhida para o início deve estar intimamente ligada à estória principal – se não directamente ao protagonista pelo menos a outros personagens importantes da narrativa. É um sinal de amadorismo se começarmos in medias res numa situação que depois não tem uma relação significativa com a nossa estória.

  • Temos também de ter em consideração que ao começar um filme in medias res o espectador não sabe o que está em jogo nem por quem deve torcer. Isto pode criar uma certa confusão inicial, que pode gerar distanciamento. Devemos ter o cuidado de identificar o protagonista da sequência inicial, para gerar empatia no espectador. Os Salteadores da Arca Perdida é um exemplo brilhante, com a sua famosa revelação de Indiana Jones.

  • Nos casos em que depois da cena inicial regressamos a um momento anterior, devemos ter cuidado em não revelar demasiado da acção. O objectivo aí é despertar o interesse e levantar questões, mas devemos guardar as respostas para mais tarde.

  • Também nestes casos, a cena inicial não deve levar o espectador a conclusões erradas, quanto ao tipo de filme que virá a seguir. Se um filme começar com uma cena que indica um determinado género (terror, por exemplo) e depois o filme for de outro género, essa dissonância dificilmente será benéfica.

Dez bons exemplos de filmes que começam in medias res

  • 12 Anos Escravo
  • Any Given Sunday
  • Batman Begins
  • Casino
  • Gandhi
  • John Wick
  • Os Suspeitos do Costume
  • Raging Bull
  • Reservoir Dogs
  • Slumdog Millionaire

Conclusão

Um dos objetivos do arranque de um filme ou episódio de televisão é, seguramente, despertar o interesse do espectador e agarrá-lo à estória.

O in medias res é uma ferramenta poderosíssima para o conseguir, com uma longa tradição em todas as formas narrativas, e tem sido muito bem utilizada no cinema e televisão, como o demonstram os exemplos aqui apresentados.

Mas os começos também servem para apresentar os personagens da nossa estória, o seu mundo e o que está em jogo.

Se o in medias res contribuir para isso, devemos considerar a sua utilização; mas se prejudicar alguns desses aspectos, pode não ser a ferramenta adequada para a estória que queremos contar.

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