Meditação para escritores

meditação

“Se ainda não faz meditação, siga o meu conselho: comece. É a melhor decisão que alguma vez irá tomar.” – David Lynch

Ao longo dos anos tenho vindo a namorar, de forma esporádica e intermitente, com a ideia e a prática da meditação. Apesar de vários amigos me recomendarem, e dos testemunhos de um sem número de artistas e empreendedores, nunca tinha conseguido introduzi-la de forma consistente na minha rotina diária.

Este ano, finalmente, consegui dar esse passo e, parafraseando David Lynch, foi a melhor decisão que tomei recentemente.

Consigo ver já muitos resultados positivos dessa disciplina, a nível criativo, profissional e pessoal. Acredito que a meditação pode dar um contributo muito positivo para nos tornar melhores escritores (além de melhores pessoas, o que também dá jeito). Como tal decidi partilhar aqui a minha experiência, mesmo que ainda esteja no início e tenha um longo caminho a percorrer.

O que é a meditação

Não há uma definição única e universal para a meditação. Todas as tradições espirituais têm algum tipo de prática que pode ser incluída dentro do espectro desta disciplina. Nas religiões ocidentais, por exemplo, a oração e a contemplação podem assumir por vezes formas semelhantes ao que se entende por meditação.

No entanto, foi no oriente que as práticas meditativas, tais como as reconhecemos hoje, se desenvolveram, fazendo parte do tecido da civilização local.

Essas práticas acabaram por se codificar de muitas formas diferentes, através de sistemas como a Meditação Transcendental, a Meditação Zen, a Meditação Vipassana, a Meditação do Yoga, etc. Cada sistema tem os seus métodos, terminologias, e procedimentos próprios, e uma pessoa pode sentir-se rapidamente perdida a tentar perceber e destrinçar estes ensinamentos.

No entanto, no fundo, a meditação é uma coisa muito simples. Veja como o filósofo indiano Osho a explica, de uma forma facilmente compreensível:

Apenas sente-se, sem fazer nada; e, um dia, a meditação acontecerá. Não é você que a trará; na realidade, é ela que virá até você. E, quando vier, você irá reconhecê-la imediatamente. O fato é que ela sempre esteve aí, só que você não estava olhando na direção correta. O tesouro sempre esteve com você, mas você estava ocupado com outras coisas: pensamentos, desejos, mil e uma coisas. Você não estava interessado na única coisa que realmente importa: o seu próprio ser.

No fundo, tudo se resume a isto: encontrar um tempo e um espaço para, em silêncio, deixar a mente aquietar-se.

Como Osho ensina no mesmo texto, meditar é estar sentados na margem de um riacho (a nossa mente), limitando-nos a observar a corrente até toda a lama assentar no fundo e a água ficar pura e cristalina.

A mente como um rio tranquilo. (foto de Federico Botto)
A mente como um rio tranquilo. (Foto de Federico Botto)

Vantagens para os criativos

Inúmeros estudos científicos têm confirmado as vantagens da prática da meditação em aspetos como o controlo da dor, a diminuição da ansiedade e da depressão, e a melhoria das funções cognitivas. Alguns estudos referem até mudanças na própria constituição do cérebro em áreas associadas com a aprendizagem, memória, regulação emocional e auto-consciência.

Para os criativos, em geral, e para os escritores em particular, a meditação pode ajudar em áreas tão diferentes como o reforço da auto-disciplina, a melhoria da atenção e concentração, a diminuição da ansiedade (o medo da página em branco…), e o acesso mais consistente ao inconsciente, fonte de criatividade.

O cineasta David Lynch é um dos grandes promotores da meditação (no seu caso, na vertente Transcendental) como forma de aceder às fontes mais profundas e escondidas da imaginação e criatividade. Numa entrevista recente ao LA Times Lynch explica:

Queremos mais ideias, mais energia para desenvolver o nosso trabalho e mais felicidade ao fazê-lo – onde está tudo isto? Está dentro de nós… Penso que as ideias estão aí e nós apanhamo-las como apanhamos peixe. Quanto mais consciência tivermos mais fundo podemos ir apanhar essas ideias.

Para os artistas essa possibilidade de aceder à inspiração, desbloquear travões e medos, ir mais fundo no nosso inconsciente, fazer conexões mais livres e inesperadas, encontrar ideias mais criativas, é uma dádiva sem preço. Só por si isso já justificaria a decisão de começar a meditar.

Como começar

Há muitas técnicas e abordagens à meditação. A que vou descrever a seguir é a que tenho usado, baseada no método Vipassana. Não pretendo com estas indicações substituir a aprendizagem com um professor devidamente preparado (que eu próprio tenciono procurar) mas sim apontar pistas e mostrar um caminho que me tem sido útil.

  1. Procure um lugar razoavelmente sossegado e sente-se confortavelmente. Pode ser no chão, numa almofada, na borda da cama, ou num sofá ou cadeira. O importante é ficar numa posição relaxada mas também aprumada.
  2. Coloque um despertador para o tempo pretendido (10 minutos é uma boa base para começar) e feche o olhos.
  3. Concentre a sua atenção no fluxo da respiração. Pode fazer duas ou três inspirações e expirações mais longas do que o normal, para ajudar o corpo a relaxar, mas depois deixe a respiração assumir o seu ritmo normal, sem tentar controlá-la.
  4. Se ajudar, repita mentalmente algo como “inspirar” e “expirar” ao ritmo da respiração. Outra possibilidade é ir contando as inspirações e expirações de 1 a 10, e depois no sentido contrário.
  5. O importante é manter o foco da atenção no processo de respiração, sentindo o fluxo do ar, nas narinas ou no peito.
  6. Inevitavelmente esta concentração será interrompida pelos pensamentos mais diversos: memórias, preocupações, tarefas, mágoas, medos ou fantasias. Não se preocupe; isto é absolutamente normal.
  7. A prática meditativa resume-se apenas a tomar consciência de que estes pensamentos se formaram e, gentilmente, sem censura ou pressão, retomar o foco na respiração
  8. Este ciclo vai repetir-se várias vezes durante cada sessão: foco na respiração => dispersão => consciência da dispersão => retorno à respiração.
  9. Irá também começar a tomar consciência de tudo o que o rodeia, e ser capaz de integrar esses estímulos e percepções na sua prática. Sons, sensações de calor ou frio, comichões e desconfortos variados, emoções, deixarão de ser motivos de distração mas apenas objetos cuja existência reconhece e aceita.
  10. Com a prática irá tornar-se mais exímio e rápido na identificação dos pensamentos dispersos, regressando (sempre sem ansiedade) ao foco na respiração.

Algumas dicas adicionais

  • Uma das técnicas que podemos usar durante a meditação é o rastreio corporal. De forma muito simplificada, trata-se de ir focando a nossa atenção, enquanto respiramos, nas diferentes partes do corpo. Podemos começar pela cabeça e ir descendo lentamente até aos pés, explorando o campo de sensações associadas a cada parte do corpo. O objetivo não é mudar nada intencionalmente, apenas tomar consciência das sensações, mas na prática este exercício ajuda-nos a relaxar profundamente.
  • Para mim tem sido muito bom fazer meditação de manhã muito cedo. Funciona como uma base de tranquilidade e consciência que me ajuda a enfrentar o dia com mais calma e foco.
  • Também ajuda muito, especialmente na fase inicial de prática, seguir meditações guiadas. Há muitas gravações de mestres de meditação que vão dando indicações e conselhos (normalmente numa voz profunda e quase hipnótica) ao longo da sessão. Mais adiante incluo algumas na lista de recursos.
  • Quando comecei a meditar usei dois aplicativos gratuitos que incluem pequenos cursos introdutórios, com sessões guiadas. Foram muito úteis, e incluo-os na lista de recursos. Continuo a usar um deles, o Calm, pois inclui uma funcionalidade ótima: o registo de sessões, que me permite saber exactamente quantas horas de meditação já fiz.
  • Finalmente, é importante criar uma rotina consistente. É mais útil fazer 10 minutos por dia do que tentar fazer uma hora seguida só no fim de semana. Como em tantas outras coisas, a repetição frequente acumula pequenos benefícios incrementais que, ao fim de algum tempo, fazem uma diferença significativa.

Recursos

Leitura

Meditações guiadas

Apps

Conclusão

Gostaria muito de dizer que já sou um meditador experiente, um verdadeiro guru, mas infelizmente não é verdade.

Estou ainda muito no início do processo (com apenas 227 sessões, segundo o meu aplicativo Calm) e sei que tenho um longo caminho a percorrer. Mas os resultados têm sido tão bons que todos os dias acordo ansioso por pôr os pés na estrada.

Vamos juntos?

Experiência do leitor

Já tem experiência com meditação? Tem dicas, sugestões ou conselhos que gostaria de partilhar? Deixe a sua opinião nos comentários abaixo.

“Manual de Guionismo” de João de Mancelos

A minha biblioteca de livros sobre escrita e guionismo inclui várias dezenas de obras, que fui coleccionando e estudando desde que adquiri o Screenplay – The Foundations of Screenwriting de Syd Field numa pequena livraria especializada em cinema, em Los Angeles, há mais de duas décadas.

Esses livros têm constituído parte importante da minha formação como guionista e autor. O Manual de Guionismo, do autor e professor universitário João de Mancelos, é uma das adições mais recentes, que eu não poderia deixar de referir.

Dois mercados, duas medidas

Há um grande défice editorial de livros em língua portuguesa sobre escrita para cinema, especialmente em Portugal. No Brasil ainda se vão encontrando traduções de muitos textos importantes, como o referido Screenplay, editado pela Arte & Letra como Roteiro – Os Fundamentos do Roteirismo, ou o mais recente e muito citado Story. Infelizmente, deste lado do Atlântico as opções são muito mais reduzidas.

Esta discrepância é ainda mais evidente se reduzirmos a análise a livros de autores originais de língua portuguesa. Há algumas – não muitas – obras de autores brasileiros, das quais destacaria o clássico Da criação ao roteiro de Doc Comparato (um dos primeiros livros que li nesta área), ou o mais recente Manual de Roteiro, ou Manuel, o primo pobre dos Manuais de roteiro para Cinema e TV< de Leandro Saraiva e Newton Cannito. Mas até há pouco tempo não haviam obras sobre guionismo de autores portugueses (pelo menos que eu saiba; por favor corrija-me se estiver errado). João de Mancelos viu essa lacuna e, ao fim de dois anos de trabalho, colmatou-a com o seu Manual de Guionismo.

Um Manual para os nossos dias

Eu já tinha referido o Manual de Guionismo aqui no blogue na altura da sua edição, mesmo sem o ter lido. Procurei-o várias vezes em livrarias mas nunca tinha tido a sorte de o encontrar. Há dias, na Cinemateca Nacional, lembrei-me que ali seria o sítio certo para o procurar, e acertei finalmente.

O autor, João de Mancelos, é professor de Guionismo na Universidade da Beira Interior e de Escrita Criativa na de Aveiro. O livro é claramente baseado na sua extensa experiência como professor e formador nestas áreas.

É um livro pequeno e rápido de ler, mas com um conteúdo muito rico. Os capítulos são breves e claros, bem organizados, focando temas relevantes de guionismo. A linguagem é simples, acessível e num tom bem-humorado, intercalando pequenas estórias pessoais com muitas referências académicas. É uma combinação peculiar entre o pop e o erudito, mas funciona muito bem.

Por exemplo, logo a abrir o livro, o autor recorda uma memória de infância para introduzir uma citação de Salmon Rushdie sobre a dificuldade em separar a verdade da mentira na literatura. Daí parte para Barthes e outros exemplos de como a arte de mentir satisfaz uma necessidade profunda dos seres humanos.

Todo o livro segue nesse registo, recheado de exemplos retirados da literatura e do cinema clássico e contemporâneo. O autor também é pródigo em anedotas, dicas, sugestões e até exercícios, nascidos na sua experiência como professor, bem exemplificados no capítulo Como fazer a vida negra ao protagonista.

Aí começa por afirmar que “A missão principal de um guionista é simples: fazer a vida negra ao herói, contrariá-lo, colocar-lhe entraves, esmagá-lo com surpresas desagradáveis” e termina com um exercício simples: “Proponho-lhe que identifique o tipo de conflito que existe no seu guião. Depois, veja pelo menos dois filmes que tirem partido deste tipo de imbróglio. Como se constrói o suspense? E que efeito tem o conflito nos personagens?”

O Manual de Guionismo não é um livro dogmático, com uma fórmula que força determinados métodos ou abordagens, mas faz uma introdução sucinta às principais teorias da dramaturgia, hoje quase universalmente aceites, como a viagem do herói ou o paradigma.

João de Mancelos termina o seu livro com um curioso making of em que explica o processo de criação da obra e deixa explícita a sua intenção ao escrevê-la: “Este Manual de Guionismo teve por objetivo ajudá-lo a desenvolver as as suas capacidades, através da partilha de estratégias simples, mas eficazes, para construir uma intriga, que sirva de base a um bom filme.”

Conclusão

O Manual de Guionismo de João de Mancelos é um livro pensado para as necessidades dos estudantes de um nível introdutório, mas inclui suficientes gemas para interessar também aos mais praticantes mais avançados, ou a qualquer pessoa que goste de cinema em geral. Como tal, é uma adição interessante para todas as bibliotecas.

Título: “Manual de Guionismo”
Autor: João de Mancelos
Nº de páginas: 141
Preço: 10€ na Livraria da Cinemateca Nacional

Desafio aos leitores

Que outros livros sobre guionismo, ou escrita em geral, de autores de língua portuguesa, gostaria de recomendar? Deixe as suas sugestões nos comentários abaixo.